AMARA MILLER
Entrei na sala de literatura, o cheiro de madeira polida e livros antigos me envolvendo como um abraço frio. As carteiras rangiam sob o peso dos alunos, e o quadro negro exibia anotações tortuosas sobre O Morro dos Ventos Uivantes, ainda. Sentei no fundo, como sempre, tentando me misturar às sombras. Clara deslizou para a cadeira ao meu lado como de costume, seus olhos verdes brilhando com uma energia que parecia desafiar o peso do dia.
— Então, como tá lidando com o fato de que Miles Fairchild praticamente te marcou no piquenique? — perguntou ela, mexendo no caderno, um sorrisinho malicioso nos lábios. — Aquele lance com o Ethan? Meu Deus, eu juro que vi fumaça saindo dos olhos dele.
— Não começa, Clara — murmurei, traçando uma linha irregular no caderno. — Ele só tava sendo... Miles. Irritante, como sempre.
— Irritante, sei — disse ela, rindo baixo. — Irritante com um toque de "vou te encarar até você derreter".
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu, e Miles entrou, e ele se jogou em uma carteira à frente, sem me olhar. Mas eu sentia ele, como se o ar ao redor dele pulsasse, puxando meu olhar contra minha vontade.
O professor, bateu palmas, atraindo a atenção da classe.
— Atenção, todos — disse, a voz rouca ecoando na sala. — Hoje, passarei um trabalho em dupla, para ser feito em casa. Vocês analisarão um tema de O Morro dos Ventos Uivantes e me entregarão na próxima semana. —Ele pegou a prancheta, ajustando os óculos. —Amara Miller e Miles Fairchild, vocês trabalham juntos. Faz sentido, já que moram na mesma casa.
Meu estômago revirou, o peso do olhar de Miles caindo sobre mim antes mesmo que eu levantasse os olhos. Ele se virou na cadeira, os olhos pretos brilhando com um misto de desafio e algo mais perigoso, um sorriso lento curvando seus lábios.
— Parece que você tá presa comigo. — disse ele, a voz baixa e rouca, cada sílaba deslizando como um toque na minha pele. —Não precisa pular de alegria.
Senti o calor subir ao rosto, mas mantive a expressão fria.
— Que sorte a minha — retruquei, o sarcasmo pingando da voz. — Tenta não atrapalhar, Fairchild.
Clara abafou uma risada ao meu lado, sussurrando:
— Isso vai ser melhor que uma novela.
O resto da aula passou em um borrão, com o professor explicando o trabalho e eu tentando não olhar para Fairchild, que parecia perfeitamente à vontade, rabiscando algo na margem do caderno com uma calma irritante. Quando o sinal tocou, ele se levantou, o blazer dobrado no braço, e passou por mim, o ombro roçando o meu de leve. O contato foi tão rápido que poderia ter sido acidental, mas o arrepio que subiu pela minha espinha dizia o contrário. Ele não olhou para trás, mas aquele meio-sorriso torto ainda dançava na minha mente enquanto eu saía da sala.
[...]
À tarde, na Mansão Fairchild, o ar estava frio e úmido, o lago lá fora brilhando como um espelho escuro sob o céu cinzento. Passei o tempo ajudando Flora no salão de estudos, dobrando seus papéis de desenho enquanto ela coloria uma folha com lápis de cor, cantarolando uma melodia suave. Dani estava por perto, organizando livros, o cabelo loiro preso em um coque, a voz leve enquanto falava sobre levar Flora a um parque no fim de semana. Eu respondia com acenos, minha mente já vagando para a noite, para o trabalho com Miles. A ideia de estar no espaço dele, no quarto dele, fazia meu estômago dar um nó que eu não queria analisar.
Quando a noite caiu, a mansão parecia ainda mais imponente, as torres escuras cortando o céu como lâminas, a hera seca rastejando pelas pedras cinzentas. Subi as escadas, o corrimão frio sob meus dedos, o cheiro de madeira úmida e cera velha enchendo o ar. Miles tinha dito para encontrá-lo no quarto dele, e a ideia de estar lá, fazia meu coração bater mais rápido do que eu queria admitir. Bati na porta, o som ecoando no corredor vazio, e esperei, ajustando a mochila no ombro.
VOCÊ ESTÁ LENDO
𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙
FanficAmara não planejou se mudar para a mansão Fairchild. Muito menos cruzar o caminho de Miles - o herdeiro bonito, perigoso e completamente acostumado a destruir tudo o que toca. Eles não deveriam se aproximar. Eles não deveriam sentir. E, acima de tud...
