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AMARA MILLER

A nevasca havia se intensificado, cobrindo a cidade com um manto branco que silenciava as ruas, o frio mordendo como uma lâmina invisível. Na escola, a luz pálida de novembro atravessava as janelas altas, pintando sombras tortuosas nos corredores, o cheiro de giz e papel velho misturando-se ao ar gelado que vazava pelas frestas. Eu caminhava ao lado de Clara, o som dos nossos passos ecoando no chão polido, quando a vi — Cristal, a garota ruiva do primeiro dia de aula, com seus cachos brilhando como fogo sob a luz fraca, rindo alto enquanto falava com Miles. Ele estava encostado na parede, o meio-sorriso torto nos lábios, os olhos pretos brilhando com aquela calma provocadora. Cristal tocou o braço dele, os dedos demorando mais do que o necessário, o gesto íntimo, quase possessivo, e uma pontada afiada atravessou meu peito, quente, incômoda, como se algo dentro de mim tivesse sido cutucado.

— Eles já ficaram, sabia? — sussurrou Clara, os olhos verdes brilhando com fofoca, o tom casual, mas carregado de malícia. — Cristal e Miles. Foi há um tempo, mas ela ainda dá em cima dele como se fosse ontem.

Eu forcei um sorriso, apertando os livros contra o peito, tentando ignorar o calor que subia pelo meu pescoço.

— Bom pra ela — murmurei, a voz seca, mas o ciúmes era uma brasa, queimando baixo, mas constante. O beijo na estufa, uma semana atrás, e a pegação intensa no sofá da sala, com meu corpo colado ao de Miles, a ereção dele contra mim, ainda ardiam na minha memória, cada toque uma faísca que eu não conseguia apagar.

Antes que Clara pudesse responder, Ethan apareceu no corredor, o cabelo loiro bagunçado, os olhos hesitantes.

— Amara, posso falar com você? — perguntou, a voz baixa, quase tímida, tão diferente do tom arrogante de meses atrás.

Clara ergueu uma sobrancelha, mas eu assenti, mantendo a expressão neutra.

— Fala — disse, cruzando os braços, o peso do olhar de Miles ainda na minha mente.

— Quero me desculpar — disse ele, esfregando a nuca, os olhos no chão. — Pelo que aconteceu... na biblioteca, antes. Fui um idiota. Não quero que você me odeie.

Eu suspirei, o peso do soco de Miles, do sangue no lábio de Ethan, voltando à tona.

— Tá desculpado, Ethan — respondi, a voz firme, mas fria. — Mas prefiro manter distância, tá bom?

Ele assentiu, o rosto aliviado, mas antes que pudesse dizer mais, Clara pigarreou.

— Tenho que ir, Amara — disse ela, já se afastando com um aceno. Ethan olhou por cima do meu ombro, o rosto endurecendo, e seguiu na direção oposta. Virei-me e vi Miles, os olhos pretos estreitados, caminhando em minha direção, o corpo tenso, como um predador à espreita.

— O que Ethan queria? — perguntou, a voz rouca, com uma ponta de irritação que ele não se esforçava para esconder.

Eu ergui uma sobrancelha, sentindo o ciúmes dele como um eco do meu próprio.

— Se desculpar — respondi, o tom casual, mas com um toque de provocação. —Disse que foi um idiota. Eu aceitei, mas disse pra ele manter distância.

Miles bufou, passando a mão pelos cabelos, o gesto brusco.

— Ele não sabe manter distância — murmurou, os olhos brilhando com algo que era ao mesmo tempo raiva e posse. — Não confio naquele cara.

— Engraçado, porque eu não confio em ruivas que tocam demais — retruquei, as palavras saindo antes que eu pudesse segurar, a imagem de Cristal com a mão no braço dele voltando como um flash.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora