Estou no Uber, levando Alexandre para a sua casa.
― Agradeça ao seu pai. ― ele disse ao meu lado no banco de trás. ―, pelo jantar.
Sorri como resposta.
― Quando você tem as suas atividades extracurriculares? ― perguntei de repente, me referindo as aulas de francês e karatê.
― Você é um psicopata mesmo, né? ― ele me encarou, semicerrando os olhos e eu ri.
― Foi só uma pergunta.
Paramos em frente ao prédio de Ale e saímos do carro. Andamos lado a lado até a entrada e o carro foi embora. Eu pegaria um Uber moto depois.
― Quer que eu te acompanhe?
― Não precisa, Müller.
Ele quase deixou a mochila, que estava com o baú dentro, cair no chão.
― Você quer ajuda, anjo? ― falei, com um sorriso ladino nos lábios.
― Não, eu estou bem. ― agarrou a mochila e me fitou. ― E não me chame assim.
― Até segunda, Ale. ― falei assim que nos aproximamos da porta. Ele a abriu e revirou os olhos.
― Porque está me chamando pelo apelido? Não me chame pelo apelido, Müller.
― Não me chame de Müller.
Ele assentiu.
― Não me chame por apelidos e eu não te chamo de Müller. ― avisou entrando no prédio.
― Até segunda-feira!
Ele não me respondeu.
[...]
No dia seguinte...
Dia 18, sábado.
Disquei o número do meu pai e telefonei para ele.
― Oi. ― falei assim que ele atendeu.
― Oi, filho.
― Só queria te avisar que... estou indo para a casa da Violeta.
― Oh, ok. ― ele deu uma pausa, mas não consegui identificar se estava desapontado ou não. ― Eu vou sair do trabalho mais cedo hoje. O que acha de almoçarmos fora?
― Acho uma ótima ideia.
Olhei o relógio de pulso: 10 horas da manhã.
― Ok, filho. Então até!
Eu não estou indo para a casa da Violeta.
Eu estou subindo uma árvore.
Desliguei a chamada, me aproximei da janela do quarto de Alexandre e olhei o interior.
Ale lia algum livro, deitado de barriga para cima e as pernas esticadas na parede, sob a bandeira bi. Ao seu lado, tinha um pequeno espelhinho e o seu violão. Tentei abrir a janela, mas foi em vão.
Bufei.
De repente, Alexandre deixou o livro de lado e agarrou com força o violão, como se ele fosse uma espécie de proteção.
Depois, ele pôs o pequeno espelho na frente do rosto, o levantou um pouco e... me avistou.
Ele deu um salto da cama e apontou o instrumento de cordas para mim, como se fosse uma arma.
Eu também me assustei e quase caí da árvore.
Dei três batidinhas leves no vidro da janela e Alexandre a abriu.
― Eu até te mandaria mensagem, mas não tenho o seu número. ― me expliquei, sorrindo.
― Existe porta, conhece? ― perguntou me dando espaço para entrar.
― Achou que eu era um bandido? ― ri, ignorando o que ele disse.
― Não, achei que fosse um psicopata. ― Deu uma pausa, levantando a mão. ― Espere, você é mesmo! ― exclamou, se sentando na cama e eu ri, revirando os olhos. ― O que você quer, Müller?
― Combinamos que você não me chamaria mais assim.
― O que você quer?
Encolhi os ombros.
Queria ouvir o meu nome saindo da sua boca.
― Você não me respondeu ontem. ― respondi e ele franziu a testa. ― Quando você tem aula de francês e karatê?
Ele apertou os olhos. Eu era patético, arranjando qualquer tipo de desculpa para ficar perto dele.
― Por que você quer saber o dia das minhas aulas?
Fiquei pensativo.
― Para te conhecer melhor?
― Você já me conhece! ― exclamou, soltando o instrumento de cordas.
Realmente.
― Não muito. E eu também quero que você me conheça.
― Por quê?!
Ele ficou de pé na minha frente e meu coração parou por um segundo.
― Porque eu quero ser seu amigo.
Alexandre relaxou os ombros.
― Terça e quinta. Quatro às seis, cinco às seis. ― ele falou de repente, se sentando novamente.
Ele pegou o exemplar de Orgulho e Preconceito e voltou a lê-lo.
― O quê? ― perguntei confuso, apoiando as costas na parede.
― Aula de francês, terça-feira, das quatro até às seis. ― deu uma pausa, sem levantar o olhar, com a cara no livro. ― Aula de karatê, quinta-feira, das cinco até às seis.
― Obrigado. ― cantarolei, andando até a porta.
Girei a maçaneta, mas Alexandre me impediu de sair.
― Saia por onde você entrou.
Ele apontou para a janela e eu ri.
Nesse momento, ele me encarou por cima do livro e eu fiquei quieto, engolindo em seco.
― Isso... é sério?
― Eu te ajudo a descer. ― deixou o romance de época de lado e me lançou um sorriso.
Ri mais uma vez, mas logo me endireitei. Ele estava falando sério.
― Eu desço com você, medroso. ― Ele se levantou e se espremeu para fora do quarto.
Pela janela.
― Tenha cuidado.
― Essa não é a coisa mais perigosa pela qual eu já passei, Müller.
Alexandre desceu na frente e me estendeu a mão. A peguei.
Até que não era muito alto, aliás, ele morava no 1° andar.
Quando estávamos quase chegando ao chão, o garoto à minha frente pisou em um galho fraco e caiu. E me levou junto.
Ele caiu de costas na grama e eu, por cima dele.
― Merda! ― ele gritou de olhos fechados.
― Você está bem? Se machucou?
Alexandre abriu os olhos e me fitou.
Prendi a respiração.
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Trancado a Sete Chaves
Teen FictionEm pausa/em andamento/em revisão *** +16 Um garoto descolado, com uma caixa de madeira e à procura de sete chaves. Essa é a vida divertida do estudante Eric Müller. *** Pode ter gatilhos como: ansiedade, depressão, bullying, violência, gordofobia e...
