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AMARA MILLER

Era manhã, e o nervosismo formigava no meu estômago enquanto eu ajustava o cartaz do trabalho sobre O Morro dos Ventos Uivantes ao lado de Miles Fairchild. Ele estava ao meu lado, os olhos pretos brilhando com confiança e uma calma que me irritava, como se ele não sentisse o peso do momento.

O professor, com seus óculos tortos e cabelo grisalho, chamou nosso nome, e eu senti o olhar de Miles em mim, como se ele pudesse sentir meu nervosismo. Subimos ao frente da sala, o cartaz entre nós, e começamos a apresentar, nossas vozes ecoando no silêncio. Falamos sobre o amor obsessivo de Heathcliff e Catherine, mas cada palavra parecia carregada. Miles se inclinou para apontar algo no cartaz, o ombro roçando o meu, o calor do contato enviando uma corrente quente pela minha pele. Meu coração acelerou, e eu lutei para manter a voz firme, mas o brilho nos olhos dele, dizia que ele sabia exatamente o que estava fazendo.

Quando terminamos, o professor bateu palmas, os olhos brilhando com aprovação.

— Excelente trabalho, Amara, Miles — disse, ajustando os óculos. — Vocês têm muita química juntos. Acho que vou colocá-los em dupla mais vezes.

Senti o calor subir ao rosto, e Miles riu, baixo, o som vibrando contra minha pele como se ele tivesse me tocado.

— Parece que estamos presos um ao outro, Miller — murmurou ele, enquanto voltávamos às carteiras, o ombro roçando o meu de novo, deliberadamente, como se ele quisesse testar meus limites.

— Que sorte a minha — retruquei, a voz seca, mas o calor no meu rosto me traía. Clara, sentada no fundo, abafou uma risada, os olhos verdes brilhando com malícia, como se ela pudesse ver o fogo que Miles acendia em mim.

Enquanto saíamos da sala, vi Ethan no corredor, o cabelo loiro bagunçado, os olhos baixos quando notou Miles caminhando logo atrás de mim. Ele abaixou a cabeça, acelerando o passo, e eu senti um alívio misturado com a memória do soco de Miles na biblioteca, do sangue no lábio de Ethan, da fúria protetora nos olhos de Miles. Miles não disse nada, mas a presença dele atrás de mim era como uma sombra quente, um lembrete de que ele estava ali, sempre à espreita.

[...]

Eu estava na pequena biblioteca da mansão, uma sala apertada com estantes abarrotadas e uma janela que deixava a luz pálida vazar como um véu. Estava guardando os livros da aula de Flora, o peso deles me ancorando, quando encontrei um velho caderno encostado na prateleira, a capa de couro gasta, com "Sra. Fairchild" escrito em letras cursivas desbotadas.

Abri o caderno, o papel amarelado rangendo sob meus dedos. Era um diário de anotações, cheio de esboços de rosas e notas sobre a estufa — datas de plantio, tipos de solo, cuidados com as flores. As palavras eram carinhosas, quase poéticas, como se a mãe de Miles tivesse derramado amor em cada linha. "As rosas precisam de paciência, como as pessoas", dizia uma nota. Meu coração apertou, e de repente entendi por que Miles passava tanto tempo na estufa, podando as rosas com um cuidado que parecia não combinar com o sarcasmo e os olhares intensos. Era o lugar dela, o refúgio dela, e agora o dele.

Guardei o caderno com cuidado, como se fosse frágil, a imagem de Miles na estufa ganhando uma nova camada, uma vulnerabilidade que eu não tinha visto antes. O peso daquela descoberta ficou comigo, girando na minha cabeça como as sombras da mansão.

[...]

À noite, a mansão parecia viva, as sombras dançando nas paredes, o cheiro de madeira úmida e cera velha enchendo o ar. Eu estava no salão de estar, enrolada em um cobertor, assistindo a um filme de terror antigo na televisão, a luz azulada piscando no escuro. O som de passos me fez virar, e lá estava Miles, entrando na sala com uma camisa de manga longa cinza, os cabelos bagunçados, como sempre. Ele se jogou no sofá ao meu lado, o corpo tão próximo que o calor dele parecia invadir meu espaço, o cheiro sutil de terra e algo mais, algo que me lembrava a estufa, me envolvendo.

— Não sabia que você curtia filmes ruins. — disse, a voz rouca, o meio-sorriso torto curvando os lábios enquanto ele apontava para a tela, onde um monstro malfeito perseguia uma garota gritando.

— É tão ruim que é bom — retruquei, tentando soar casual, mas meu coração acelerava com a proximidade dele. —E você, não tem rosas pra salvar?

Ele riu, baixo, o som vibrando no ar, e se inclinou um pouco mais, o ombro quase roçando o meu.

— As rosas podem esperar — disse, os olhos pretos brilhando na luz fraca do televisor, fixos em mim com uma intensidade que fazia minha pele formigar.

Hesitei, o caderno da mãe dele ainda na minha mente, as palavras dela ecoando como um segredo.

— Miles — comecei, a voz suave, quase engolida pelo som do filme. — Sobre a estufa... encontrei um caderno hoje. Da sua mãe. Ela parecia amar aquele lugar.

Ele congelou, o sorriso sumindo, os olhos escurecendo como se uma cortina tivesse caído. Por um momento, achei que ele não ia responder, que ia se fechar como sempre fazia. Mas então ele suspirou, passando a mão pelo cabelo, o gesto lento, quase doloroso.

— Era o lugar favorito dela — disse, a voz baixa, quase um sussurro. — Ela dizia que as rosas eram como pessoas, que precisavam de cuidado pra não murchar. Eu... tento manter isso vivo.

O peso das palavras dele me atingiu, e eu vi algo novo nele, uma rachadura na armadura de sarcasmo e provocações. Quis tocar a mão dele, oferecer algum conforto, mas quando minha mão se moveu, ele recuou, o corpo enrijecendo, como se tivesse percebido o que estava revelando.

— Esquece isso, Miller — disse, a voz rouca, mas com uma ponta de defesa. Ele se levantou, os olhos evitando os meus, e saiu da sala, deixando o ar mais frio, mais vazio.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora