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AMARA MILLER

O pincel dançava na tela, espalhando guache em curvas que lembravam rios sinuosos, sombras que pareciam árvores retorcidas, como as que eu imaginava em noites sem sono. Arte era meu escape — não só pintar, mas desenhar a carvão, colar pedaços de papel velho, até moldar argila até sentir as mãos doerem. Cada traço era uma forma de dar sentido ao caos, de tornar o invisível palpável. A sala de arte da escola, com suas janelas altas e luzes roxas que insistiam em deixar acesas, tinha um ar gótico, quase como se a Mansão Fairchild tivesse invadido o espaço. Clara estava ao meu lado, rabiscando um pássaro com lápis de cor, a concentração fazendo ela morder o lábio, enquanto o som de pincéis e conversas baixas enchia o ar.

— Amara, isso tá ficando lindo — disse uma voz suave. Era Lisa, uma garota que eu conhecia de vista das aulas de arte, sempre quieta, mas com um jeito observador. O cabelo preto, liso e longo caía como uma cortina sobre os ombros, e os olhos azuis brilhavam com curiosidade enquanto ela apontava para minha tela. A dela, ao lado, tinha um céu estrelado, as cores borradas, como se as estrelas escorressem. —Parece que tem uma história aí.

Eu sorri, limpando as mãos manchadas de tinta na calça. 

— Valeu, Lisa. Só tô brincando com formas, mas gosto quando parece vivo. — Apontei para a tela dela. — Esse céu tá incrível, parece que tá derretendo.

Ela riu, tímida, e voltou ao pincel. Clara ergueu a cabeça, o sorriso largo. 

— Vocês duas vão acabar dominando essa sala — disse, apontando o lápis para nós. — Amara, já pensou em fazer uma exposição com essas coisas sombrias que você faz?

Eu ri, balançando a cabeça. 

— Quem sabe, Clara. Mas por enquanto, fico só rabiscando.

Antes que ela pudesse responder, Ethan apareceu, o cabelo loiro bagunçado, as mãos enfiadas nos bolsos. 

— Amara, essa tela tá demais — disse, inclinando-se para olhar, o tom leve, com aquela ponta de flerte que eu já conhecia. — Você leva jeito.

— Obrigada, Ethan — respondi, mantendo o tom neutro, voltando ao pincel. Não queria dar corda, mas também não queria ser grossa. Ele era legal, só não era o que eu queria.

Então senti um calor familiar. Miles se aproximou, a camisa de manga longa azul-escura abraçando os ombros largos, o jeans escuro ajustado. Ele se inclinou sobre a mesa, estudando minha tela, e por um instante, o mundo pareceu encolher até nós dois. 

— Tá realmente bonito, Miller — disse, a voz rouca. Ele se abaixou e, num gesto tão natural que meu coração deu um salto, beijou minha testa, o toque quente, quase possessivo, mas tão leve que parecia só nosso. —Você sempre faz essas coisas que mexem com a gente.

Clara arregalou os olhos, mas Lisa apenas sorriu, como se não captasse o que Clara sempre capitava no ar. Meu rosto esquentou, mas mantive o foco na tela, traçando uma curva mais forte. 

— É só um rabisco — murmurei, sentindo o calor do beijo dele na pele.

Clara, incapaz de segurar a curiosidade, se inclinou para mim, a voz cheia de animação. 

— Tá, Amara, agora desembucha: o que rolou na festa da Cristal? Você sumiu no final, tava passando mal ou o quê?

Eu hesitei, o pincel parando na tela. Não queria falar sobre o quarto, sobre o calor da boca de Miles, o jeito que ele me fez tremer. Não era por vergonha, mas porque era nosso, algo que eu queria guardar. 

— Não foi nada demais — respondi, dando de ombros, voltando à tinta. — Só não tava me sentindo bem, precisei de um ar.

Miles ficou quieto, mas vi pelo canto do olho o jeito que ele apertou os lábios, o olhar escurecendo por um instante, como se minha resposta tivesse cutucado algo. Era sutil, quase imperceptível, mas eu conhecia aquele olhar — uma frustração que ele não dizia em voz alta. Lisa voltou à sua tela, e Ethan se afastou, murmurando algo sobre pegar mais tinta. Clara, no entanto, insistiu.

— Sério? — disse com o tom brincalhão, mas com uma ponta de curiosidade.

Eu ri, tentando manter leve. 

— Clara, relaxa. Tô focada na tela agora. — Apontei para o desenho dela. — Esse pássaro tá parecendo um pombo zumbi, quer ajuda?

Ela bufou, rindo, e o assunto morreu. Mas o peso do olhar de Miles ficou comigo, como se ele quisesse que eu dissesse algo mais, algo que eu não sabia como dar.

[...]

A noite caiu, e a biblioteca da mansão estava mergulhada em silêncio, quebrado só pelo crepitar da lareira. As sombras dançavam nas paredes, a luz suave das velas misturando-se ao brilho amarelado. Miles e eu arrumávamos as prateleiras, uma tarefa para as aulas de Flora, empilhando livros de botânica e poesia. Ele estava ao meu lado, a camisa  dobrada nos antebraços, o cabelo bagunçado caindo sobre a testa. Era fácil estar com ele assim, os ombros roçando, as risadas vindo sem esforço. Ele pegou um livro que eu tentava alcançar, a mão roçando a minha, e ajeitou uma mecha de cabelo que caía no meu rosto, o toque leve, mas quente, com aquela ponta possessiva que fazia meu coração disparar. 

— Tá ficando rebelde, Miller — brincou, o meio-sorriso torto surgindo.

Eu ri, empurrando o ombro dele de leve. 

— Fala o cara que parece que brigou com o vento.

Ele riu baixo, o som aquecendo o peito, e por um momento, era como se fôssemos só nós, o mundo lá fora abafado. Meu celular vibrou na mesa, o nome de Clara piscando. Atendi, colocando no viva-voz enquanto arrumava outro livro.

— Amara, sério, você não vai contar o que rolou na festa? — perguntou Clara, a voz cheia de curiosidade. — Você sumiu, tava passando mal?

Eu hesitei, sentindo o peso do olhar de Miles. Não queria contar sobre o quarto, não porque não confiava em Clara, mas porque era nosso. 

— Não foi nada demais — respondi, mantendo o tom leve. — Só não tava me sentindo bem, precisei de um ar.

Miles parou, o livro na mão suspenso, os olhos fixos em mim. 

— Não confia na Clara? — sussurrou, a voz baixa, com uma ponta de algo que não era só curiosidade. — Porque você não disse que tava comigo?

Eu dei de ombros, colocando outro livro na prateleira, tentando não deixar a tensão crescer. 

— Não vi necessidade, Miles. Não é como se eu tivesse que contar tudo.

Ele assentiu, o movimento lento, os lábios apertados por um instante, o olhar escurecendo com uma frustração que ele não verbalizou. 

— Tá bom — disse, a voz neutra. — Só achei que você ia querer dividir isso com ela, já que são próximas. É isso que as mulheres fazem não é?

Eu ri, tentando aliviar o peso. 

— Clara já tá tentando cavar demais, não precisa de mais munição. — Voltei ao celular, ainda no viva-voz. — Clara, eu tô bem, tá? Só precisava de um tempo. Agora me conta, como tá aquele pássaro zumbi?

Clara riu do outro lado, começando a falar sobre o desenho, e eu deixei a conversa fluir por mais alguns minutos, rindo das piadas dela sobre a aula de arte. 

— Tá, Amara, te libero — disse Clara, finalmente. — Mas não pense que escapou de me contar tudo.

— Sonha, Clara — respondi, rindo, antes de desligar, o som do clique ecoando na biblioteca.

Miles voltou aos livros, o silêncio entre nós agora um pouco mais pesado, mas não hostil. Ele passou por mim, o ombro roçando o meu, e quando peguei um livro pesado, ele o tirou das minhas mãos, colocando na prateleira alta com facilidade. 

— Deixa que eu pego os pesados. — murmurou, o tom suave, mas com aquele toque possessivo que me fazia sentir ele mesmo estando tão perto.

Eu sorri, balançando a cabeça, e continuamos arrumando, as risadas voltando aos poucos. A biblioteca, com suas sombras dançantes e o calor da lareira, parecia segurar algo não dito, mas por ora, estávamos ali, juntos, e isso era o suficiente.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora