Como já pressentia o surto que teria pela ansiedade de não estar no chão, tomei um calmante pouco antes de embarcar, e por isso passei a maior parte da viajem apagada.
Acordei com o aviso do piloto de que já íamos aterrissar.
- Moça, você tá babando - O garotinho do outro lado apontava pra mim enquanto ria da minha cara molhada.
Limpei com um lenço que o homem ao meu lado me entregou e ri envergonhada.
- Pelo menos a senhorita apagou a ponto de não ouvir os berros por horas do bebê ali atrás. - o homem de antes brincava.
Senhorita... Que educação! Noto um sotaque quase irreconhecível.
- Pelo menos isso. - ri mais solta.
- Intercâmbio para ensino médio? - puxou assunto.
Gargalhei.
- Quem dera. Vim pra tentar a vida mesmo. - ele me encarava desconfiado.
- Fugiu dos pais, então? Quantos anos você tem?
- Tenho 23. E não fugi não. Inclusive, minha mãe me apoiou bastante a me aventurar após me formar na faculdade. Guardamos dinheiro por dois anos pra isso. Devo tudo à ela!- as malditas lágrimas querendo escapar de novo.
- Ainda assim, a senhorita ainda é muito jovem para mudar para outro país. - disse mais para si mesmo que para mim.
- Senti um sermão de pai e nem te conheço. - brinquei.
- Peço perdão por isso! É força do Hábito. Vivo para cuidar de meus irmãos, mesmo após adultos.
- Quantos irmãos?
- Agora somos em cinco.- percebi um desconforto em sua voz.
- Desculpe.
- Tudo bem, já fazem séculos...
Estranhei.
- Mudando o assunto, o que está fazendo de terno na classe econômica?
- Apenas uma pequena emergência, não haviam mais lugares na primeira classe e eu precisava buscar um artefato e trazê-lo rapidamente para minha irmã mais velha. Problemas familiares quase rotineiros. - rimos.
Ele parecia não se importar em responder minhas perguntas, mas achei melhor não me intrometer mais.
- Já escolheu para onde irá, senhorita?
- Pretendo visitar alguns lugares para ver aonde me adapto. - Senhorita... Gosto disso... - Você fala português muito bem. Já morou por aqui, ou tem parentes?
- De certa forma. Tenho parentes pelo mundo todo. Mas também, sou mais velho que pareço. Tive tempo o suficiente para aprender muitas linguagens.
Seu sorriso simpático me causou frio na barriga. Ele parecia mais velho sim, mas era bonito de tirar o ar. Comecei a me perder em meus pensamentos, mas a lembrança da minha cara babada me fez querer me enfiar em um bunker e só sair aos 90 anos.
Levantamos para sair do avião.
- Perdão novamente, qual seu nome, senhorita? - aquele olhar me fez sair do ar por alguns segundos
- (S/N).
- Encantadora (S/N), eu sou Elijah.
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Estendi minha mão para apertar a dele, mas ao invés disso, ele a beijou.
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