Pessoal, que fique claro que a relação dos dois tá longe de ser a relação mais saudável do mundo, quem leu a primeira versão sabe.
MILES FAIRCHILD
A sala da direção cheirava a madeira antiga e cera de chão, um odor que se agarrava às narinas como uma memória que não explica por que incomoda. As paredes escuras, forradas com painéis de mogno, pareciam engolir a luz fraca que vinha da janela, onde a neve caía em flocos lentos, cobrindo o mundo lá fora com um silêncio que contrastava com o caos dentro de mim. Eu estava sentado na cadeira de couro, as mãos cruzadas sobre o colo, os nós dos dedos ainda ardendo do soco que dei em Ethan. A marca da violência pulsava na minha pele, mas não era nada comparado ao que eu sentia por dentro — uma mistura de raiva, culpa e algo mais profundo, algo que só Amara conseguia despertar.
A porta se abriu com um rangido, e a diretora saiu com Ethan, que segurava o maxilar como se fosse um troféu de guerra. Ele me lançou um olhar de desprezo, mas não disse nada. Não precisava. Eu sabia o que ele pensava, e ele sabia que eu faria de novo se precisasse. A porta bateu atrás deles, deixando a sala mergulhada em um silêncio que parecia esperar algo. E então ela entrou.
Amara. Os braços cruzados, o queixo erguido, os olhos castanhos brilhando com uma fúria que eu conhecia bem demais. O uniforme azul-escuro da escola abraçava seu corpo, a saia subindo um pouco acima do joelho, o cabelo solto caindo em ondas que pareciam desafiar a ordem do lugar. Ela parou a poucos passos de mim, o ar entre nós pesado, como se carregasse todas as palavras não ditas da exposição. Definitivamente ela era o ser mais lindo do mundo quando estava com raiva.
— Valeu a pena, Miles? — perguntou ela, a voz cortante, cada sílaba pingando com desdém. — Levar uma suspensão só pra não me deixar ir com Ethan? Sério?
Eu sorri, um sorriso torto, sarcástico, que sabia que ia irritá-la ainda mais. Não conseguia evitar. Era como se o fogo nos olhos dela me puxasse, me desafiasse a jogar mais lenha na fogueira.
— Faria de novo, Miller — respondi, inclinando-me para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. — Quantas vezes fosse preciso.
Ela revirou os olhos, o movimento tão familiar que quase me fez rir, mas o som morreu na minha garganta quando ela deu um passo para sair. Algo em mim disparou — uma necessidade crua, quase animal, de mantê-la ali, de não deixar o espaço entre nós crescer. Levantei-me em um movimento rápido, segurando o braço dela antes que pudesse alcançar a porta. Meu aperto era firme, mas não bruto, os dedos sentindo o calor da pele dela através da blusa.
— Não vai embora ainda, Amara — murmurei, minha voz mais rouca do que eu queria, carregada de algo que não sabia nomear.
Ela girou nos calcanhares, o rosto uma máscara de raiva, mas veio fácil para perto de mim, como se o corpo dela soubesse algo que a mente ainda lutava contra. Seus olhos faiscavam, e por um instante, achei que ela ia ceder, que ia deixar a raiva se dissolver no calor que sempre parecia nos engolir. Mas então ela falou, e cada palavra era uma faca.
— Por que você mentiu pra mim, Miles? — A voz dela tremia, não de fraqueza, mas de uma mágoa que cortava fundo. — Sobre Cristal. Sobre aquele beijo. Você disse que a afastou, mas não foi bem assim, foi?
Eu engoli seco, a verdade subindo pela garganta como bile. Eu não queria mentir, nunca quis, mas na festa, quando Cristal jogou aquele comentário sobre Amara me chamar de primo, algo em mim quebrou. Pensei que ela queria me esconder, que eu era só um segredo sujo. Então, quando Cristal se aproximou, com aqueles cachos ruivos e aquele sorriso calculado, eu deixei o selinho acontecer. Um segundo, talvez dois, antes de empurrá-la para longe. Um erro estúpido, nascido da raiva e da insegurança. E agora, olhando para Amara, eu sabia que aquele segundo estava nos destruindo.
— Eu não beijei ela, Amara — comecei, a voz baixa, tentando segurar o controle. — Foi um selinho, um momento de fraqueza. Eu tava puto, achando que você tinha dito pra ela que éramos primos, que queria esconder o que temos. Mas eu a afastei. Juro. Fui atrás de você logo depois.
Ela riu, um som seco, sem humor, que doeu mais do que eu esperava.
— Um momento de fraqueza? — retrucou, dando um passo mais perto, o rosto tão próximo que eu podia sentir o calor da respiração dela. — E desde quando eu te devo explicações sobre o que digo ou não, Miles? Se eu quisesse manter isso privado, é minha escolha. Você não tinha que se meter com ela pra me punir!
As palavras dela acertaram como um soco, e eu senti a raiva subindo, quente, incontrolável. Mas não era só raiva — era medo, medo de perdê-la, de que ela escorregasse pelos meus dedos como areia.
— Você não entende, Amara — disparei, a voz subindo apesar de mim. — Eu não suporto ver ele perto de você, não suporto pensar que você pode escolher alguém como Ethan. Eu fiz merda, sim, mas foi porque você me deixa louco!
Ela cruzou os braços, os olhos estreitando, e por um segundo, achei que ela ia gritar de volta. Mas então ela deu um passo para a porta, murmurando algo que não ouvi, e o pânico me engoliu. Eu a segurei de novo, dessa vez com mais força, os dedos cravando no braço dela, não o suficiente para machucar, mas o suficiente para que ela sentisse que eu não ia deixá-la ir.
— Não vai embora, Amara — disse, quase um rosnado, meu coração batendo tão forte que parecia que ia explodir. — Não me deixa aqui.
Ela girou, os olhos ardendo, e antes que eu pudesse reagir, a mão dela voou, acertando meu rosto com um tapa que ecoou pela sala como um trovão. O som cortou o silêncio, e a dor queimou na minha bochecha, quente e viva, mas não era nada comparado ao choque. Amara levou a mão à boca, os olhos arregalados, como se não acreditasse no que tinha feito. O arrependimento estava lá, claro como o dia, mas a raiva ainda brilhava nos olhos dela, uma tempestade que não se dissipava.
Eu me virei de costas, a fúria subindo como uma onda, e bati com força na mesa da diretora. A madeira tremeu, o som reverberando, e eu senti o impacto nos nós dos dedos, a dor se misturando à raiva e a algo mais — uma excitação crua, um desejo que não fazia sentido, mas que estava lá, pulsando no meu peito. Amara me desafiava, me sensibilizava, e mesmo assim, eu a queria mais do que nunca.
Respirei fundo, tentando me controlar, e murmurei, sem me virar:
—Você pode me bater o quanto quiser, amor, mas você já é minha. Acho que você sabe disso, e isso te deixa com raiva.
Quando me virei, a maçã do meu rosto latejava, a marca do tapa provavelmente roxa contra a pele. Amara estava lá, a boca entreaberta, como se quisesse dizer algo, mas as palavras não vinham. O arrependimento nos olhos dela era um peso, mas a raiva ainda estava lá, misturada com algo que eu conhecia bem — desejo, tão forte quanto o meu. Ela balançou a cabeça, o cabelo balançando, e deu um passo para trás, como se quisesse fugir de mim, dela mesma, de nós dois.
— Amara... — comecei, a voz mais suave agora, quase implorando, mas ela não me deixou terminar.
— Não, Miles — cortou ela, a voz tremendo, mas firme. — Não agora.
E então ela saiu, a porta batendo atrás dela com um som que pareceu final, mas que eu sabia que não era. Ela podia me bater, me odiar, me empurrar, mas iria voltar. Assim como eu voltaria sem pensar duas vezes.
Eu deslizei de volta para a cadeira, a mão roçando a bochecha onde o tapa ainda ardia. A neve continuava caindo lá fora, cobrindo o mundo com um silêncio que parecia zombar de mim. Eu sabia que ela estava com raiva, com culpa, com tudo isso misturado, mas também sabia que ela sentia o mesmo que eu, essa necessidade que queimava, que não deixava espaço para mais nada. Amara ja era minha, e eu era dela.
Eu ri baixo, um som rouco, quase amargo, e apoiei a cabeça nas mãos. A suspensão, o soco, o tapa — tudo isso era só o começo. Porque com Amara, haveria mais. E eu não queria que fosse diferente.
[Autora]
Eu amo a relação deles, apesar de saber que não faz bem
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𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙
FanficAmara não planejou se mudar para a mansão Fairchild. Muito menos cruzar o caminho de Miles - o herdeiro bonito, perigoso e completamente acostumado a destruir tudo o que toca. Eles não deveriam se aproximar. Eles não deveriam sentir. E, acima de tud...
