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NARRADOR

Amara ajustava a posição de uma tela na quadra da escola, o espaço transformado em galeria para o evento cultural. A quadra, normalmente cheia de ecos de jogos e gritos, agora vibrava com vozes abafadas e o farfalhar de passos. Mesas cobertas com toalhas brancas exibiam telas, esculturas e colagens, enquanto luzes suaves, penduradas como lanternas, criavam sombras que dançavam nas paredes, dando um ar quase gótico ao ambiente. Pessoas da escola e até de fora circulavam, admirando as obras, o burburinho misturado ao som de uma playlist instrumental que a professora de artes insistira em tocar. Amara, arrumava sua exposição ao lado de Lisa, cuja tela de um céu estrelado contrastava com as formas abstratas de Amara, um caos de linhas escuras e tons de azul que pareciam pulsar com vida própria. Lisa, o cabelo preto, liso e longo caindo sobre os ombros, os olhos azuis brilhando de entusiasmo, ajustava uma placa com o título da obra: Sombras Vivas

— Tá perfeito, Amara — disse Lisa, dando um passo atrás para admirar a disposição. — A gente arrasou.

Amara sorriu, satisfeita, limpando as mãos na saia, mesmo sabendo que a professora de artes odiava isso. 

— Ficou melhor do que eu esperava. Seu céu deu o toque que faltava.

Enquanto elas conversavam, Cristal apareceu, o uniforme impecável, os cabelos ruivos soltos, caminhando com aquele ar de quem sabe que está sendo observada. Ela parou diante da mesa de Amara e Lisa, inclinando a cabeça para estudar a obra, um sorriso afiado nos lábios. 

— Não tá nada mal, meninas — disse, o tom carregado de uma falsa doçura. — Bem... sombrio. Combina com você, Amara. — Ela fez uma pausa, os olhos brilhando com malícia. — Aliás, valeu por ter ido à festa. Se não fosse por você, Miles não teria me beijado.

Amara congelou, o estômago revirando com um desconforto que não soube nomear. As palavras de Cristal ecoaram, pesadas, e ela tentou processar o que acabara de ouvir. Miles dissera que afastara Cristal, mas agora... um beijo? A informação desceu como um nó na garganta, e ela apertou as mãos, tentando manter o rosto neutro. Cristal deu um sorrisinho, virando-se para sair, os cachos balançando enquanto se misturava à multidão.

Lisa, percebendo a mudança em Amara, tocou o ombro dela. 

— Você tá bem? — perguntou, a voz suave, preocupada. — Quer que eu pegue água ou algo assim?

Amara balançou a cabeça, forçando um sorriso. 

— Tô de boa, Lisa. Só... Cristal sendo Cristal.

Antes que Lisa pudesse responder, Ethan surgiu, também de uniforme, o cabelo loiro bagunçado, segurando um copo de ponche com um sorriso fácil. 

— Amara, toma um ponche. Tá precisando relaxar — disse, estendendo o copo, o tom leve, mas com um toque de flerte.

Amara pegou o copo, agradecendo com um aceno, e tomou um gole, o líquido doce ajudando a engolir o peso do que Cristal dissera. Ela mal terminou o gole quando viu Miles se aproximar, o uniforme azul-escuro impecável, o cabelo bagunçado caindo na testa. Ele sorria, um sorriso leve, quase tímido, enquanto caminhava em sua direção, como se quisesse compartilhar o momento com ela. Mas antes que ele chegasse mais perto, Amara foi até ele, o copo de ponche ainda na mão, a raiva começando a borbulhar. Ela empurrou o copo contra o peito dele, pedindo para que segurasse, mas o movimento foi brusco, e um pouco do líquido vermelho espirrou na camisa branca do uniforme.

— Você mentiu pra mim? — perguntou ela, a voz firme, mas tremendo de leve, os olhos fixos nos dele.

Miles franziu a testa, segurando o copo, confuso. 

— Do que você tá falando?

— Você não afastou Cristal a tempo suficiente, afastou? — continuou Amara, o tom cortante, o desconforto no estômago agora uma chama de raiva.

Miles engoliu seco, o rosto ficando pálido, os olhos buscando palavras que não vinham. Ele abriu a boca, mas nada saiu, o silêncio traindo-o. Amara cruzou os braços, o copo agora esquecido na mão de Miles. 

— É por esse tipo de atitude que eu não rotulo nada — disse ela, a voz baixa, mas firme. — Você poderia ter ficado com ela se quisesse, nós não somos nada. Mas eu não admito mentiras.

Ethan, que observava a poucos passos, se aproximou, o sorriso sumindo ao notar a tensão. 

— Amara, tá tudo bem? — perguntou, a voz cautelosa, percebendo a irritação dela. 

Sem tirar os olhos de Miles, Amara respondeu, o tom seco. 

— Tô bem.

Ethan, sentindo a brecha, deu um passo mais perto, o tom carregado de uma malícia sutil, claramente provocadora. 

— Que bom, então posso te convidar pra dar uma volta? Vamos tomar um ar, tá muita gente aqui.

Amara, ainda fervendo, olhou para Ethan, a raiva nublando o bom senso. 

— Tá, vamos — disse, a voz cortante, mais para atingir Miles do que por interesse.

Ela se virou para sair, mas antes que pudesse dar um passo, Miles segurou o braço dela, os dedos firmes, mas não agressivos, o rosto tenso. 

— Você não vai com ele, Amara — disse, a voz baixa, carregada de uma intensidade que não escondia o ciúme.

Amara puxou o braço, os olhos faiscando. 

— Me solte. Não vê que tem gente olhando?

Miles soltou, mas deu um passo mais perto, abaixando a voz. 

— Você não vai com ele, Amara.

Ela ergueu o queixo, a raiva pulsando. 

— Me observe indo.

Ela se virou, começando a caminhar ao lado de Ethan, que parecia satisfeito com a provocação. Mas antes que dessem dois passos, Miles avançou, o punho fechado, e acertou um soco no rosto de Ethan. O impacto ecoou, o copo de ponche caindo no chão, o líquido vermelho espalhando-se como sangue. Ethan cambaleou, segurando o rosto, enquanto a multidão ao redor parou, o burburinho silenciando, todos os olhos voltados para a cena.

Amara girou nos calcanhares, chocada. 

— Que merda você tá fazendo, Miles? — gritou, a voz tremendo de raiva e surpresa.

Miles, o peito subindo e descendo rápido, os olhos ardendo, apontou para Ethan, que ainda segurava o rosto, atordoado. 

— Eu disse que você não ia com ele — respondeu, a voz rouca, a tensão explodindo em cada palavra.

Antes que Amara pudesse responder, a diretora surgiu, cortando a multidão como uma faca. Sua postura era rígida, a expressão furiosa, os lábios apertados numa linha fina. 

— Miles Fairchild! Ethan! — bradou, a voz cortando o silêncio. — Para a direção, agora!

Miles apertou os punhos, o rosto ainda tenso, enquanto Ethan, esfregando o maxilar, lançou um olhar irritado para ele. Amara ficou parada, o coração disparado, a raiva misturada com um peso que não sabia nomear. A multidão começou a murmurar, e Lisa, que observava tudo a poucos passos, deu um passo hesitante em direção a Amara, mas não disse nada. A quadra, com suas luzes suaves e obras expostas, parecia de repente pequena demais para conter o caos que se formara.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora