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AMARA MILLER

Estávamos perto dos armários quando ela apareceu, Cristal, com seu ruivo brilhando como chamas sob a luz fraca, o sorriso largo, mas com uma ponta de cálculo. 

— Amara, né? — disse ela, parando na nossa frente, a voz doce, mas carregada de intenção. — Tô dando uma festa no sábado. Você tem que vir. — Ela inclinou a cabeça, o olhar avaliador. — Como você mora com o Miles, tipo, sendo prima dele, se você for, ele com certeza vai.

Eu senti uma pontada no peito, afiada. Prima? A palavra soava errada, quase ofensiva, mas mantive o rosto neutro, forçando um sorriso. 

— Não sou prima dele — corrigi, a voz firme, mas calma.

Cristal riu, como se minha correção fosse irrelevante, e virou-se para Clara, os olhos brilhando. 

— Você também tá convidada, Clara. Vai ser incrível. — Ela se aproximou, o tom conspirador. — E, sério, Amara, se você for, o Miles aparece. Ele nunca resiste a uma boa festa.

Clara praticamente pulou de animação, os olhos verdes brilhando. 

— A gente tem que ir, Amara! — disse ela, segurando meu braço. — Vai ser a melhor festa do ano. Não tem como dizer não!

Eu hesitei, mas o entusiasmo de Clara era contagiante, e a ideia de ver Miles fora da mansão, em um ambiente novo, mexia comigo. 

— Tá bom. — disse, rindo apesar de mim mesma.

Cristal sorriu, satisfeita, e se afastou com um aceno, os cachos ruivos balançando. Clara começou a tagarelar sobre o que ia usar.

À tarde, na Mansão Fairchild, o céu estava carregado, a neve caindo em flocos pesados, tingindo o lago de um brilho metálico. Eu estava na sala de estudos, ajudando Flora com um desenho de um pássaro voando sobre a neve, o cheiro de lápis de cera misturando-se ao ar úmido da mansão. Flora, com seus cachos loiros e olhos brilhantes, traçava linhas cuidadosas, mas parou, olhando para mim com um sorriso pequeno.

— Sabe, Amara — disse ela, a voz suave, quase um segredo. — Miles gosta de ficar perto de você. Ele fica... sei lá, mais leve.

Eu parei, o lápis vermelho na minha mão hesitando sobre o papel. Um calor sutil subiu pelo meu peito, uma semente de algo que eu não queria nomear, mas que parecia crescer a cada comentário de Flora. 

— Ele é assim com todo mundo, Flora

[...]

Eu estava sentada na cama, um livro de poesia aberto no colo, as palavras de Emily Dickinson borrando enquanto minha mente vagava. A porta do quarto estava aberta, e um leve rangido me fez levantar os olhos. Miles estava lá, encostado no batente.

— O que foi? — perguntei, a voz leve, enquanto marcava a página do livro e o colocava na mesinha de cabeceira.

— Só tô olhando — respondeu ele, a voz rouca, o sorriso se alargando enquanto entrava no quarto, os passos lentos, quase predatórios. Ele parou a poucos passos da cama, os olhos vagando pelo quarto, como se estivesse catalogando cada detalhe — o abajur antigo, os livros empilhados, a colcha de veludo.

Eu inclinei a cabeça, cruzando os braços, o canto da boca subindo. 

— Vai na festa da Cristal? — perguntei, mantendo o tom casual, mas com uma ponta de curiosidade.

Ele ergueu uma sobrancelha, os olhos voltando para mim, brilhando com desafio. 

— Você vai? — retrucou, dando um passo mais perto, o calor do corpo dele já começando a invadir meu espaço.

— Prometi pra Clara que ia — respondi, encolhendo os ombros, mas sentindo o peso do olhar dele, intenso, como se ele pudesse ver através de mim. — E você?

Ele riu, baixo, o som vibrando no ar, e se aproximou mais, parando na beira da cama. 

—Vou — disse. Ele continuou olhando ao redor, as mãos nos bolsos, como se estivesse avaliando o quarto com um propósito que eu não conseguia decifrar.

Eu me sentei na cama, puxando as pernas para cima, o movimento casual, mas deliberado, mantendo os olhos nele. 

— Você ainda não disse o que queria, Miles — falei, a voz suave, mas com um toque de desafio, sentindo o ar entre nós ficar mais denso, mais quente.

Ele parou, o sorriso se alargando, os olhos escurecendo com um brilho que era puro. 

— Ainda vou comer você nesse quarto, Miller — disse, a voz baixa, quase um ronronar, cada palavra pingando com provocação e promessa.

Eu ri, o som saindo leve, mas com uma ponta de calor, e peguei uma almofada, jogando na direção dele. 

— Sai daqui, Fairchild — disse, tentando soar firme, mas o sorriso traiu o desejo que queimava baixo no meu estômago.

Ele desviou da almofada com facilidade, rindo, o som quente, quase perigoso, e deu um passo para trás, os olhos ainda fixos nos meus. 

— Boa noite, Amara — murmurou, com a sombra dele desaparecendo pelo corredor.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora