28

3K 327 127
                                        

AMARA MILLER

Eu estava sentada ao lado de Clara e Lisa, as três trabalhando em uma peça coletiva para a próxima exposição da escola — um mural que misturava cores vibrantes e formas abstratas, algo que Clara insistia em chamar de "caos poético". Minha parte era um integrar os tons e subtons, com pinceladas que pareciam engolir a tela, enquanto Clara tentava transformar os rascunhos em algo mais divertido e curvado.

Clara ria, enquanto Lisa, ajeitava um pincel com uma delicadeza que parecia mais um carinho.

— Amara, se você pintar mais roxo, vai parecer que o céu tá tendo um colapso emocional — brincou Clara, apontando para minha tela.

Eu revirei os olhos, mergulhando o pincel na tinta.

— Talvez seja exatamente o que eu quero — retruquei, sorrindo. — Um céu com crise existencial.

Lisa riu baixo, o som suave, mas seus olhos estavam em Clara, e havia algo ali, uma intensidade que eu já tinha notado antes, mas que agora parecia mais clara. Clara, alheia, levantou-se de repente, limpando as mãos na calça jeans.

— Vou pegar mais tinta preta. Esse quadro tá precisando de alma — anunciou, saindo em direção ao armário de materiais no canto da sala.

O silêncio que ficou era leve, mas carregado, e quando olhei para Lisa, ela estava mordendo o lábio, os dedos brincando com a borda da tela.

— Amara — disse ela, a voz baixa, quase hesitante. — Posso te contar uma coisa?

Eu larguei o pincel, virando-me para ela.

— Claro, Lisa. O que foi?

Ela respirou fundo, os olhos azuis fixos na mesa, como se estivesse juntando coragem.

— Eu... eu sou lésbica — confessou, as palavras saindo rápidas, como se temesse que fossem fugir. — E eu gosto da Clara. Muito. Mas não sei como contar pra ela. E se ela não sentir o mesmo?

Eu pisquei, surpresa, mas não pela confissão — eu já tinha percebido os olhares, os toques sutis, o jeito que Lisa parecia orbitar Clara. O que me pegou foi a vulnerabilidade na voz dela, o medo cru de ser rejeitada.

— Lisa, isso é... incrível — disse, sorrindo, tentando transmitir calma. — Quer dizer, não que você goste dela, mas que você tá sendo honesta. E, olha, eu vejo o jeito que a Clara olha pra você. Ela cora toda vez que você ajeita o cabelo dela. Acho que você deveria se abrir. Talvez não de uma vez, mas... dá um passo. Conta como você se sente.

Lisa ergueu os olhos, um sorriso tímido nos lábios.

— Você acha? — perguntou, a voz ainda incerta. — E se ela achar que é estranho?

— Se ela achar estranho, tudo bem, você parte pra próxima — respondi, firme. — Mas eu duvido. Clara é toda impulsiva, mas ela é leal. E ela gosta de você, Lisa. Dá pra ver.

Ela riu, o som aliviado, e estendeu a mão, apertando a minha por um segundo.

— Valeu, Amara. Sério. Você é uma boa amiga.

Eu sorri, sentindo um calor no peito, mas antes que pudesse dizer mais, Clara voltou, segurando um pote de tinta preta.

— Pronta pra salvar isso! — anunciou, sentando-se com um salto. Ela olhou para nós, franzindo a testa. — O que eu perdi?

— Nada — disse Lisa, rápido demais, o rosto corando.

Eu ri, voltando para minha tela, e o resto da aula passou em uma mistura de risadas, pinceladas e provocações.

Quando a aula acabou, guardei minhas coisas, o peso do pincel ainda na mão, e saí para o corredor. Não esperava encontrá-lo, mas lá estava Miles, encostado na parede. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me puxou pelo braço, um movimento rápido, mas gentil, e eu tropecei, rindo enquanto quase tombava.

— Cuidado amor, como vou beijar você, se tiver toda esfolada? — disse ele, a voz rouca, o sorriso torto que sempre me desarmava.

Ele me encostou na parede ao lado da sala, o corpo tão próximo que eu podia sentir o calor dele, o cheiro amadeirado e algo mais, algo que era só dele. Antes que eu pudesse protestar, ele se inclinou e me beijou, um beijo leve, quase doce, mas com uma promessa de mais. Eu entrelacei os braços no pescoço dele, puxando-o para mim, e devolvi o beijo, o mundo ao nosso redor desaparecendo.

— Meu Deus, vocês exalam tesão. — disse a voz de Clara, rindo, enquanto ela e Lisa passavam pelo corredor.

Eu me afastei, o rosto quente, e vi Lisa cobrindo a boca, tentando segurar o riso.

— Sério, vocês já transaram? Se não fizeram, deveriam fazer logo. — brincou Clara, piscando.

— Cala a boca, Clara — retruquei, rindo, mas não soltei Miles.

Ele sorriu, o braço ainda ao meu redor, e me puxou para caminhar com ele.

— Vamos, princesa — murmurou, a voz baixa contra meu ouvido.

Eu ri, o coração leve por um momento, e fui com ele, os dedos entrelaçados, o corredor frio parecendo menos vazio com ele ao meu lado.

MILES FAIRCHILD

A mansão Fairchild nunca parecia tão viva quanto à tarde, quando a luz do sol tentava atravessar as nuvens e as janelas altas, mas ainda assim, era um lugar de sombras. Eu estava no corredor do segundo andar, a caminho do meu quarto, o eco dos meus passos misturando-se ao silêncio que parecia engolir tudo. A manhã com Amara no corredor da escola ainda estava na minha cabeça, o beijo dela, o jeito que ela sorri, os braços dela no meu pescoço. Era como se meu dia fosse cem por cento ela. Mas aqui, na mansão, o peso voltava, como se a casa soubesse dos segredos que eu carregava.

Eu não ouvi Kate se aproximar. Não até que ela estivesse a poucos passos, o cabelo loiro solto, os olhos brilhando com uma intensidade que me fez parar. Ela estava diferente, parecia uma sociopata, o sorriso torto que não chegava aos olhos. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela se aproximou, rápido demais, a mão estendendo-se para tocar meu peito, os dedos roçando a camisa de uma forma que fez meu estômago revirar.

— Miles — murmurou ela, a voz doce, mas carregada de algo errado. — Você sabe que Amara não é mulher suficiente pra você, né? Ela é só uma garota brincando de adulta.

Eu senti a raiva subir, quente e afiada, e agarrei o pulso dela, afastando a mão com força.

— Você tá louca! — gritei, a voz ecoando pelo corredor. — Amara é mais mulher do que você jamais será.

Ela recuou, os olhos arregalados, mas o sorriso não caiu, como se minha raiva fosse um jogo que ela queria jogar.

— Você vai ver, Miles — disse ela, a voz baixa, quase um sussurro. — Ela não é suficiente. Ninguém nessa casa é.

Eu dei um passo à frente, o corpo tenso, pronto para dizer mais, mas ela se virou e saiu, os passos rápidos desaparecendo pelo corredor. Fiquei ali, o coração disparado, a raiva misturada com nojo, com medo, com algo que eu não queria sentir. Kate era uma sombra que eu não conseguia apagar, e a ideia de contar a Amara, de abrir aquela ferida, me paralisava. Mas Amara era tudo que eu via, e eu não ia deixar Kate, ou qualquer um, tocar no que era nosso.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora