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AMARA MILLER

Uma semana após o beijo na biblioteca, o ar parecia mais pesado, como se carregasse o peso do que Miles Fairchild tinha dito — "Eu quero você" — e do beijo que eu iniciei, profundo, ardente, melhor que o primeiro. A memória ainda queimava em mim, o calor do nariz dele no meu pescoço, a urgência das mãos dele na minha cintura, o jeito que meu coração parecia explodir.

Era uma tarde de novembro. Dani, Flora e eu caminhávamos para um parquinho próximo, as árvores retorcidas ao redor esticando galhos como dedos esqueléticos, a brisa fria mordendo minha pele através do casaco. O cheiro de folhas úmidas e terra molhada enchia o ar, e o balançar dos brinquedos enferrujados criava um som que parecia um lamento gótico.

Flora correu para os balanços, os cabelos dançando enquanto ria, empurrando-se com os pés. Dani e eu nos sentamos em um banco de madeira gasto, as tábuas frias sob nós, observando Flora com um sorriso. Dani, com o cabelo loiro preso e um capuz, parecia mais leve, os olhos brilhando com algo que eu não via há muito tempo.

— Então, Amara — começou Dani, a voz suave, mas com um tom de excitação. — James e eu... estamos namorando.

Meu coração aqueceu, e eu sorri, genuinamente feliz pela minha irmã mais velha. 

— Sério? Dani, isso é incrível! — disse, inclinando-me para abraçá-la. — James é um cara legal. Você merece isso.

Ela riu, o som leve, mas então seu rosto ficou pensativo, os olhos vagando para Flora, que gritava de alegria no balanço. 

— É, ele é ótimo — disse, a voz caindo para um tom mais baixo. — Mas... Kate tem agido estranho quando estamos juntos. Olhares frios, comentários cortantes. Não sei o que é, mas é... desconfortável.

Eu franzi a testa, a memória de Kate na cozinha voltando à tona, o murmúrio venenoso dela sobre "pessoas que tomam o que não é delas". 

— Acho que é ciúmes — disse, mantendo a voz casual, mas firme. — Já ouvi ela falando coisas assim antes, tipo 'pessoas que tomam o que não é delas'. Parece que ela não gosta de ver você e James juntos.

Dani ergueu uma sobrancelha, surpresa, mas assentiu lentamente. 

— Faz sentido — murmurou, olhando para o horizonte cinzento. — Espero que ela supere isso.

Flora gritou do balanço, pedindo para ser empurrada, e Dani se levantou, rindo, enquanto corria para ajudar. Fiquei no banco, o vento frio roçando meu rosto, a conversa sobre Kate girando na minha cabeça. A mansão e seus segredos pareciam se estender até ali, como as sombras das árvores retorcidas ao redor.

[...]

À noite, a Mansão Fairchild estava viva com sombras, as torres escuras cortando o céu estrelado, o cheiro de madeira úmida e cera velha enchendo o ar. Eu estava na estufa, o ar quente e úmido contrastando com o frio lá fora, o cheiro de terra e rosas me envolvendo como um abraço. Miles estava lá, podando rosas com uma tesoura pequena, uma camisa de manga longa azul-escura abraçando os ombros largos, os cabelos bagunçados caindo sobre a testa. Seus olhos pretos levantaram quando entrei, brilhando com aquele meio-sorriso torto que fazia meu coração acelerar.

— Veio me espionar, Miller? — perguntou, a voz rouca, cada sílaba pingando com provocação.

Eu ri, cruzando os braços, tentando ignorar o calor que subia pelo meu pescoço. 

— Só vim ver se você não tá matando essas Flores — retruquei, apontando para as flores. E ele sorriu.

—Como foi o parquinho com Flora e Dani hoje? Flora se divertiu?

— Foi legal — respondi, me aproximando, o calor da estufa me envolvendo. — Flora amou os balanços. E... Dani me contou que ela e James estão namorando.

Miles ergueu uma sobrancelha, o sorriso se alargando. 

— Sério? Kate não tá morrendo de ciúmes? — perguntou, o tom leve, mas com uma ponta de curiosidade. —Ela é louca por ele.

Eu parei, surpresa, o peso da conversa com Dani voltando. 

— Isso é verdade? — perguntei, inclinando a cabeça. — Tipo, ela realmente gosta dele?

Miles assentiu, cortando uma rosa com cuidado. 
— É. Sempre foi óbvio. Ela fica toda tensa quando ele tá por perto.

— Faz sentido agora — murmurei, pensando nos murmúrios de Kate, nos olhares frios. —Dani disse que ela tá agindo estranho.

Miles riu, baixo, deixando a tesoura na bancada. 

— Kate e seus dramas — disse, mas o tom era mais suave, quase pensativo. Ele me olhou, os olhos brilhando na luz fraca da estufa. —Quer ajudar com as rosas?

Eu hesitei, mas assenti, curiosa. 

— Claro. Mas não sei se sou confiável com plantas.

Ele riu, o som quente, me puxou e de repente estava atrás de mim, o corpo colado ao meu, o calor dele me envolvendo como a umidade da estufa. Ele pegou a tesoura e colocou na minha mão, os dedos quentes roçando os meus, guiando minha mão até uma rosa. 

— É só cortar aqui — disse, a voz rouca, o hálito quente contra meu pescoço, enviando arrepios pela minha espinha. O peito dele pressionava minhas costas, e eu podia sentir o ritmo da respiração dele, lento, mas pesado, como se ele estivesse lutando contra algo.

— Tô fazendo certo? — perguntei, a voz trêmula, tentando focar na rosa, mas o calor do corpo dele, o toque dos dedos dele nos meus, tornava impossível pensar.

— Você tá no caminho — murmurou ele, tão perto que eu podia sentir o sorriso na voz dele. Então, ele me girou, devagar, os olhos pretos fixos nos meus, brilhando com algo que era ao mesmo tempo desejo e cuidado. Antes que eu pudesse falar, ele se inclinou, os lábios encontrando os meus em um beijo diferente, mais delicado que os outros, como se ele estivesse podando uma rosa, com cuidado, precisão, ternura. Minhas mãos subiram para os ombros dele, o calor do toque dele me ancorando, o beijo se aprofundando, mas ainda suave, como se ele quisesse saborear cada segundo.

Quando nos afastamos, ofegantes, ele sorriu, o meio-sorriso torto voltando, mas com uma suavidade que eu não tinha visto antes. 

—Você tá aprendendo rápido, Miller. — disse, a voz rouca, os olhos ainda fixos nos meus.

Eu ri, o coração disparado, o calor do beijo ainda queimando meus lábios. 
— Não sei se as rosas concordam — retruquei, tentando recuperar o fôlego.

Ele riu, baixo, e voltou às rosas, mas o ar entre nós estava carregado, como se a estufa tivesse guardado o calor daquele momento. Saí, o coração ainda acelerado, a mansão parecendo maior, mais viva, as sombras dançando como se soubessem o que tinha acabado de acontecer.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora