MILES FAIRCHILD
A estufa era um mundo à parte, um refúgio onde o cheiro de terra úmida e rosas se misturava ao calor que embaçava as vidraças, transformando o vidro em espelhos de névoa. A neve caía lá fora, uma cortina branca que isolava a mansão do resto do mundo, mas aqui dentro, o ar era quente, quase sufocante, como se carregasse o peso de tudo o que eu não dizia. Eu estava sentado no sofá velho, as molas rangendo sob meu peso, as mãos segurando a caixa de madeira da minha mãe, a única coisa que restava dela além de memórias que eu tentava não deixar desbotar. Convencer Amara a vir aqui não foi fácil. Depois de uma semana de silêncios cortantes e olhares desviados, ela finalmente cedeu, mas não sem aquele brilho de desconfiança nos olhos castanhos, como se ainda sentisse o eco do tapa que me deu na direção.
Ela estava sentada ao meu lado, os joelhos dobrados contra o peito, um suéter confortável meu que eu já não lembrava mais quando havia emprestado, o cabelo solto caindo em ondas que pareciam capturar a luz fraca da lâmpada pendurada. Eu podia sentir o calor do corpo dela, mesmo estando a centímetros de distância, e isso me deixava inquieto, como se minha pele soubesse algo que minha cabeça ainda lutava para entender. A caixa estava entre nós, um peso silencioso, e eu sabia que, se não falasse agora, talvez nunca tivesse coragem de novo.
— Amara — comecei, a voz rouca, mais baixa do que pretendia. — Quero te mostrar uma coisa.
Ela ergueu os olhos, a raiva de antes suavizada, mas ainda ali, como uma brasa sob cinzas.
— O quê? — perguntou, o tom cauteloso, como se esperasse outra mentira.
Eu abri a caixa com cuidado, as dobradiças rangendo, e tirei um punhado de fotos antigas, as bordas amareladas pelo tempo. A primeira mostrava meus pais, sorrindo em um piquenique, com Flora, ainda bebê, no colo da minha mãe. Eu era só uma sombra ao fundo, um garoto pequeno com o cabelo bagunçado e um sorriso que não conhecia o peso do que viria depois.
—Eu sei que você queria ver o que tinha aqui dentro, como forma de lealdade, confiança ou seja lá o que for, aqui está.— disse, passando a foto para ela. — Eles morreram num acidente de carro. Ela era tão pequena, mal se lembra deles. Às vezes, acho que isso é egoísmo meu, mas... ela não sentiu o luto. Não de verdade. Só a ausência. Todo o peso caiu sobre mim.
Amara pegou a foto, os dedos roçando a superfície como se pudesse sentir a história ali. Seus olhos suavizaram, mas ela não disse nada, só ficou olhando, esperando que eu continuasse.
— Se não fosse o acidente... — Minha voz falhou, e eu engoli seco, tentando manter o controle. — Tudo seria diferente. Eu não seria assim, tão... quebrado. Às vezes, me pego pensando em como seria se eles ainda estivessem aqui. A mansão não seria esse túmulo. Flora não cresceria com uma babá como mãe. E eu... eu não sei, talvez eu fosse alguém melhor.
Ela levantou o olhar, e por um instante, achei que ia me cortar com alguma resposta afiada, como sempre fazia. Mas então ela murmurou, quase inaudível:
— Se eles estivessem vivos, provavelmente não teríamos nos conhecido.
Eu ri, um som baixo, quase amargo.
— Talvez. E você não teria tanta dor de cabeça.
Amara sorriu, um sorriso pequeno, mas genuíno, que fez meu peito apertar.
— Eu já tinha bastante dor de cabeça antes de você, Fairchild — disse ela, o tom leve, mas com uma sombra de algo mais profundo, algo que não nomeava.
Eu respirei fundo, sabendo que o próximo passo era mais difícil. Passei outra foto, uma de mim com meus pais, e minha mão tremeu levemente. Então baixei a foto novamente.
— Você ouviu os boatos, não ouviu? — perguntei, mantendo os olhos na foto, incapaz de encará-la. — Sobre o garoto que eu quase matei na escola?
Ela ficou tensa, o corpo endurecendo ao meu lado.
—Clara mencionou algo — admitiu, a voz cautelosa. — Mas eu não sei os detalhes.
Eu assenti, o peso da memória caindo sobre mim como a neve lá fora.
— Ele zombou dos meus pais. —Minha voz saiu fria, mas por dentro, a raiva ainda queimava, mesmo depois de tanto tempo. Eu podia me lembrar da frase fresca na memória "Eles se mataram para não olhar mais pra sua cara" enquanto cogitava se continuava contando isso para ela ou não. —Eu perdi a cabeça. Bati nele até o sangue escorrer, até os professores me puxarem. Depois disso, tive que fazer a porra de terapia, para ver se aprendia a lidar com tudo que veio após a morte deles.
Amara engoliu seco, os olhos fixos em mim, como se tentasse enxergar além das palavras.
— E o que mais aconteceu, Miles? — perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. —Você fala como se houvesse mais.
Eu ri, um som seco que não tinha humor.
— O papel de vítima não combina comigo, Amara — respondi, desviando o olhar para a caixa, enquanto guardava todas as fotos. —Mas tudo saiu do controle. A mansão virou um peso, Flora virou minha responsabilidade, e eu... eu me tornei isso.
Ela ficou quieta por um momento, os dedos ainda segurando a foto, e então uma lágrima escorreu pelo rosto dela, brilhando à luz da lâmpada. Eu não esperava isso, não dela, que sempre parecia tão forte, tão pronta para atacar tudo.
— Meus pais também morreram num acidente de carro — confessou ela, a voz tremendo, quase quebrando. — Eu tava brigando com meu pai. Ele tava no volante, discutindo comigo, e não viu o outro carro vindo. Eu me sinto culpada, Miles. Todos os dias. Se eu não tivesse aberto a boca, talvez...
Ela parou, a lágrima caindo no tecido do sofá, e eu senti algo dentro de mim se partir. Sem pensar, puxei-a para um abraço, os braços envolvendo-a com força, como se pudesse segurar as peças quebradas de nós dois.
— Não é sua culpa, Amara — murmurei contra o cabelo dela, sentindo o cheiro leve de lavanda que sempre parecia acompanhá-la. — As coisas acontecem. Às vezes, o mundo só... desaba.
Ela não se afastou, mas também não relaxou completamente, o corpo tenso contra o meu. Quando levantei o rosto, nossos olhares se encontraram, e por um momento, o tempo parou. Os olhos dela, mesmo vermelhos de choro, eram a coisa mais bonita que eu já tinha visto. A raiva, a dor, as inseguranças — tudo isso a tornava mais viva, mais real, como se cada rachadura nela fosse um convite para eu me perder. Eu queria puxá-la, beijá-la, devorar a distância entre nós, mas algo me segurou, talvez o medo de que ela fugisse de novo.
— Sinto que essa relação vai ser minha ruína, Amara — murmurei, a voz rouca, as palavras saindo antes que eu pudesse segurá-las. —Ou talvez a sua ruína.
Ela me olhou, os olhos brilhando com algo que não era só tristeza, mas também desejo, raiva, confusão, ou frustração.
— Deveríamos parar com isso — sussurrou ela, tão baixo que quase não ouvi, as palavras tremendo no ar.
Eu me inclinei mais perto, o rosto a centímetros do dela, sentindo o calor da respiração dela contra minha pele.
— Eu não quero parar — respondi, minha voz firme, carregada de uma certeza que me assustava. —E acho que você não consegue parar.
Por um segundo, achei que ela ia ceder, que ia deixar o espaço entre nós desaparecer. Nossos lábios estavam tão próximos que eu podia sentir o calor dela, o pulsar da tensão que nos prendia. Mas então ela baixou a cabeça, um suspiro pesado escapando, e se levantou, o movimento brusco, como se estivesse fugindo de si mesma.
— Boa noite, Miles — sussurrou, a voz quase inaudível, e saiu, a porta da estufa rangendo atrás dela.
Eu fiquei ali, sozinho, o sofá velho rangendo sob meu peso, a caixa da minha mãe aberta como uma ferida. A neve continuava caindo lá fora, cobrindo o mundo em silêncio, mas dentro de mim, tudo era caos. Amara era minha ruína, minha necessidade. E mesmo sabendo que ela podia me destruir se quisesse, eu não conseguia imaginar um momento em onde não a quisesse. O tapa, a raiva, as lágrimas — tudo isso só me fazia querer mais. Porque ela era minha, e eu era dela, mesmo que doesse.
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𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙
ФанфикшнAmara não planejou se mudar para a mansão Fairchild. Muito menos cruzar o caminho de Miles - o herdeiro bonito, perigoso e completamente acostumado a destruir tudo o que toca. Eles não deveriam se aproximar. Eles não deveriam sentir. E, acima de tud...
