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NARRADOR

A chuva caía como um véu de prata, transformando a estrada de terra em um espelho lamacento que refletia o céu cinzento do interior da Inglaterra. Amara Miller mantinha as mãos cruzadas no colo, os dedos inquietos tamborilando na mochila surrada enquanto o carro sacolejava. O cheiro de couro úmido do banco misturava-se ao perfume cítrico de Dani, sua irmã mais velha, que dirigia com uma concentração forçada. O silêncio entre elas era pesado, interrompido apenas pelo chiado dos pneus contra a lama e pelo ritmo constante do limpador de para-brisa.

Amara desviou o olhar para a janela, o vidro frio contra sua bochecha. Seu cabelo liso e preto, cortado na altura dos ombros, grudava na nuca, úmido pela umidade que parecia invadir tudo. Lá fora, campos selvagens esticavam-se até onde a vista alcançava, salpicados por árvores tortuosas que pareciam estender galhos como mãos implorando ao céu. No horizonte, a silhueta da Mansão Fairchild surgia, imponente e sombria, com torres que cortavam as nuvens e janelas escuras como olhos fechados. Amara sentiu um aperto no peito, não exatamente medo, mas uma inquietação que não conseguia nomear.

— Para de fazer essa cara, Mara — disse Dani, sem tirar os olhos da estrada. Seu cabelo loiro, preso em um rabo de cavalo baixo, balançava levemente enquanto ela manobrava o volante. — Não é como se estivéssemos entrando em um castelo assombrado. É só uma casa grande. E um emprego.

Amara bufou, cruzando os braços. 
— Uma casa grande no meio do nada, onde você vai ser babá e professora de uma menina que ninguém explica por que estuda em casa. Não é esquisito?

Dani suspirou, o som carregado de cansaço. 
— Esquisito ou não, a gente precisa disso. Você sabe disso.

Amara mordeu o lábio, a culpa apertando seu estômago como uma pedra. Três meses atrás, Dani havia sido demitida de seu emprego como professora primária. Tudo porque precisou buscar Amara na escola depois que ela perdeu a cabeça e socou uma garota que zombou da morte dos pais delas. O acidente de carro que levou a mãe e o pai delas, há dois anos, ainda era uma ferida aberta. Amara não conseguia esquecer a discussão com o pai naquela noite, as palavras duras que trocou com ele antes de ele sair para buscá-la em uma festa. Se ela não tivesse sido tão teimosa, talvez eles ainda estivessem vivos. Dani nunca a culpou, mas Amara carregava o peso sozinha.

O carro parou diante de um portão de ferro enferrujado, que rangeu ao se abrir como um lamento metálico. A Mansão Fairchild erguia-se à frente, suas paredes de pedra cinzenta cobertas de hera seca, como se a própria casa estivesse sufocando sob o peso do tempo. O jardim ao redor era selvagem, com arbustos espinhosos e roseiras murchas que pareciam nunca terem sido podadas. À distância, um lago escuro refletia o céu carregado, suas águas imóveis como um espelho quebrado. Amara sentiu um arrepio que não explicava, como se a casa a observasse.

— Vamos lá — disse Dani, desligando o motor e pegando sua mala do banco traseiro. Sua voz era firme, mas Amara notou o leve tremor em suas mãos. Dani sempre tentava parecer forte, mas Amara sabia que ela também estava nervosa.

As duas arrastaram suas malas pelo caminho de pedras escorregadias, a chuva encharcando seus casacos. Antes que pudessem bater, a porta principal se abriu com um rangido grave, revelando uma mulher idosa de cabelos grisalhos presos em um coque apertado. Seus olhos eram afiados, mas sua voz era suave, quase doce demais.

— Vocês devem ser as irmãs Miller. Sou Marta Grose, a governanta. Bem-vindas à Mansão Fairchild. — Ela fez um gesto para que entrassem, e Amara hesitou por um instante antes de cruzar o limiar.

O hall de entrada era vasto e frio, com um lustre de cristal empoeirado pendendo do teto abobadado. O chão de madeira rangia sob seus pés, e as paredes eram forradas de painéis escuros, interrompidos por retratos de rostos severos que pareciam julgar cada passo. Um cheiro de cera velha e umidade pairava no ar, misturado com algo que Amara não identificava — talvez mofo, talvez algo mais antigo. Um corredor se estendia à frente, mal iluminado por candelabros de ferro que lançavam sombras dançantes.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora