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AMARA MILLER

A nevasca caiu leve sobre a cidade, cobrindo a escola com um véu branco que tornava tudo mais silencioso, mais gótico, como se o mundo estivesse prendendo a respiração. A luz cinzenta de novembro vazava pelas janelas da sala de história, pintando sombras tortuosas nas carteiras, o cheiro de giz e papel velho misturando-se ao frio que se infiltrava pelas frestas. Eu estava sentada ao lado de Miles, nossos livros abertos para uma atividade em dupla sobre revoluções industriais, mas minha mente estava em qualquer lugar, menos nas fábricas do século XIX. Estava no primeiro beijo. Cada encontro desde então, do roçar dos livros no salão de estudos ao beijo ardente na biblioteca, parecia puxar uma corda dentro de mim, cada vez mais tensa, pronta para romper.

Miles se inclinou para explicar algo sobre teares mecânicos, o rosto tão perto que eu podia sentir o calor da respiração dele, os lábios a centímetros dos meus, os olhos pretos brilhando com aquele meio-sorriso torto que fazia meu coração disparar. 

—Foca, Miller — disse, a voz rouca, pingando provocação. —Ou tá pensando em outra coisa?

— Só no quanto você explica mal — retruquei, tentando soar firme, mas minha voz saiu trêmula, traída pelo calor que subia pelo meu pescoço. Ele riu, baixo, e então sua mão escorregou sob a mesa, roçando minha coxa por um instante, um toque que podia passar por acidente, mas o brilho nos olhos dele dizia que era tudo menos isso. Meu corpo inteiro reagiu, a pele formigando, o ar preso na garganta, e eu tive que morder o lábio para não deixar escapar um som.

— Cuidado, Fairchild — murmurei, os olhos fixos no livro, mas meu coração batia tão rápido que parecia ecoar na sala.

Ele não respondeu, mas o canto da boca subiu, e o peso do olhar dele era como um toque, quente, insistente, me desmontando. O professor passou, elogiando nosso progresso, alheio à eletricidade que crepitava entre nós. Quando a aula terminou, saímos para o corredor, e vi Ethan, o cabelo loiro bagunçado, lançando um olhar provocador na minha direção. Mas quando notou Miles atrás de mim, a sombra dele como uma ameaça silenciosa, Ethan abaixou a cabeça e acelerou o passo, desaparecendo na multidão. Miles não disse nada, mas a presença dele, tão perto, era como um fogo que eu não conseguia ignorar.

[...]

Tarde da noite, a Mansão Fairchild estava mergulhada em escuridão, as torres escuras cortando o céu estrelado, a neve lá fora refletindo a luz pálida da lua. O cheiro de madeira úmida e cera velha enchia o ar, e a única luz vinha da televisão no salão de estar, piscando em tons azulados enquanto um filme qualquer — algo com vampiros e castelos sombrios — rolava na tela. Miles estava lá, sentado no sofá, uma camisa de manga longa verde-escura abraçando os ombros largos, e os cachos bagunçados. Ele tinha me chamado mais cedo, um bilhete deixado na minha porta dizendo apenas "Filme. Sala. 10 da noite". Eu quase não fui, o banho quente me prendendo, mas agora estava ali.

— Achei que não viria mais — disse ele, a voz rouca, pingando com aquela provocação familiar, o meio-sorriso curvando os lábios enquanto me olhava, os olhos brilhando na luz fraca da televisão.

— Estava no banho — respondi, a voz firme e um sorriso, enquanto me jogava no sofá ao lado dele, sentindo o calor do corpo dele mesmo estando a alguns centímetros. Sem hesitar, estiquei as pernas, apoiando-as no colo dele, os pés descalços roçando a calça dele. — Não reclama, Fairchild. Pelo menos eu apareci.

Ele riu, baixo, o som vibrando no ar, quente como o cheiro de terra que parecia sempre acompanhá-lo. 

— Não tô reclamando, Miller — disse, os olhos descendo para minhas pernas, o brilho neles mudando, ficando mais escuro, mais intenso. Ele pegou um dos meus pés, os dedos quentes envolvendo meu tornozelo, e começou a massageá-lo, o polegar traçando círculos lentos na planta, a pressão firme, mas cuidadosa. —Tô até te tratando bem, olha só.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora