AMARA MILLER
O céu de outubro era um véu de chumbo, as nuvens cinzentas engolindo o sol e jogando sombras tortuosas sobre o campo atrás da escola. A névoa rastejava entre as árvores retorcidas, seus galhos como dedos esqueléticos dançando na brisa fria, como se sussurrassem segredos antigos. O piquenique da escola, à tarde, era um caos vibrante: alunos espalhados em cobertores xadrez, rindo alto enquanto a fogueira central crepitava, enviando fagulhas douradas que desafiavam a penumbra do céu. O cheiro de lenha queimada misturava-se ao aroma úmido de terra e folhas caídas, criando uma atmosfera gótica que era ao mesmo tempo acolhedora e inquietante, como se o próprio campo guardasse histórias não contadas. Eu ajustei o blazer azul-marinho do uniforme, sentindo-o apertar meus ombros, a saia xadrez roçando minhas pernas enquanto caminhava com Clara pelo gramado irregular, os tênis afundando na terra macia.
Dani tinha me liberado para vir ao piquenique, dizendo que valia um ponto extra na escola, e eu não podia negar que a ideia de sair da rotina da Mansão Fairchild era tentadora. Ainda assim, estar cercada de risadas e conversas me fazia sentir deslocada, como se eu fosse uma peça de quebra-cabeça que não encaixava.
— Amara, para de fazer cara de quem tá indo pra forca — disse Clara, seu cabelo castanho ondulado balançando enquanto girava um marshmallow na ponta de um graveto, tentando dourá-lo na fogueira. Seus olhos verdes brilhavam com uma animação que parecia iluminar até a névoa. — Olha, comida de graça, fogueira, um violão meio desafinado... é praticamente um festival chique!
Forcei um meio-sorriso, segurando um copo de suco morno que tinha gosto de açúcar derretido.
— Não é bem minha vibe — respondi, minha voz suave, os olhos vagando pelo campo. O calor da fogueira lambia o ar, mas não conseguia afastar o frio que se infiltrava pelos vãos do meu uniforme, como se a névoa tivesse dedos que roçavam minha pele.
Clara cutucou meu braço com o graveto, o marshmallow quase caindo na grama.
— Você precisa de uma distração — disse ela, com um sorrisinho malicioso. — Tipo, sei lá, um certo alguém que não para de te encarar.
Meu estômago deu um salto antes mesmo de seguir o olhar dela. Lá estava ele: Miles Fairchild, encostado em uma árvore a poucos metros, o blazer aberto, a gravata frouxa, como sempre. Seus cabelos castanhos escuros caíam sobre a testa, úmidos pela névoa, e os olhos pretos brilhavam à luz das chamas, cravados em mim com uma intensidade que fazia minha pele formigar. Ele parecia deslocado, como se o piquenique fosse uma obrigação e não uma escolha, mas havia algo na postura dele — ombros relaxados, mas tensos, como um lobo à espreita — que me prendia. Meu coração acelerou, traidor, e eu desviei o olhar, irritada comigo mesma.
— Ele pode olhar o quanto quiser — murmurei, a voz seca, focando nas fagulhas que subiam da fogueira. Mas o calor subiu pelo meu pescoço, e eu odiei como ele conseguia me desestabilizar com um simples olhar.
Clara riu, abanando o marshmallow, que agora estava meio carbonizado.
— Sério, Amara, vocês dois são tipo dinamite. — disse ela, os olhos brilhando com diversão. — Um dia, isso vai explodir, e eu quero estar na primeira fila.
Antes que eu pudesse retrucar, um cara se aproximou, pisando no cobertor com uma confiança que me irritou de cara. Ethan, da aula de química, alto, com cabelo loiro bagunçado e um sorriso que gritava "sou irresistível". Ele se jogou ao meu lado, perto demais, o joelho roçando o meu de um jeito que me fez enrijecer.
— Oi, Amara — disse ele, o tom melífluo, como se estivesse tentando vender algo. — Não te vi direito na escola essa semana. Tava se escondendo de mim?
Revirei os olhos, afastando-me sutilmente, o copo de suco quase amassando na minha mão.
— Não, só ocupada — respondi, cortante, mas Ethan não captou a deixa, inclinando-se mais perto, o cheiro de colônia barata invadindo meu espaço.
— Relaxa, eu não mordo — disse ele, com uma risada que me deu vontade de jogar o suco na cara dele. — A menos que você queira, claro.
Minha garganta apertou, a irritação borbulhando como a lenha na fogueira. Olhei para Clara, pedindo socorro com o olhar, mas ela estava distraída, rindo com um grupo de amigos que jogava frisbee. Antes que eu pudesse responder, o ar pareceu mudar, ficando mais denso, como se a própria névoa tivesse segurado a respiração. Miles estava a poucos passos, segurando uma lata de refrigerante, os dedos apertando o metal com força. Seus olhos estavam fixos em Ethan, estreitados, a mandíbula tensa. Ele se aproximou, parando ao meu lado, o corpo projetando uma sombra que parecia engolir a luz da fogueira.
— Problemas, Miller? — perguntou, a voz rouca, cada sílaba carregada de um tom que era ao mesmo tempo provocador e perigoso. Ele não olhou diretamente para Ethan, mas a tensão no seu corpo dizia tudo: ele estava a um passo de explodir.
— Nenhum — respondi, forçando a voz a soar firme, embora meu coração batesse rápido demais, um tambor descontrolado no peito. — Só conversando.
Miles ergueu uma sobrancelha, o olhar deslizando para Ethan por um instante, como se o avaliasse e o considerasse um inseto.
— É, parece fascinante — disse, o sarcasmo pingando de cada palavra, afiado como uma lâmina. Ele estendeu a lata de refrigerante para mim, os dedos longos roçando os meus ao passar o metal frio. O toque foi breve, mas enviou uma corrente quente pela minha pele, como se ele tivesse acendido uma faísca dentro de mim. Meus olhos encontraram os dele, e por um segundo, o mundo pareceu encolher, deixando apenas o brilho escuro do seu olhar e o calor que subia pelo meu braço.
Ethan riu, mas havia um nervosismo na voz, como se ele sentisse o peso da presença de Miles.
— Relaxa, cara, só tô conhecendo ela. — disse, levantando as mãos em um gesto de rendição, mas o tom era provocador, como se testasse o limite.
Miles não respondeu, apenas sustentou o olhar de Ethan por um segundo a mais, o suficiente para fazer o ar parecer mais pesado, como se a névoa tivesse se condensado entre eles. Então, ele se virou para mim, um meio-sorriso curvando seus lábios, aquele sorriso torto que parecia saber demais.
— Não se perca na conversa, Miller. — disse, a voz baixa, quase íntima, apesar do caos ao nosso redor.
Meu estômago revirou, um misto de irritação e algo que eu não queria nomear. Antes que eu pudesse responder, Miles se afastou, voltando para a árvore, o corpo relaxado, mas os olhos ainda me acompanhando, como se me desafiassem a reagir. Ethan resmungou algo sobre "caras metidos" e se levantou, desaparecendo na multidão com uma desculpa esfarrapada.
Clara voltou, abanando o marshmallow carbonizado, os olhos brilhando com diversão.
— Meu Deus, Amara, vocês dois são um espetáculo — disse ela, rindo. — Ele praticamente marcou território ali. E aquele toque? Sério, eu quase senti o calor daqui.
— Não exagera — murmurei, mas minha voz soava menos convicta do que eu queria. O toque dos dedos de Miles no meu ainda queimava, como se ele tivesse deixado uma marca invisível.
A tarde passou em um borrão de conversas e risadas que eu mal acompanhei. O violão desafinado continuava ao fundo, misturando-se ao crepitar da fogueira, e o cheiro de marshmallows queimados enchia o ar. Quando a van nos levou de volta à Mansão Fairchild, o céu já escurecia, as torres escuras da casa cortando o horizonte como lâminas. A hera seca rastejava pelas pedras cinzentas, e o lago ao longe brilhava como um espelho de obsidiana, refletindo a névoa que parecia viva. Desci do carro, tentando ignorar Miles, que conversava baixo com James no banco da frente.
Entrei na mansão, o cheiro de madeira úmida e cera velha me envolvendo como um abraço frio. Flora estava no salão de estudos, desenhando com lápis de cor, e Dani me cumprimentou com um sorriso, perguntando como foi o piquenique. Respondi com um aceno, minha mente ainda na fogueira, nas fagulhas douradas que dançavam no ar, no olhar de Miles que parecia me desafiar. Aquele brilho perigoso, o toque que queimava, a promessa de que ele estaria por perto, na mesma casa, no mesmo espaço. Eu sabia que evitar Miles Fairchild na Mansão Fairchild seria como tentar apagar uma fogueira com as mãos nuas — impossível, e perigoso.
[ Autora ]
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𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙
FanfictionAmara não planejou se mudar para a mansão Fairchild. Muito menos cruzar o caminho de Miles - o herdeiro bonito, perigoso e completamente acostumado a destruir tudo o que toca. Eles não deveriam se aproximar. Eles não deveriam sentir. E, acima de tud...
