23• Psicopata Ipanemense

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Estou no Uber, levando Alexandre para a sua casa.

― Agradeça ao seu pai. ― ele disse ao meu lado no banco de trás. ―, pelo jantar.

Sorri como resposta.

― Quando você tem as suas atividades extracurriculares? ― perguntei de repente, me referindo as aulas de francês e karatê.

― Você é um psicopata mesmo, né? ― ele me encarou, semicerrando os olhos e eu ri.

― Foi só uma pergunta.

Paramos em frente ao prédio de Ale e saímos do carro. Andamos lado a lado até a entrada e o carro foi embora. Eu pegaria um Uber moto depois.

― Quer que eu te acompanhe?

― Não precisa, Müller.

Ele quase deixou a mochila, que estava com o baú dentro, cair no chão.

― Você quer ajuda, anjo? ― falei, com um sorriso ladino nos lábios.

― Não, eu estou bem. ― agarrou a mochila e me fitou. ― E não me chame assim.

― Até segunda, Ale. ― falei assim que nos aproximamos da porta. Ele a abriu e revirou os olhos.

― Porque está me chamando pelo apelido? Não me chame pelo apelido, Müller.

― Não me chame de Müller.

Ele assentiu.

― Não me chame por apelidos e eu não te chamo de Müller. ― avisou entrando no prédio.

― Até segunda-feira!

Ele não me respondeu.

[...]

No dia seguinte...

Dia 18, sábado.

Disquei o número do meu pai e telefonei para ele.

― Oi. ― falei assim que ele atendeu.

― Oi, filho.

― Só queria te avisar que... estou indo para a casa da Violeta.

― Oh, ok. ― ele deu uma pausa, mas não consegui identificar se estava desapontado ou não. ― Eu vou sair do trabalho mais cedo hoje. O que acha de almoçarmos fora?

― Acho uma ótima ideia.

Olhei o relógio de pulso: 10 horas da manhã.

― Ok, filho. Então até!

Eu não estou indo para a casa da Violeta.

Eu estou subindo uma árvore.

Desliguei a chamada, me aproximei da janela do quarto de Alexandre e olhei o interior.

Ale lia algum livro, deitado de barriga para cima e as pernas esticadas na parede, sob a bandeira bi. Ao seu lado, tinha um pequeno espelhinho e o seu violão. Tentei abrir a janela, mas foi em vão.

Bufei.

De repente, Alexandre deixou o livro de lado e agarrou com força o violão, como se ele fosse uma espécie de proteção.

Depois, ele pôs o pequeno espelho na frente do rosto, o levantou um pouco e... me avistou.

Ele deu um salto da cama e apontou o instrumento de cordas para mim, como se fosse uma arma.

Eu também me assustei e quase caí da árvore.

Dei três batidinhas leves no vidro da janela e Alexandre a abriu.

― Eu até te mandaria mensagem, mas não tenho o seu número. ― me expliquei, sorrindo.

― Existe porta, conhece? ― perguntou me dando espaço para entrar.

― Achou que eu era um bandido? ― ri, ignorando o que ele disse.

― Não, achei que fosse um psicopata. ― Deu uma pausa, levantando a mão. ― Espere, você é mesmo! ― exclamou, se sentando na cama e eu ri, revirando os olhos. ― O que você quer, Müller?

― Combinamos que você não me chamaria mais assim.

― O que você quer?

Encolhi os ombros.

Queria ouvir o meu nome saindo da sua boca.

― Você não me respondeu ontem. ― respondi e ele franziu a testa. ― Quando você tem aula de francês e karatê?

Ele apertou os olhos. Eu era patético, arranjando qualquer tipo de desculpa para ficar perto dele.

― Por que você quer saber o dia das minhas aulas?

Fiquei pensativo.

― Para te conhecer melhor?

― Você já me conhece! ― exclamou, soltando o instrumento de cordas.

Realmente.

― Não muito. E eu também quero que você me conheça.

― Por quê?!

Ele ficou de pé na minha frente e meu coração parou por um segundo.

― Porque eu quero ser seu amigo.

Alexandre relaxou os ombros.

― Terça e quinta. Quatro às seis, cinco às seis. ― ele falou de repente, se sentando novamente.

Ele pegou o exemplar de Orgulho e Preconceito e voltou a lê-lo.

― O quê? ― perguntei confuso, apoiando as costas na parede.

― Aula de francês, terça-feira, das quatro até às seis. ― deu uma pausa, sem levantar o olhar, com a cara no livro. ― Aula de karatê, quinta-feira, das cinco até às seis.

― Obrigado. ― cantarolei, andando até a porta.

Girei a maçaneta, mas Alexandre me impediu de sair.

― Saia por onde você entrou.

Ele apontou para a janela e eu ri.

Nesse momento, ele me encarou por cima do livro e eu fiquei quieto, engolindo em seco.

― Isso... é sério?

― Eu te ajudo a descer. ― deixou o romance de época de lado e me lançou um sorriso.

Ri mais uma vez, mas logo me endireitei. Ele estava falando sério.

― Eu desço com você, medroso. ― Ele se levantou e se espremeu para fora do quarto.

Pela janela.

― Tenha cuidado.

― Essa não é a coisa mais perigosa pela qual eu já passei, Müller.

Alexandre desceu na frente e me estendeu a mão. A peguei.

Até que não era muito alto, aliás, ele morava no 1° andar.

Quando estávamos quase chegando ao chão, o garoto à minha frente pisou em um galho fraco e caiu. E me levou junto.

Ele caiu de costas na grama e eu, por cima dele.

― Merda! ― ele gritou de olhos fechados.

― Você está bem? Se machucou?

Alexandre abriu os olhos e me fitou.

Prendi a respiração.

Trancado a Sete ChavesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora