Amara: eu sou feminista obviamente, mas não me importaria se ele me salvasse.
AMARA MILLER
O corredor da biblioteca da escola era um túnel de sombras, as estantes altas projetando silhuetas escuras que engoliam a luz fraca das lâmpadas embutidas. O cheiro de livros velhos e poeira pairava no ar, misturado ao eco distante de vozes abafadas e ao rangido ocasional de uma cadeira. Era o fim da manhã, e eu estava na biblioteca, procurando outro exemplar O Morro dos Ventos Uivantes*para o trabalho com Miles, já que um livro só para nós dois não era o suficiente para manter uma distância segura, o peso do quase-beijo no quarto dele ainda queimando na minha mente. A memória da respiração quente dele, do brilho perigoso nos olhos escuros, do jeito que ele parecia desmontar todas as minhas defesas, me deixava inquieta, como se eu estivesse caminhando na beira de um precipício.
Eu estava na seção de literatura clássica, os dedos roçando as lombadas gastas, quando uma voz melíflua e irritante cortou o silêncio como uma faca mal afiada.
— Amara, sempre tão difícil de encontrar — disse Ethan, surgindo entre as estantes, o cabelo loiro bagunçado caindo sobre os olhos, o sorriso largo demais para ser genuíno. Ele se encostou na estante, bloqueando minha saída, o corpo inclinado para frente como se quisesse invadir meu espaço. Parecia uma praga difícil de se livrar.
Revirei os olhos, o estômago apertando com irritação. Ethan era como uma mosca insistente, aparecendo nos piores momentos, como no piquenique ou no corredor.
— Não tão difícil de encontrar pelo visto— retruquei, a voz cortante, tentando passar por ele com o livro na mão. — Só quero pegar isso e ir embora.
Ele deu um passo, bloqueando o corredor estreito, o sorriso se alargando enquanto se inclinava mais perto, o cheiro de colônia barata me sufocando.
— Qual é, Amara, relaxa — disse, a voz arrastada, como se estivesse me fazendo um favor. —Posso te ajudar a se... enturmar. E outras coisas mais...
Antes que eu pudesse responder, ele esticou a mão, segurando meu pulso com força, os dedos apertando a ponto de doer. Um arrepio de raiva subiu pela minha espinha, misturado a um pingo de medo. Tentei puxar o braço, mas ele apertou mais, o sorriso agora com um brilho que me fez enrijecer.
— Me solta, Ethan — disse, a voz baixa, mas firme, o coração disparando. A dor nos pulsos era aguda, e eu sentia a pele queimar sob os dedos dele.
— Não precisa ser assim tão fria — disse ele, o tom melífluo agora com uma ponta de ameaça, o outro braço se movendo como se quisesse tocar meu rosto. —Eu sei que você quer me beijar.
Antes que eu pudesse reagir, o ar mudou, ficando denso, como se a própria biblioteca tivesse prendido a respiração. Miles apareceu na curva do corredor. Seus olhos pretos estavam fixos em Ethan, brilhando com uma fúria crua que fez meu coração pular. Ele avançou, rápido, o corpo tenso como um arco prestes a disparar.
— Solta ela. Agora — disse Miles, a voz rouca, cada sílaba carregada de uma ameaça que parecia vibrar no ar.
Ethan riu, mas o som saiu nervoso, e ele soltou meu pulso, levantando as mãos em rendição.
— Calma, cara, só tava conversando — disse, mas antes que terminasse a frase, Miles deu um passo à frente, o punho voando em um arco rápido. O soco atingiu Ethan no rosto, o som do impacto ecoando como um trovão. Ethan cambaleou, o lábio cortado, sangue pingando no queixo, os olhos arregalados de choque.
— Se você tocar nela de novo — disse Miles, a voz baixa, mas cortante como uma lâmina, —Eu vou ficar na cadeia pelo resto da minha vida.
Ethan limpou o sangue com a mão, murmurando algo incoerente antes de recuar, desaparecendo entre as estantes. Meu coração ainda batia rápido, a dor nos pulsos latejando, mas o que me prendia era Miles — a fúria nos olhos dele, o peito subindo e descendo, o jeito que ele parecia pronto para destruir qualquer coisa no caminho. Ele virou-se para mim, o olhar suavizando, mas ainda carregado de algo intenso, algo que fazia minha pele queimar.
— Você está bem? — perguntou, a voz mais suave agora, mas ainda rouca, os olhos percorrendo meus pulsos, onde marcas vermelhas começavam a aparecer.
— Tô — respondi, a voz trêmula, esfregando os pulsos. —Eu podia ter lidado com ele.
Miles ergueu uma sobrancelha, o meio-sorriso torto voltando, mas havia uma preocupação genuína nos olhos dele.
— Claro, Miller — disse, o sarcasmo leve, mas o tom mais quente do que o normal. —Vamos embora antes que eu precise socar mais alguém.
Ele me guiou para fora da biblioteca, a mão roçando meu ombro de leve, um toque que era ao mesmo tempo protetor e elétrico. Eu não disse nada, mas o calor do contato dele ficou comigo o resto do dia.
[...]
Na Mansão Fairchild, a noite caiu como um véu, as torres escuras cortando o céu estrelado, a hera seca rastejando pelas pedras cinzentas como dedos mortos. Passei a tarde ajudando Flora, enquanto ela falava sobre as rosas que Miles cuidava na estufa, a voz dela cheia de admiração. Agora, à noite, quando eu estava livre, a mansão parecia viva com sombras, o cheiro de madeira úmida e cera velha enchendo o ar. Meus pulsos ainda doíam de leve, as marcas de Ethan um lembrete que eu queria apagar, mas era Miles quem ocupava minha mente — o soco, a fúria, o jeito que ele me protegeu sem hesitar.
Eu o encontrei na estufa, o ar quente e úmido contrastando com o frio da mansão, o cheiro de terra e rosas me envolvendo como um abraço. Miles estava lá, podando uma planta com uma tesoura pequena, o suéter preto abraçando os ombros largos, o cabelo bagunçado caindo sobre a testa. Ele levantou os olhos quando entrei, o brilho nos olhos pretos me prendendo como uma armadilha.
— O que você quer? — perguntou, a voz rouca, mas com um toque de curiosidade, como se ele soubesse que eu não estava ali por acaso.
— Por que você fez aquilo? — perguntei, cruzando os braços, tentando manter a voz firme. —Na biblioteca, com o Ethan. Você age como se me odiasse, mas aí soca um cara por minha causa. Não entendo você. Porque fez aquilo, se claramente me odeia.
Miles largou a tesoura, dando um passo para mais perto, o espaço entre nós encolhendo.
— Eu não te odeio — disse, a voz baixa, os olhos fixos nos meus, brilhando com algo que fazia meu coração disparar. —Nunca odiei.
—Então por que você faz isso comigo? — retruquei, a frustração transborda. —Uma hora me provoca com piadas idiotas, outra hora quase me beija, e depois me joga no lago como se eu fosse uma brincadeira divertida pra você. O que você quer, Miles?
Ele deu outro passo, agora tão perto que eu podia sentir o calor do corpo dele, o cheiro de terra e rosas misturado ao dele.
— Você fala demais, Miller — disse, a voz um sussurro rouco, e antes que eu pudesse responder, ele me puxou pela cintura, os dedos firmes contra meu corpo. O beijo foi impulsivo, quente, os lábios dele pressionando os meus com uma urgência que roubou meu fôlego. Meu corpo respondeu antes que minha mente pudesse, as mãos subindo para os ombros dele, o coração batendo tão rápido que parecia explodir. Ele era fogo, e eu estava derretendo, os dois ofegantes, perdidos no calor do momento.
— Miles! Amara! — A voz de Flora cortou o ar, aguda e distante, vinda da porta da estufa. — O jantar tá pronto!
Miles se afastou, os olhos ainda fixos nos meus, a respiração pesada, o meio-sorriso torto voltando como se nada tivesse acontecido.
—Você foi salva por Flora dessa vez. — disse, a voz rouca, mas com um brilho de diversão.
Eu recuei, atordoada, o calor do beijo ainda queimando meus lábios. Saí da estufa, o coração disparado, o ar úmido da noite me envolvendo como um véu. A mansão parecia maior, mais viva, as sombras dançando como se soubessem o que tinha acabado de acontecer. Miles Fairchild era um incêndio, e eu não sabia se queria apagar as chamas ou me jogar nelas.
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𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙
FanficAmara não planejou se mudar para a mansão Fairchild. Muito menos cruzar o caminho de Miles - o herdeiro bonito, perigoso e completamente acostumado a destruir tudo o que toca. Eles não deveriam se aproximar. Eles não deveriam sentir. E, acima de tud...
