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AMARA MILLER

O corredor da escola parecia um túnel de sombras, a luz cinzenta de outubro filtrando-se pelas janelas altas e dançando nos azulejos gastos. Eu ajustei a mochila no ombro, o peso dos livros me ancorando enquanto caminhava para a aula de química. Fazia uma semana desde que vi Miles na estufa, podando rosas com uma delicadeza que não combinava com o cara arrogante que vivia me provocando. A imagem dele, com o suéter preto e os cabelos castanhos escuros caindo sobre os olhos, ainda me irritava, como se ele tivesse invadido um canto da minha mente sem permissão. Eu não queria pensar nele, mas Miles Fairchild tinha um jeito de se infiltrar onde não era chamado.

Clara, minha única amiga na escola, me alcançou antes da aula, seu cabelo castanho ondulado balançando enquanto falava sobre um plano para convencer o professor de literatura a adiar o próximo teste.
— Sério, Amara, se ele não ceder, vou surtar — disse ela, com aquele sorriso largo que parecia desafiar o frio do dia. — E você, como tá lidando com a mansão? Ainda acha que é só uma casa grande e velha?

Dei de ombros, mantendo a voz neutra.
— É só uma casa — murmurei, embora a Mansão Fairchild, com seus rangidos e o lago escuro, fosse tudo menos comum. Clara era um raio de sol, mas eu preferia ficar na minha, com a culpa pelos meus pais pesando como uma corrente.

Na sala de química, sentei no fundo, o uniforme — saia xadrez, camisa branca, blazer azul-marinho — me apertando como uma armadura desconfortável. O professor começou a explicar reações químicas, mas eu rabiscava no caderno, tentando não pensar em Miles. Ele entrou atrasado. Seus cabelos castanhos escuros caíam sobre a testa, e ele se jogou em uma cadeira na frente, sem me olhar. Mas eu sabia que ele sentia minha presença — era como se o ar entre nós ficasse mais denso, carregado de algo que eu não queria nomear.

O professor anunciou um experimento em duplas, e, claro, o destino tinha um senso de humor cruel.
— Amara Miller e Miles Fairchild — disse ele, sem tirar os olhos da prancheta.

Senti meu estômago revirar. Miles virou a cabeça, os olhos pretos cravando nos meus, um sorriso lento e perigoso curvando seus lábios.
— Parece que você não vai escapar de mim hoje, Miller — disse ele, a voz rouca, com um tom que parecia mais uma promessa do que uma provocação.

Cerrei os dentes, mantendo a expressão fria.
— Que sorte a minha — retruquei, a voz pingando sarcasmo. — Tenta não atrapalhar, Fairchild.

Ele riu, baixo, o som enviando um arrepio pela minha espinha, e caminhou até minha mesa com uma calma quase predatória. Clara, ao meu lado, sussurrou:
— Boa sorte. Você vai precisar.

O experimento era simples — misturar compostos, observar reações —, mas com Miles ao meu lado, parecia uma guerra. Ele pegava os tubos de ensaio com uma precisão irritante, os dedos longos movendo-se com uma confiança que me fazia querer arrancar aquele sorriso do rosto dele. Quando nossos braços roçaram acidentalmente, senti um choque, como se uma faísca tivesse saltado entre nós. Ele olhou para mim, o sorriso se aprofundando, e eu desviei o olhar, focando no líquido azul borbulhando no tubo como se minha vida dependesse disso.

— Tá com medo de me tocar, Miller? — murmurou ele, baixo o suficiente para que só eu ouvisse, enquanto ajustava o bico de Bunsen. — Ou é só que eu te deixo nervosa?

Senti o calor subir ao rosto, mas mantive a voz firme.
— Nervosa? — Bufei, virando-me para encará-lo, nossos rostos a centímetros de distância. — Você se acha demais, Fairchild. Talvez devesse focar no experimento em vez de sonhar comigo.

Ele ergueu uma sobrancelha, os olhos pretos brilhando com algo que fez meu coração acelerar.
— Sonhar com você? — disse ele, inclinando-se mais perto, o ombro quase tocando o meu. — Quem disse que eu preciso sonhar quando você tá bem aqui?

O ar parecia ter sido sugado da sala, e eu engoli em seco, recusando-me a desviar o olhar. Ele era insuportável, com aquele charme sombrio que parecia calculado para me desarmar. O resto da aula foi uma tortura, com Miles jogando comentários sarcásticos e eu respondendo com o mesmo veneno, mas cada troca parecia carregar um peso a mais, algo que ia além da raiva. Quando o sinal tocou, ele se afastou com aquele sorriso insuportável, deixando-me com o coração acelerado e uma raiva que queimava como brasa.

No intervalo, Clara me arrastou para o refeitório, falando sobre um baile da escola que ela queria convencer o conselho a organizar. Sentamos em uma mesa no canto, com sanduíches que cheiravam a pão velho.
— Okay, mas o que foi aquilo na aula? — perguntou ela, mordendo o sanduíche. — Você e o Miles pareciam prontos pra explodir... ou sei lá, se agarrar.

— Explodir soa mais certo — murmurei, cutucando o suco com o canudo. — Ele é um idiota.

Clara riu, inclinando a cabeça.
— Um idiota que todo mundo evita — disse ela, com um tom mais sério. — Sério, Amara, ele tem uma fama... complicada. As pessoas dizem que ele não pensa duas vezes antes de partir pra briga. Tipo, ele tem essa energia que faz você querer correr.

Franzi a testa, tentando ignorar o aperto no peito.
— Ele é só um cara com um ego inflado — disse, mais para mim mesma do que para ela. Mas a ideia de Miles sendo tão intimidador mexia comigo de um jeito que eu não queria admitir.

De volta à Mansão Fairchild à tarde, o frio úmido me envolveu como uma segunda pele. O lago lá fora brilhava como um espelho escuro, os juncos balançando sob o céu cinzento. Eu ajudava Dani no salão de estudos, dobrando papéis de desenho enquanto Flora coloria uma folha, cantarolando baixo. Dani estava animada, falando sobre uma ideia para levar Flora a um museu local, mas eu respondia com grunhidos, a mente ainda na aula de química. A proximidade de Miles, o roçar do braço dele, ainda queimava na minha pele.

Quando James entrou, segurando um bule de chá, Dani sorriu, e ele retribuiu com um olhar que parecia aquecer o ar frio.
— Trouxe um chá pra vocês — disse ele, colocando o bule na mesa. — Dani, quer que eu te ajude a organizar aqueles livros novos amanhã?

Dani corou, ajeitando uma mecha loira.
— Seria ótimo, James. Valeu — respondeu, com um tom leve que traía um flerte sutil.

Depois que ela liberou Flora para brincar, decidi voltar à estufa, precisando de ar para limpar a imagem de Miles da minha cabeça. O jardim selvagem estava quieto, os arbustos espinhosos emoldurando o lago escuro. A estufa, com seus vidros embaçados e hera rastejando pelas paredes de pedra, parecia ainda mais secreta hoje, como se guardasse algo que eu não deveria ver.

Empurrei a porta enferrujada. O interior era quente e doce, com rosas vermelhas, orquídeas brancas e samambaias verdes em vasos bem cuidados. Dei um passo, o chão de terra sob meus tênis, e então vi algo novo: uma pequena caixa de madeira, meio escondida atrás de um vaso de orquídea, com as iniciais M.F. gravadas na tampa. Meu coração acelerou. Antes que eu pudesse tocar, ouvi um farfalhar. Miles estava lá, do outro lado da estufa, ajoelhado perto de uma samambaia, ajustando um vaso com uma tesoura pequena. Ele outro suéter, as mangas dobradas, os cabelos castanhos escuros caindo sobre os olhos. Eu quis dar outro passo à frente, inconscientemente querendo que ele notasse minha presença, mas então dei um passo para trás.

𝐒𝐎𝐂𝐈𝐎𝐏𝐀𝐓𝐇 | 𝙈𝙞𝙡𝙚𝙨 𝙁𝙖𝙞𝙧𝙘𝙝𝙞𝙡𝙙Onde histórias criam vida. Descubra agora