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NARRADOR

A luz âmbar do abajur filtrava um brilho suave pelo quarto quando Amara despertou. Por um instante, ela não soube exatamente onde estava. O lençol escorregava pelas suas costas nuas, a pele ainda sensível dos toques de antes, os músculos relaxados de um jeito que ela não lembrava ter sentido na vida. O ar estava carregado com o aroma sutil de lavanda das velas apagadas, e o silêncio era tão profundo que parecia um abraço.

Então ela virou o rosto.

Miles estava sentado ao lado dela, encostado na cabeceira, torso nu, os cabelos bagunçados caindo sobre a testa. Os olhos dele estavam fixos nela — não de um jeito possessivo, nem afiado. Era... quase sereno. Como se estivesse gravando cada detalhe do rosto dela na memória, caso o tempo resolvesse roubá-lo.

Amara piscou, a voz rouca pelo sono.

— Há quanto tempo você está acordado?

Miles ergueu uma sobrancelha, aquele meio sorriso preguiçoso que só aparecia quando ele baixava todas as defesas.

— Tempo suficiente pra perceber que você fica linda quando dorme — respondeu, a voz baixa, quase um sussurro.

Ela tentou rir, mas o som saiu fraco, tímido. Miles estendeu a mão e tocou a bochecha dela, o polegar traçando um carinho lento, circular, que nenhum dos dois admitiria precisar tanto.

— Você parece calmo — ela disse, sem tirar os olhos dele, sentindo o coração bater um pouco mais rápido.

— Estou — respondeu ele, simples. — Pela primeira vez em muito tempo, acho.

Amara sustentou o olhar dele, e algo no ar mudou. Havia uma quietude diferente, uma sensação de fim que ela não conseguia processar, mas que pesava entre eles como uma promessa não dita.

— O que foi? — perguntou baixo. — Você está estranho.

Miles inclinou o corpo na direção dela, o rosto tão perto que ela sentiu o hálito quente contra a boca. Ele a observou por um longo segundo, como se estivesse prestes a revelar uma verdade que carregava há anos.

— Eu sei que o mundo tenta fazer parecer errado — murmurou ele, a voz grave, carregada de uma sinceridade rara. — Mas nada nunca fez tanto sentido quanto você.

O coração de Amara quase parou. Ele não falava assim. Não com palavras tão nuas, tão vulneráveis.

Miles continuou, os olhos escuros fixos nos dela:

— Se eu tivesse te encontrado antes... eu poderia ter sido alguém diferente. Alguém que não carrega tanto peso.

Ela tocou o peito dele, sentindo o coração bater acelerado sob a palma da mão.

— Eu não queria alguém diferente — sussurrou, a voz tremendo levemente. — Eu queria você. Exatamente você.

Miles fechou os olhos por um instante, como se aquelas palavras o quebrassem de um jeito bom, profundo. Quando abriu de novo, o olhar era intenso, carregado de uma decisão que parecia final.

— Então fica comigo até o fim — disse, a voz baixa, quase uma súplica.

Amara sentiu um arrepio subir pela espinha. Não era medo. Era certeza. Uma certeza absoluta, devastadora.

— Eu fico — respondeu, sem hesitar. — Eu sempre fico.

Miles a puxou para perto, o beijo lento, cheio de silêncio, cheio de tudo o que eles nunca souberam dizer com palavras. Era o tipo de beijo que só existe antes de um desastre — profundo, desesperado, como se fosse o último.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora