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AMARA MILLER

— Você tá brincando! — Clara praticamente gritou, os olhos verdes arregalados, o cabelo castanho ondulado balançando enquanto se inclinava, quase derrubando meu caderno no corredor lotado da escola. A luz cinzenta pingava pelas janelas altas, pintando sombras tortuosas nos azulejos gastos, e o cheiro de giz misturado a papel velho enchia o ar, misturando-se ao caos de vozes e passos dos alunos.

Eu já me arrependia de ter contado a ela sobre o beijo com Miles na estufa, o calor dos lábios dele, a urgência das mãos na minha cintura, o jeito que meu coração parecia explodir antes de Flora nos interromper.

— Miles te beijou? Agora você não pode dizer que ele não tá a fim de você, Amara! Isso é, tipo, prova irrefutável!

Meu rosto queimava, e eu tentava manter a expressão neutra, mas Clara não era do tipo que deixava passar.

— Não é bem assim — murmurei, acelerando o passo pelo corredor, tentando fugir tanto dela quanto da memória do calor do corpo de Miles, do brilho perigoso nos olhos pretos dele. —Ele dá sinais estranhos, Clara. Uma hora me provoca, outra me beija, e depois age como se nada tivesse acontecido.

Clara me alcançou, o sorrisinho malicioso brilhando nos lábios.

— Sinais estranhos? Amara, ele te puxou pela cintura e te beijou numa estufa cheia de rosas. Isso não é exatamente ambíguo — disse ela, abafando uma risada. — Vamos lá, me conta. O que você sente por ele? Porque, sério, vocês dois exalam química.

Senti o calor subir ao rosto, meu coração dando um salto traidor. O que eu sentia por Miles? Era uma pergunta que eu evitava, como se olhar diretamente para ela fosse perigoso. Ele era irritante, com aquele sorriso torto que parecia saber demais, aquelas provocações que me faziam querer socá-lo e ao mesmo tempo... outra coisa.

— Ele é... irritantemente atraente — admiti, a voz baixa, quase engolida pelo barulho do corredor. — Da mesma forma que é irritantemente irritante. É como se ele soubesse exatamente como me tirar do sério, e eu não sei se isso é bom ou ruim. Parece que ele faz de propósito.

Clara arregalou os olhos, a empolgação transborda.

—Irritantemente atraente? Isso é um jeito de dizer que você tá caidinha! — Ela se inclinou mais perto, a voz caindo para um sussurro conspiratório. —Mas, sério, Amara, você gosta dele?

Abri a boca, mas as palavras travaram, minha mente girando com a imagem de Miles na estufa, os olhos pretos me engolindo, o calor do toque dele ainda queimando na minha pele. Antes que eu pudesse responder, a porta da sala de literatura se abriu, e o professor, com seus óculos tortos e cabelo grisalho, entrou, batendo palmas para chamar a atenção.

— Sentem-se, por favor — disse ele, a voz rouca ecoando na sala.

Clara me lançou um olhar que dizia "isso não acabou", mas se jogou na cadeira ao meu lado, enquanto eu tentava focar no caderno, o coração ainda acelerado. Miles entrou logo depois, e ele se sentou algumas carteiras à frente, sem me olhar. Mas eu sentia ele, como se o ar ao redor dele pulsasse, puxando meu olhar contra minha vontade. O resto da aula passou em um borrão, com o professor falando sobre amor obsessivo, e eu tentando não pensar em como as palavras pareciam ecoar o que estava acontecendo entre mim e Miles.

[...]

Eu estava no salão de estudos, ajudando Flora a guardar seus materiais depois da aula com Dani. Dani saiu com um sorriso, dizendo que ia tomar um café com James, o cabelo loiro balançando, a voz leve. Flora, sentada na mesa, dobrava papéis de desenho com cuidado, os cabelos caindo sobre os olhos enquanto cantarolava uma melodia suave.

Eu empilhava livros, o peso deles me ancorando, quando uma sombra apareceu no batente da porta. Miles estava lá, os braços cruzados, o suéter preto abraçando os ombros largos, os cabelos bagunçados como se ele tivesse passado a mão por eles várias vezes. Seus olhos nos analisavam, Flora e eu, com um brilho diferente.

— Precisam de algo? — perguntou, a voz rouca, o meio-sorriso torto curvando os lábios, como se ele soubesse que a presença dele já era o suficiente para me desestabilizar.

Eu parei, um livro na mão, e levantei uma sobrancelha, o sarcasmo subindo à tona antes que eu pudesse me conter.

— Você querendo pegar no pesado, Fairchild? — disse, apontando para a pilha de livros e papéis na mesa. — Porque isso aqui não é exatamente leve.

Miles riu, baixo, o som ecoando no salão, e Flora deu uma risadinha, cobrindo a boca com a mão.

— Seu cavalheiro branco tá sempre pronto pra ajudar, Miller — retrucou ele, o tom brincalhão, mas com um brilho de diversão nos olhos. Ele descruzou os braços, dando um passo para dentro, e o ar pareceu mudar, ficando mais denso, como se a própria mansão estivesse prendendo a respiração.

Eu peguei uma pilha de livros pesados, sentindo o peso deles nos braços, e caminhei até Miles, decidida a não deixá-lo vencer tão fácil.

— Então prova — disse, estendendo os livros para ele. Nossas mãos se tocaram quando ele pegou a pilha, a pele dele quente contra a minha, o roçar lento e deliberado, como se ele quisesse que eu sentisse cada centímetro do contato. Nossos olhos se encontraram, e por um segundo, o mundo encolheu, deixando apenas o brilho escuro do olhar dele, a faísca que parecia incendiar o ar entre nós. Meu coração disparou, e eu lutei para manter a expressão firme.

— Se a princesa achar muito pesado — disse, a voz tremendo de leve —Eu posso descer com eles pra você.

Miles riu, o som baixo e quente, balançando a cabeça enquanto segurava os livros com facilidade.

— Muito engraçado, Miller — retrucou, o sorriso se alargando, os olhos ainda fixos nos meus, como se ele estivesse vendo através de mim. Ele se virou, descendo as escadas com os livros, o corpo relaxado, mas a tensão entre nós ainda vibrando no ar.

Flora, que tinha parado de dobrar os papéis, olhou para mim, os olhos brilhando com uma sabedoria que não combinava com sua idade.

— Miles gosta de você, Amara — disse ela, de repente, a voz suave, mas firme, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Eu parei, surpresa, o calor subindo ao rosto.

— Como você poderia saber disso? — perguntei, tentando soar casual, mas meu coração deu um salto com as palavras dela.

Flora sorriu, inclinando a cabeça, os cachos longos balançando.

— É o jeito que ele te olha — disse ela, apontando para os próprios olhos. — Como se quisesse te engolir. Ele não olha pra ninguém assim.

Eu ri, o som saindo mais nervoso do que eu queria.

— Você tá assistindo muita novela, Flora — retruquei, bagunçando o cabelo dela, mas as palavras dela ficaram comigo, girando na minha cabeça como as sombras da mansão. O corredor estava vazio agora, o eco dos passos de Miles sumindo escada abaixo, mas o calor do toque dele, o peso do olhar dele, ainda queimava na minha pele. A Mansão Fairchild era um labirinto de segredos, e Miles Fairchild era o maior deles.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora