33 | Fim

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NARRADOR

O corpo de Amara tombando, primeiro de joelhos, depois de lado, como se a força tivesse sido arrancada da espinha. A camiseta dele — que ela tinha vestido minutos antes — agora se tingindo de vermelho. O som que ela soltou não foi um grito, não um gemido. Foi apenas um suspiro estrangulado, como ar escapando de um pulmão perfurado.

— Amara.

O nome dele saiu quebrado.
Quebrado de um jeito que Miles nunca havia permitido sua voz quebrar.

Ele desceu as escadas tão rápido que quase caiu, tropeçando no próprio desespero. A cada degrau, a visão dela ficava mais próxima. Mais real. Mais insuportável.

O sangue dela já formava uma pequena poça que avançava pela madeira.
Quente.
Vivo.
Escorrendo rápido demais.

Miles se ajoelhou ao lado dela, as mãos tremendo quando tocaram sua cintura na tentativa desesperada de estancar o sangue. Ele nem percebeu quando escorregou e seus joelhos ficaram vermelhos também.

— Não, amor, não... olha pra mim. Olha pra mim — a voz dele era um sussurro em pânico, a respiração completamente fora do ritmo.

Amara piscou devagar. Os olhos dela buscavam algo no ar, e quando finalmente encontraram o rosto dele, o olhar se fixou — mas turvo, como se ela estivesse tentando enxergá-lo através de uma névoa.

Miles sentiu o mundo afundar.

Ele pressionou o ferimento com as duas mãos, o sangue escorrendo pelos seus dedos.

— Você vai ficar bem. Você vai ficar bem. Eu vou te tirar daqui, só... só fica comigo. Fica comigo.

Mas a respiração dela pulava, irregular.
Cada inspiração parecia doer nela.
Cada expiração parecia arrancar um pedaço dele.

Atrás deles, Kate começou a rir.

Uma risada baixa.
Torta.
Cheia de satisfação doentia.

— Que cena bonita — ela disse, apontando a arma agora diretamente para Miles. — Eu quase choro.

Miles levantou o rosto devagar, como um animal ferido, a raiva atravessando o olhar dele por dentro.

— Flora. Corre. Agora — ele ordenou, sem tirar os olhos de Kate.

A menina, ainda tremendo, escapou por trás de um móvel e disparou pela porta da frente, sumindo na escuridão da noite. Kate nem tentou impedi-la — porque ela já tinha o que queria ali.

E Miles sabia disso.

Ele virou o corpo um pouco, ainda protegendo Amara com o próprio torso. A arma de Kate estava apontada diretamente para o peito dele.

Ela não precisava mirar muito.

Amara, respirando com dificuldade, tentou mexer a mão. Ela procurava algo. Não era ajuda. Não era o chão.
Era ele.

Miles segurou a mão dela, e por um instante, nada existiu além daquele toque.

Então ele falou.

A única súplica de sua vida.

— Me mata. Faz o que quiser comigo — a voz saiu grave, quase rouca. — Mas deixa ela viver. Por favor.

Silêncio.

A palavra "por favor" não parecia vir de Miles.
Era como se tivesse vindo de alguém quebrado, alguém que já não era inteiro, alguém que só tinha um motivo para respirar.

Kate inclinou a cabeça, estudando ele com uma satisfação cruel.

— E por que eu faria isso? — ela perguntou, erguendo o galão de gasolina ao lado. — Eu vim terminar tudo, Miles. Acabar com essa história de uma vez.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora