06

6.4K 692 538
                                        

AMARA MILLER

O corredor da escola parecia um labirinto de sombras, a luz pálida de outubro filtrando-se pelas janelas altas e desenhando padrões tortuosos nos azulejos gastos. Cada passo ecoava no chão frio, o som abafado misturando-se ao murmúrio distante de vozes e ao rangido ocasional de um armário. Minha mochila pesava nos ombros, os livros dentro dela como tijolos me ancorando enquanto caminhava para a aula de literatura. O uniforme parecia me sufocar, o tecido rígido roçando minha pele como uma lembrança constante de que eu não pertencia a este lugar. Fazia uma semana desde aquele experimento em dupla com Miles na aula de química, quando o roçar do braço dele contra o meu enviou uma corrente elétrica pela minha espinha, deixando meu coração acelerado e minha garganta seca. A memória ainda queimava, como uma brasa que se recusava a apagar, e eu odiava o quanto ela me fazia questionar minha própria sanidade.

Miles Fairchild era um incêndio que eu não sabia apagar. Cada encontro com ele — na escola ou na mansão — era como pisar em vidro quebrado, cada estilhaço cortando um pouco mais fundo. Ele era briguento, sarcástico, com um charme sombrio que parecia desenhado para me desestabilizar. Eu prometi a Dani que me controlaria, mas cada provocação dele fazia meu sangue ferver, e não apenas de raiva. A caixa de madeira com as iniciais M.F. que vi na estufa na semana passada não ajudava. O que ele escondia? E por que eu me importava tanto com um cara que parecia gostar de me irritar?

Entrei na sala de literatura, o cheiro de papel velho e poeira me envolvendo como um abraço indesejado. As carteiras de madeira rangiam sob o peso dos alunos, e o quadro negro exibia anotações tortuosas sobre O Morro dos Ventos Uivantes. Sentei no fundo, como sempre, tentando me tornar invisível. Clara deslizou para a cadeira ao meu lado, seu cabelo castanho caindo sobre os ombros, os olhos verdes brilhando com uma energia que eu nunca conseguia igualar.

— Amara, você viu o cartaz do piquenique da escola? — perguntou ela, a voz borbulhando enquanto mexia no caderno. — Sábado, no campo atrás do ginásio. Vai ter comida de graça, e eu tô pensando em convencer o pessoal a trazer um violão. Quer vir?

Hesitei, meus dedos apertando a caneta com mais força.
— Não sei, Clara. Multidões não são minha praia — murmurei, traçando uma linha irregular no caderno. A ideia de um evento escolar parecia exaustiva, mas a animação dela era quase contagiante, como uma brisa quente em um dia gelado.

— Você precisa sair dessa vibe de ermitã — disse ela, cutucando meu braço com um lápis. — Além disso, vai ser hilário ver o caos. Aposto que alguém vai fazer alguma besteira.

Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu, e Miles entrou, o blazer azul-marinho ajustado aos ombros, a gravata alinhada, mas com um nó frouxo. Seus cabelos castanhos escuros caíam sobre a testa, e ele se sentou algumas carteiras à frente, sem me olhar. Mas eu sentia ele, como se o ar ao redor dele pulsasse, puxando meu olhar contra minha vontade.

O professor, um homem de óculos tortos e cabelo grisalho, bateu palmas, atraindo a atenção da classe.
— Hoje, faremos um debate sobre Heathcliff e Catherine — anunciou, sua voz rouca ecoando na sala. — Amara, você defenderá que Heathcliff é um vilão. Miles, você argumentará que ele é um herói trágico. Comecem.

Meu estômago revirou, o peso do olhar de Miles caindo sobre mim antes mesmo que eu levantasse os olhos. Ele se virou na cadeira, os olhos pretos brilhando com um misto de desafio e algo mais perigoso. Um sorriso lento curvou seus lábios, e ele inclinou a cabeça, como se me avaliasse.

— Então, Miller, acha que pode me derrubar com palavras? — disse ele, a voz baixa e rouca, cada sílaba parecendo deslizar sob minha pele. — Ou vai precisar de algo mais... próximo pra me convencer?

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora