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AMARA MILLER

Os corredores da escola cheiravam a cera velha e papel úmido, os azulejos gastos refletindo a luz cinzenta que vinha das janelas altas. Eu ajustei a mochila no ombro, o peso dos livros me ancorando enquanto caminhava para a aula de literatura. Fazia uma semana desde meu primeiro dia, e o prédio de tijolos vermelhos, com seu ar de castelo decadente, já não me intimidava tanto. Mas Miles Fairchild? Ele era um problema à parte. Depois de sete dias lidando com seus comentários sarcásticos e olhares que pareciam me desafiar, eu sabia que ele era mais do que apenas o herdeiro arrogante da Mansão Fairchild. Ele era uma faísca que eu não queria perto, mas que não conseguia ignorar.

Clara, minha nova amiga, me encontrou na entrada da sala, seu cabelo castanho ondulado balançando enquanto falava sobre o teste de química que ela jurava ter bombado.

— Sério, Amara, se eu tirar menos de sete, minha mãe vai me trancar em casa — disse ela, com aquele sorriso largo que parecia iluminar o corredor. —E você, tá pronta pra esse treco de O Morro dos Ventos Uivantes?

Dei de ombros, mantendo a voz neutra.
— Acho que sim — murmurei, embora minha cabeça estivesse mais na promessa que fiz a Dani de não brigar com Miles do que no livro. Clara era um raio de sol, mas eu ainda preferia ficar na minha, com a culpa pelos meus pais pesando como uma sombra.

Na sala, sentei no fundo, o uniforme — saia, camisa branca, blazer azul-marinho — parecendo mais uma prisão do que uma roupa. O professor começou a falar sobre Heathcliff e Catherine, mas eu mal ouvia, rabiscando no caderno para me distrair. Foi quando senti um peso, como se o ar tivesse ficado mais denso. Levantei os olhos e lá estava ele: Miles, virado na cadeira, o blazer aberto, a gravata frouxa como se ele desafiasse as regras só por existir. Seus olhos pretos cravaram nos meus, e um sorriso lento e perigoso curvou seus lábios.

— Tá perdida nos seus pensamentos, Miller? — disse ele, a voz rouca, quase um sussurro, mas alta o suficiente para me alcançar. — Ou tá imaginando como seria se eu te desse mais atenção?

O calor subiu ao meu rosto, meu coração dando um salto traidor. Ele estava lindo no uniforme, a camisa branca destacando a curva dos ombros, mas eu mantive a expressão fria, os olhos estreitando.

— Atenção sua? — retruquei, a voz afiada, mas com um toque de sarcasmo para esconder o nó no meu estômago. — Prefiro ficar sozinha do que lidar com seu ego, Fairchild.

Clara abafou uma risada ao meu lado, sussurrando:
— Caramba, vocês dois são um espetáculo.

Miles ergueu uma sobrancelha, o sorriso se aprofundando, como se minha resposta fosse exatamente o que ele queria. Ele se recostou na cadeira, voltando ao caderno, mas o ar entre nós parecia vibrar, carregado de uma tensão que eu não queria nomear. Ele era insuportável, com aquele charme sombrio que parecia calculado para me tirar do sério. Cerrei os punhos sob a mesa, irritada comigo mesma por deixar ele me afetar. Ele não era nada além de um garoto arrogante com uma fama que eu não entendia.

No intervalo, Clara me arrastou para o refeitório, falando sobre o clube de teatro e um garoto que ela jurava estar a fim dela. Sentamos em uma mesa no canto, com sanduíches que pareciam mais borracha do que comida.

— Sério, Amara, você precisa tomar cuidado com o Miles — disse ela, mordendo o pão. — Ele é tipo uma lenda aqui. Todo mundo fala que ele é briguento, meio... sombrio. Ouvi dizer que ele já se meteu em uma confusão feia, mas ninguém dá detalhes.

Franzi a testa, cutucando o suco com o canudo.
— Confusão feia como? — perguntei, mantendo o tom desinteressado, embora uma parte de mim quisesse entender por que ele atraía tantos olhares.

Clara deu de ombros, com um meio-sorriso.
— Tipo, ele já deixou um cara no chão. Não sei direito, mas as pessoas evitam mexer com ele. Ele tem essa vibe... , sabe?

Olhei para onde Miles estava, sentado sozinho em outra mesa, o blazer jogado sobre a cadeira, a gravata ainda frouxa. Ele lia um livro, alheio aos cochichos, mas havia algo na postura dele — confiante, quase predatória — que fazia meu estômago revirar. Perigoso? Talvez. Mas eu não ia deixar ele pensar que podia me intimidar.

— Ele é só um idiota com dinheiro — murmurei, mais para mim mesma do que para Clara. Ela riu, mas seus olhos seguiram Miles por um instante, como se ela também tentasse decifrá-lo.

De volta à Mansão Fairchild à tarde, o frio úmido me abraçou assim que entrei. O lago lá fora brilhava como um espelho escuro, os juncos balançando sob o céu de outubro. Eu ajudava Dani no salão de estudos, organizando os cadernos de Flora enquanto ela praticava escrita, a língua para fora em concentração. Dani estava radiante, falando sobre um novo plano de aula, mas eu respondia com grunhidos, minha cabeça ainda na escola. Miles e seus olhos pretos não saíam da minha mente, e isso me irritava mais do que eu queria admitir.

Quando James entrou, trazendo uma caixa de lápis de cor, Dani sorriu, e ele retribuiu com um olhar que parecia aquecer o ar frio.
— Trouxe isso pra Flora — disse ele, colocando a caixa na mesa. — E, Dani, se precisar de ajuda com aquela estante que tá rangendo, é só me chamar.

Dani corou, ajeitando uma mecha loira.
— Valeu, James. Quem sabe depois? — respondeu, com um tom leve que traía um flerte sutil.

Eu revirei os olhos, focando nos cadernos. Dani e seus flertes com James eram fofos, mas eu não estava no clima para romance. Depois que ela liberou Flora para brincar, decidi explorar o terreno da mansão, precisando de ar para limpar a imagem de Miles da minha cabeça. A neblina havia cedido, revelando o jardim selvagem, com arbustos espinhosos e o lago escuro brilhando ao longe. Enquanto caminhava, notei algo escondido atrás de um grupo de árvores: uma estufa antiga, com vidros embaçados e hera rastejando pelas paredes de pedra.

Empurrei a porta enferrujada, que rangeu como um lamento. O interior era um mundo à parte: rosas vermelhas, orquídeas brancas e samambaias verdes cresciam em vasos bem cuidados, o ar quente e doce com um toque de terra úmida. Dei um passo, o chão de terra sob meus tênis, e então o vi: Miles, ajoelhado perto de uma roseira, podando as folhas com uma tesoura pequena. Ele usava um suéter preto, as mangas dobradas até os cotovelos, os cabelos castanhos escuros caindo sobre os olhos. A luz fraca dos vidros iluminava a curva de sua mandíbula, e por um segundo, meu coração acelerou, traidor.

Ele não me viu, absorto no trabalho, os movimentos precisos, quase delicados. Miles, o cara que vivia me provocando com aquele sorriso arrogante, cuidando de plantas? Era tão fora do personagem que me pegou desprevenida. Recuei em silêncio, fechando a porta antes que ele notasse. Meu peito apertou, uma mistura de irritação e algo que eu não queria nomear. Ele podia ter seus segredos, mas eu não ia deixar ele pensar que me importava.

Voltei ao salão, onde Flora agora montava um quebra-cabeça, rindo de uma peça que não encaixava. Ela olhou para mim, os olhos grandes brilhando.
— Você já viu a estufa lá atrás? É tão bonita — disse ela, com um tom de segredo. — Mas o Miles não gosta que mexam nas coisas dele.

Assenti, mas não respondi, a mente ainda na estufa. A mansão, o lago, e agora esse lado escondido de Miles — tudo parecia um quebra-cabeça, e eu não tinha certeza se queria montar as peças.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora