NARRADOR
O sol da manhã mal atravessava as nuvens densas que cobriam o céu, deixando a Mansão Fairchild envolta em uma penumbra que parecia eterna. Amara acordou com o rangido da cama de ferro, o colchão fino reclamando sob seu peso. O quarto era frio, o ar úmido carregando o cheiro de madeira antiga e mofo. Ela se levantou, esfregando os braços para afastar o frio, e caminhou até a janela estreita. O lago ao longe parecia ainda mais sombrio à luz fraca, suas águas escuras como tinta, refletindo as árvores tortuosas que o cercavam. Amara franziu a testa, lembrando-se do comentário de Flora sobre não nadar à noite. Por que a menina diria algo assim?
Ela vestiu um suéter azul-escuro e jeans, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo frouxo. A culpa ainda pesava em seu peito, uma sombra que a seguia desde a noite do acidente dos pais. Ela tentou afastá-la, focando no som distante de pássaros e no cheiro de café que subia do andar de baixo. Dani já devia estar acordada, provavelmente organizando tudo com a precisão de sempre.
No corredor, as tábuas do assoalho rangiam sob seus tênis, e as portas trancadas ao longo do caminho pareciam desafiá-la a descobrir seus segredos. Amara desceu a escada em espiral, o corrimão frio sob sua mão, e encontrou Dani na sala de jantar, uma sala ampla com uma mesa de carvalho tão polida que refletia o lustre apagado acima. Dani estava debruçada sobre um caderno, anotando algo com uma caneta, seu cabelo loiro brilhando sob a luz fraca que entrava pelas janelas.
— Bom dia, Mara — disse Dani, sem erguer os olhos. — Dormiu bem?
— Se você chama dormir em uma cama que parece feita de pedra de dormir bem, então sim — respondeu Amara, puxando uma cadeira e sentando-se. O cheiro de pão fresco e café vinha da cozinha, mas havia algo mais no ar, um toque metálico que a incomodava.
Antes que Dani pudesse responder, Flora entrou correndo, seu vestido verde balançando enquanto ela segurava um buquê de flores silvestres mal cortadas.
— Olha, Amara! Colhi isso no jardim! — exclamou, os cachos castanhos quicando enquanto ela se aproximava. — São para você e a Dani.
Amara sorriu, surpresa pela doçura da menina.
— São lindas, Flora. Obrigada.
Flora sorriu, colocando as flores em um vaso vazio no centro da mesa. A Sra. Grose apareceu logo depois, carregando uma bandeja com pão, manteiga e uma jarra de café. Seus olhos afiados observaram Amara por um instante antes de se suavizarem.
— Espero que tenham descansado. Hoje será um dia cheio. Dani, você começará as aulas com Flora após o café. Amara, pode ajudar a organizar os materiais no salão de estudos.
Amara assentiu. Ela pegou uma fatia de pão, o calor do pão contrastando com o frio da sala. Enquanto comia, notou um vulto na entrada da sala. Miles entrou, sua expressão de tédio intacta, e os cabelos escuros bagunçados. Ele se jogou em uma cadeira do outro lado da mesa, ignorando Amara e Dani enquanto pegava uma maçã do cesto.
— Bom dia, Miles — disse Dani, com seu tom educado de professora. — Espero que tenha dormido bem.
Miles deu de ombros, mordendo a maçã com um estalo.
— Dormi o suficiente. E vocês? Já estão prontas para fugir?
Amara sentiu os dentes cerrarem, mas antes que pudesse responder, Dani lançou um olhar de advertência.
— Estamos aqui para ficar, Miles — disse Dani, mantendo a voz firme. — Queremos fazer isso funcionar.
Miles ergueu uma sobrancelha, o olhar deslizando para Amara por um instante.
— Vamos ver quanto tempo isso dura — murmurou, o tom carregado de desdém.
Amara mordeu o interior da bochecha, engolindo a vontade de retrucar. Ela notou o olhar de Dani, que parecia dizer "não se meta em confusão". Flora, alheia à tensão, começou a falar sobre um pássaro que viu no jardim, mas Amara mal ouviu. A arrogância de Miles a irritava, como se ele se achasse superior só por morar ali.
Após o café, Amara seguiu Dani e Flora até o salão de estudos, carregando uma pilha de livros que a Sra. Grose entregara. O corredor parecia ainda mais estreito à luz do dia, as sombras das tapeçarias desbotadas dançando nas paredes. No salão, Dani organizava a mesa enquanto Flora desenhava em um caderno, cantarolando uma melodia suave. Amara colocou os livros na estante, o cheiro de papel velho enchendo suas narinas.
— Mara, vem aqui um segundo — chamou Dani, sua voz baixa. Amara se aproximou, e Dani fechou o caderno, olhando-a nos olhos. — Escuta, eu sei que Miles é... difícil. Mas você precisa ignorá-lo, tá? Ele é o herdeiro desta casa, e a gente não pode se dar ao luxo de arrumar problemas. Esse emprego é nossa única chance agora.
Amara cruzou os braços, a irritação borbulhando.
— Ele age como se fosse o rei do mundo, Dani. Não vou ficar abaixando a cabeça toda vez que ele abrir a boca.
— Eu sei, mas por favor, Mara — insistiu Dani, o tom quase suplicante. — Pelo menos na frente dos outros, se controla. A gente precisa disso. Você sabe o que aconteceu no último emprego.
A culpa apertou o peito de Amara como uma garra. Ela assentiu, relutante, mas suas mãos tremiam de raiva. Dani tinha razão, mas isso não tornava mais fácil engolir as provocações de Miles.
Mais tarde, enquanto Dani dava a primeira aula de matemática para Flora, Amara foi enviada para buscar mais lápis na despensa, no andar de baixo. O corredor estava silencioso, exceto pelo som distante da chuva que voltara a cair. Ela abriu a porta da despensa, uma sala pequena cheia de caixas e prateleiras empoeiradas, o ar carregado com o cheiro de naftalina. Enquanto procurava os lápis, ouviu passos atrás dela.
— Perdida já? — disse uma voz familiar, e Amara virou-se para encontrar Miles encostado na porta, os braços cruzados e um meio-sorriso arrogante no rosto.
Ela respirou fundo, lembrando a promessa a Dani, mas a solidão do momento a fez deixar a cautela de lado.
— Não estou perdida. Só tentando fazer meu trabalho sem alguém me atrapalhando.
Miles riu, o som baixo e provocador.
— Trabalho? Você acha que carregar lápis é trabalho? Isso aqui é uma mansão, não uma escola de caridade. Não sei por que a Sra. Grose acha que precisamos de vocês.
Amara deu um passo à frente, os olhos castanhos escuros faiscando.
— Talvez porque você não parece capaz de fazer nada além de reclamar. Se é tão esperto, por que não ajuda a Flora em vez de ficar me irritando?
Os olhos de Miles estreitaram, mas ele não recuou.
— Cuidado, babá. Você não sabe com quem está falando.
— Sei exatamente com quem estou falando — retrucou Amara, a voz firme. — Um garoto mimado que acha que pode mandar em todo mundo.
Por um instante, Miles pareceu surpreso, mas logo recuperou a compostura, o sorriso voltando, frio e cortante.
— Você é corajosa. Ou burra. Vamos descobrir qual dos dois.
Ele se virou e saiu, deixando Amara sozinha na despensa, o coração disparado. Ela cerrou os punhos, furiosa consigo mesma por não ter se controlado, mas também satisfeita por não ter deixado Miles ter a última palavra. Dani podia querer que ela ficasse quieta, mas ali, sem ninguém por perto, Amara não ia se calar.
Enquanto voltava ao salão, ela passou por uma porta entreaberta no corredor. Um brilho fraco vinha de dentro, como se uma vela estivesse acesa. Curiosa, ela empurrou a porta, revelando uma sala pequena com uma escrivaninha coberta de papéis amarelados e um retrato na parede — uma mulher de olhos tristes, parecida com Flora. Antes que pudesse se aproximar, um rangido ecoou no corredor, e Amara fechou a porta rapidamente, o coração na garganta. A mansão parecia sussurrar, e ela não sabia se queria ouvir.
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𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙
FanficAmara não planejou se mudar para a mansão Fairchild. Muito menos cruzar o caminho de Miles - o herdeiro bonito, perigoso e completamente acostumado a destruir tudo o que toca. Eles não deveriam se aproximar. Eles não deveriam sentir. E, acima de tud...
