03

7.4K 761 577
                                        


NARRADOR

A manhã na Mansão Fairchild amanheceu com um véu de neblina que envolvia o terreno como um manto fantasmagórico. Amara acordou com o som abafado da chuva, mais leve agora, mas constante, tamborilando contra a janela do seu quarto. O frio parecia se infiltrar pelas rachaduras das paredes, e ela puxou o cobertor fino até o queixo antes de se forçar a levantar. Seu cabelo liso e preto caía sobre os ombros, ainda um pouco úmido da umidade que parecia impregnar tudo na casa. Ela vestiu um suéter cinza e jeans, os tênis rangendo no assoalho frio enquanto se dirigia ao corredor.

O silêncio da mansão era quebrado apenas por sons distantes: o tilintar de louça na cozinha, o murmúrio de vozes no andar de baixo, e um rangido ocasional que parecia vir das entranhas da casa. Amara passou por uma das portas trancadas que notara na noite anterior, a fechadura enferrujada brilhando à luz fraca de um candelabro. Sua curiosidade a fez parar por um instante, a mão pairando sobre a maçaneta, mas o som de passos a fez recuar. Ela não queria ser pega bisbilhotando — não ainda.

Na sala de jantar, Dani já estava sentada, rindo de algo que Flora dizia. A menina segurava um caderno de desenhos, apontando para uma ilustração de um cavalo com entusiasmo. Dani, com seu cabelo loiro solto e um sorriso aberto, parecia à vontade, como se a mansão não a incomodasse tanto quanto a Amara. A diferença entre elas era gritante: Dani sempre fora a luz da família, mesmo após a morte dos pais, enquanto Amara carregava uma sombra que a mantinha reservada, os pensamentos presos em culpas e perguntas sem resposta.

— Bom dia, Mara — disse Dani, erguendo os olhos. — Dormiu bem hoje?

Amara deu de ombros, puxando uma cadeira. 
— Bem o suficiente — murmurou, pegando uma fatia de pão da bandeja no centro da mesa. O cheiro de café quente e manteiga derretida enchia o ar, mas havia algo mais, um leve odor metálico que parecia seguir Amara desde o salão de estudos.

Flora olhou para ela, os cachos castanhos balançando enquanto inclinava a cabeça. 
— Você parece cansada. A casa fez barulhos à noite? Às vezes, ela faz.

Amara franziu a testa, intrigada. 
— Barulhos? Tipo o quê?

Antes que Flora pudesse responder, a Sra. Grose entrou, carregando uma jarra de suco. Seus olhos afiados pousaram em Amara, e ela ofereceu um sorriso que não alcançava o olhar. 
— Nada com que se preocupar, Amara. Casas antigas têm seus caprichos. — Ela colocou a jarra na mesa e se virou para Dani. — As aulas de hoje começarão às nove. Flora, prepare seus livros.

Flora assentiu, pulando da cadeira e correndo para o corredor. Amara observou a menina desaparecer, a pergunta sobre os barulhos ainda na ponta da língua. A Sra. Grose voltou-se para ela, o tom suavizando. 
— Amara, posso falar com você um momento? No meu escritório, se não se importar.

Amara trocou um olhar com Dani, que ergueu uma sobrancelha, mas assentiu. Ela seguiu a governanta por um corredor lateral, o assoalho rangendo sob seus pés. O escritório da Sra. Grose era uma sala pequena, com uma escrivaninha de mogno coberta de papéis organizados e uma janela que dava para o jardim selvagem. Um armário de madeira ocupava uma parede, e sobre ele havia uma fotografia emoldurada de uma mulher sorridente, com traços que lembravam vagamente Flora.

— Sente-se, por favor — disse a Sra. Grose, apontando para uma cadeira de encosto alto. Amara obedeceu, mantendo-se ereta, os olhos fixos na governanta. Havia algo na maneira como a Sra. Grose a observava, como se procurasse algo além do óbvio.

— Eu soube que você interrompeu seus estudos por decidir ajudar sua irmã no trabalho... — começou a Sra. Grose, a voz baixa, mas firme. — Aqui na Mansão Fairchild, valorizamos muito a educação. Flora estuda em casa por... razões particulares, mas você, Amara, merece continuar sua formação.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora