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AMARA MILLER

A cozinha da mansão Fairchild era um oásis improvável, um canto quente em meio ao frio que parecia impregnar cada corredor daquela casa. As paredes de pedra, normalmente tão austeras, pareciam suavizar sob a luz dourada que vinha da lareira, e o cheiro de farinha, baunilha e açúcar pairava no ar, misturando-se ao aroma de café que Dani sempre insistia em preparar. Eu estava debruçada sobre a bancada, as mãos sujas de farinha, moldando biscoitos com Flora, que ria enquanto tentava fazer um coração torto com a massa.

— Você é boa nisso, Amara — disse Sra. Grose, limpando as mãos no avental, um sorriso gentil nos lábios enrugados. — Tem jeito pra cozinha. Sua mãe te ensinou?

Eu sorri, um pouco hesitante, o peso da lembrança dos meus pais ainda fresco depois da conversa na estufa com Miles.

— Um pouco — respondi, amassando a massa com mais força do que precisava. — Ela gostava de fazer biscoitos nas festas. Eu só observava, mas acho que peguei o jeito.

Flora, sentada em um banquinho ao meu lado, balançava as pernas, o cabelo loiro preso em duas tranças que balançavam a cada movimento.

— Amara, faz um biscoito em forma de pássaro! — pediu ela, os olhos brilhando. — Como aquele que você desenhou na sua escola!

Eu ri, pegando um pedaço de massa e começando a moldar as asas.

— Tá bem, mas não me culpe se parecer mais um pombo defeituoso.

Dani, que mexia uma tigela de glacê colorido, soltou uma gargalhada.

— Pombos defeituosos são o especial da casa, né, Flora? — brincou, piscando para a menina.

Flora riu alto, o som enchendo a cozinha, e por um momento, tudo parecia leve, como se a mansão não fosse um labirinto de segredos e tensões. Mas então Dani parou de mexer o glacê, o sorriso vacilando, e olhou para Sra. Grose, que colocava uma bandeja de biscoitos no forno.

— Sra. Grose — começou Dani, a voz mais baixa, quase cautelosa. — A Kate... ela tá tomando os remédios direitinho, né?

O ar na cozinha mudou, como se uma sombra tivesse passado pela janela. Sra. Grose endireitou a postura, as mãos parando por um instante antes de pegar outra bandeja.

— Ela tá, sim — respondeu, o tom firme, mas com uma preocupação que não conseguia esconder. — Mas... você sabe como ela é. Às vezes, acho que os remédios não são suficientes.

Eu troquei um olhar com Dani, a lembrança do surto de Kate no meu quarto ainda viva, as palavras venenosas dela ecoando na minha cabeça. O jeito que ela falou de Miles, a forma como ele ficou em silêncio quando perguntei se ela tinha feito algo com ele... tudo isso pesava no meu peito, como uma pedra que eu não conseguia tirar. Mas respeitaria o tempo dele.

Flora, alheia à tensão, pegou um papel dobrado do bolso do vestido e me entregou, os olhos brilhando de orgulho.

— Amara, fiz isso pra você! — disse ela, empurrando o desenho na minha direção.

Eu desdobrei o papel, e meu coração apertou. Era um desenho simples, feito com lápis de cor: eu, Flora e Miles, de mãos dadas, com um coração enorme ao fundo, vermelho e torto, mas cheio de intenção. Flora tinha desenhado meu cabelo com cuidado, as ondas escuras caindo pelos ombros, e Miles com aquele sorriso que eu conhecia tão bem.

— Flora, isso é lindo — murmurei, a voz embargada, passando os dedos pelo desenho. —Obrigada.

Ela sorriu, jogando os braços ao meu redor, e eu a abracei de volta, sentindo um calor que não vinha da lareira. Dani olhou para nós, um sorriso suave nos lábios, mas antes que pudesse dizer algo, um movimento na porta chamou minha atenção. Kate estava lá, encostada no batente, os olhos fixos em nós, o rosto uma máscara de silêncio. Ela não disse nada, mas o peso do olhar dela era como uma corrente, fria e sufocante. Por um segundo, nossos olhos se encontraram, e eu vi algo ali — ciúme, dor, talvez loucura. Então ela se virou e saiu, os passos leves ecoando pelo corredor.

Eu engoli seco, tentando ignorar o frio que subiu pela espinha. Sra. Grose suspirou, limpando as mãos no avental de novo, como se quisesse apagar o momento.

— Não se preocupe com ela, querida — disse, a voz suave, mas cansada. — Kate só precisa de tempo.

Eu assenti, mas as palavras dela não me convenceram. Kate não precisava de tempo — ela precisava de algo que eu não sabia se alguém podia dar. Flora, ainda alheia, pegou outro pedaço de massa, e Dani voltou a mexer o glacê, mas o momento de leveza tinha rachado, como um dos copos que Kate quebrou na semana passada.

Então eu senti ele antes de vê-lo. O calor, a presença, o jeito que o ar mudava quando Miles entrava em um lugar. Ele apareceu na porta da cozinha, o cabelo bagunçado, e o suéter amarrotado, como se tivesse acabado de acordar de um cochilo. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele veio por trás de mim, os braços envolvendo minha cintura, o queixo apoiado no meu ombro.

— Cheiro bom — murmurou, a voz rouca contra meu ouvido, antes de beijar minha bochecha, o toque quente enviando um arrepio pelo meu corpo.

Eu senti meu rosto queimar, e sorri. Ele pegou um biscoito da bandeja, ainda quente, e deu uma mordida, os olhos brilhando com uma travessura que me fazia querer ao mesmo tempo abraçá-lo e empurrá-lo.

— Miles! — reclamou Flora, rindo. — Esses são pra decorar!

— Desculpa, pequena — disse ele, bagunçando o cabelo dela antes de sair da cozinha, o biscoito ainda na mão, um sorriso torto nos lábios.

Dani olhou para mim, um brilho nos olhos, e se inclinou sobre a bancada, o sorriso alargando.

— Tá ficando sério entre você e o Miles, hein? — brincou, o tom leve, mas com uma curiosidade que me fez revirar os olhos.

— Para com isso, Dani — murmurei, focando na massa, tentando esconder o calor que subia pelo meu pescoço.

Ela riu, e Flora, que agora decorava um biscoito com glacê rosa, olhou para mim com um sorriso conspirador.

— Ele gosta de você, Amara — disse ela, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Eu sorri, apesar de mim mesma, e não respondi. O desenho de Flora ainda estava na bancada, o coração vermelho brilhando como uma promessa, e eu não podia negar o calor que sentia toda vez que pensava em Miles. Na estufa, à duas noites atrás, com o vinho e o desejo que nos engoliu, ele disse que eu era tudo que ele via. E agora, com o toque dele ainda na minha pele, o peso daquele momento voltava, misturado com a culpa do tapa, com o medo do que Kate poderia ter feito com ele, com a certeza de que nossa relação era algo que eu não queria largar mais.

Eu peguei o desenho de Flora, dobrando-o com cuidado, e voltei a moldar a massa, o coração batendo rápido demais. A cozinha era quente, acolhedora, mas eu sabia que as coisas ainda podiam dar errado, haviam coisas que não podiam ser ignoradas. Kate, com seu olhar vazio na porta, era uma delas.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora