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Oh gente, comenta aí vai

AMARA MILLER

O corredor da escola era um labirinto de sombras, as janelas altas deixando a luz cinzenta de outubro pingar como tinta sobre os azulejos gastos. O cheiro de papel velho e desinfetante pairava no ar, misturado ao murmúrio abafado de vozes e ao eco de passos distantes. Era o fim da aula de química, e eu ajustava a mochila no ombro, o peso dos livros me ancorando enquanto tentava escapar rápido para a saída. O uniforme parecia mais apertado hoje, como se refletisse o nó no meu estômago. O quase-beijo com Miles no quarto dele, na noite passada, ainda queimava na minha mente, o calor da respiração dele, o brilho perigoso nos olhos pretos, a forma como ele parecia desmontar todas as minhas defesas com um único olhar. Eu não sabia se queria socá-lo ou... algo pior, algo que fazia meu coração acelerar só de pensar.

Estava quase na saída quando uma voz me fez parar, melíflua e irritante, cortando o ar como uma faca mal afiada.

— Amara, espera aí — disse Ethan, surgindo do nada, o cabelo loiro bagunçado caindo sobre os olhos, o sorriso largo demais para ser genuíno. Ele se encostou na parede, bloqueando meu caminho, o corpo inclinado para frente como se quisesse invadir meu espaço. —Não vai me evitar de novo, vai?

Revirei os olhos, o aperto no estômago virando irritação pura. Ethan tinha essa mania de aparecer nos piores momentos, como uma mosca que não desiste.

— Não tô evitando ninguém — respondi, a voz cortante, tentando passar por ele. —Só quero ir embora.

Ele deu um passo, bloqueando a passagem, o sorriso se alargando enquanto se inclinava mais perto, o cheiro de colônia barata me sufocando.

— Qual é, Amara, relaxa — disse, a voz arrastada, como se estivesse me fazendo um favor. — Só quero conversar. Você é nova aqui, posso te mostrar como as coisas funcionam.

— Não, obrigada — retruquei, dando um passo para o lado, mas ele se moveu junto, a mão roçando meu braço de um jeito que me fez enrijecer. Meu coração disparou, não de nervosismo, mas de raiva, o tipo de raiva que faz você querer empurrar alguém contra a parede.

Antes que eu pudesse dizer mais, o ar mudou, ficando mais denso, como se a própria sombra do corredor tivesse ganhado peso. Miles apareceu na curva. Seus olhos estavam fixos em Ethan, estreitados, a mandíbula tensa como se ele estivesse segurando algo prestes a explodir. Ele parou ao meu lado, o corpo projetando uma sombra que parecia engolir a luz fraca do corredor.

— O que tá acontecendo aqui, Miller? — perguntou, a voz rouca, cada sílaba carregada de um tom que era ao mesmo tempo calmo e perigoso. Ele olhou para Ethan, os olhos brilhando com algo que fazia o ar parecer elétrico. —Precisa de ajuda pra se livrar desse bagaço?

Senti o calor subir ao rosto, dividido entre a irritação com Ethan e o impacto da presença de Miles. Ele estava tão perto que eu podia sentir o calor do corpo dele, o cheiro sutil de flores e seu perfume amadeirado.

— Tá tudo bem — respondi, forçando a voz a soar firme, embora meu coração batesse rápido demais. — Eu sei me virar.

Miles ergueu uma sobrancelha, o olhar deslizando para Ethan por um instante, como se o avaliasse e o considerasse insignificante.

— Claro, que sabe. — disse, o sarcasmo pingando da voz, mas havia um brilho nos olhos, como se ele estivesse gostando do desafio. —Mas às vezes até alguém como você precisa de um reforço.

Antes que eu pudesse responder, ele passou o braço pelo meu pescoço, o gesto casual, mas firme, o calor do toque dele enviando um arrepio pela minha espinha. Meu corpo ficou rígido por um segundo, mas ele já estava me guiando pelo corredor, o braço pesado e quente, como se me reivindicasse de alguma forma que eu não queria analisar.

— Vamos, James tá esperando no carro — disse ele, a voz baixa, quase íntima, os olhos fixos à frente, mas o canto da boca curvado naquele meio-sorriso torto que me tirava do sério.

Ethan resmungou algo, mas não o segui, o som dos nossos passos ecoando no corredor enquanto Miles me conduzia para a saída. O braço dele ainda estava no meu pescoço, o peso dele me ancorando e desestabilizando ao mesmo tempo, e eu podia sentir o calor da pele dele através da camisa, o ritmo lento da respiração dele contrastando com o meu coração acelerado. Quando chegamos ao estacionamento, James estava encostado no carro, o cabelo bagunçado, rindo de algo no celular. Miles soltou meu pescoço, mas não antes de seus dedos roçarem minha nuca, um toque tão leve que poderia ser acidental, mas que fez minha pele queimar.

— Se cuide mais. — disse ele, antes de se jogar no banco da frente, sem olhar para trás.

[...]

Passei o dia ajudando Flora, dobrando seus papéis de desenho enquanto ela coloria uma folha com lápis de cor, cantarolando uma melodia suave. Dani estava por aí, organizando livros, a voz leve enquanto falava sobre aprimorar os estudos de flora. Eu acenava, sorrindo, a mente vagando para o corredor da escola, o braço de Miles no meu pescoço, o calor do toque dele que ainda parecia pulsar na minha pele.

No final da tarde, desci para a cozinha, precisando de um copo d'água para clarear as ideias. O ar da mansão era frio, o cheiro de madeira úmida e cera velha misturado ao de ervas secas. Peguei um copo no armário, o vidro frio contra meus dedos, quando ouvi passos atrás de mim. Virei-me, e lá estava Miles, encostado no batente da porta, um de seus suéters abraçando os ombros largos, o cabelo bagunçado como se ele tivesse passado a mão por ele várias vezes.

— Então, Miller — disse ele, a voz rouca, o meio-sorriso torto voltando com força total. — Parece que você tá precisando ser salva com frequência, não é? Primeiro o piquenique, agora aquele idiota na escola. Tô começando a achar que sou seu cavaleiro de armadura brilhante.

Revirei os olhos, mas não consegui segurar o sorriso que puxava meus lábios.

— Claro, quem seria eu sem você, Miles? — retruquei, a voz pingando sarcasmo, mas havia uma leveza no tom que me surpreendeu.

Ele riu, baixo, o som ecoando no corredor vazio, e por um momento, o peso da mansão, do uniforme, do dia, pareceu sumir. Era só ele e eu, rindo como se fôssemos pessoas normais, não dois imãs que não sabiam se queriam se atrair ou se repelir.

— Admita, Miller — disse ele, dando um passo para mais perto, os olhos pretos brilhando com diversão. — Você gosta de me ter por perto.

— Sonha alto, Fairchild — respondi, passando por ele com o copo na mão, mas meu ombro roçou o peito dele, e o calor daquele toque mínimo me fez prender a respiração. Ele não disse mais nada, mas senti o peso do olhar dele nas minhas costas enquanto subia as escadas.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora