Dia 20, segunda-feira.
Cheguei na escola e semicerrei os olhos ao avistar um garoto de cabelos escuros e alto perturbando Alexandre. Soltei um suspiro e percebi que era o Cardoso. Ele é um dos jogadores do time da escola ―e amigo do Marcus.
― Deixe-o em paz, Cardoso. ― falei me aproximando deles.
Ouvimos o barulho de um trovão. O tempo está fechado desde ontem à noite. O chão está molhado e o céu, nublado.
Olhei para Ale e de, alguma forma, senti que ele ficou mais desconfortável com a minha presença.
Ele usava o casaco azul e abraçava o próprio corpo.
― E aí, Eric? ― retrucou o garoto à minha frente. ― Você é amigo dele?
Cardoso encarou Alexandre e esboçou um sorriso ladino.
Ele ia dizer algo a ele, mas eu o interrompi:
― Eu não sou seu amigo, nem ele.
O rapaz mais baixo me fitou e sussurrou um "eu consigo me virar."
― Ouviu o nerd? Ele sabe se virar.
Trinquei os dentes para Cardoso e senti meu rosto ficar vermelho de raiva.
― Vá viver sua vida, cara.
― Ou o quê? ― ele riu, dando um passo para frente.
Foi tudo muito rápido. O empurrei e ele acabou caindo em cima de uma poça d'água.
Ale me olhou assustado e percebi o desprezo em seu olhar.
― Eu me virei até agora sozinho, e continuo não precisando de ninguém. ― falou em voz alta e eu engoli em seco.
Saiu de perto de mim e, sem olhar para trás, entrou na escola.
Não sou de brigar, mas aquela cena me deixou com muita raiva. Eu já passei por isso, e não desejaria que ninguém sentisse o mesmo que eu.
Logo os alunos se aproximaram e Marcus ajudou Cardoso a se levantar, me olhando com seus lábios em uma linha.
― Qual é o seu problema, Eric? ― perguntou o garoto de cabelos escuros.
Ele olhou para a própria roupa, agora suja e molhada e me fuzilou com o olhar. Marcus entrou na escola com Cardoso, fazendo muxoxo e Dandara e Lorran se aproximaram de mim.
― Você está bem? Ele te machucou? ― minha amiga exclamou, segurando delicadamente o meu rosto.
― Estou bem. ― respondi, tentando evitar contato visual.
― Por que você fez aquilo?
― O Cardoso estava perturbando o garoto da quadra. ― ouvi a voz de Lorran e levantei a cabeça para o fitar. ― O Eric quis defendê-lo, mesmo ele dizendo que sabe se virar. ― enfiou as mãos no bolso da calça jeans e eu o encarei com a testa franzida.
― Sério que eu realmente fiz isso? Não me lembrava.
― Sei que você gosta de ajudar os outros, mas pense um pouco em si. ― Dandara soltou meu rosto. ― Você podia ter se machucado. E se o Cardoso revidasse?
Ficamos em silêncio. Ela levantou a cabeça para me olhar nos olhos.
― Não é egoísta pensar em si mesmo às vezes.
[...]
O dia se passou e Alexandre não olhou na minha cara desde a briga de mais cedo.
Agora, estou em uma floricultura perto da casa dele.
Comprei um buquê de girassóis e saí do lugar. Andei pela calçada até parar em frente ao prédio. Abri a porta de vidro e andei até o porteiro.
― A detetive Lopez está? ― perguntei me encostando no balcão.
Depois do que aconteceu, Alexandre não gostaria de me ver.
Cruzei os dedos, desejando que a resposta fosse...
― Sim.
― Sim?!
― Sim, ela está.
― O senhor pode dizer a ela que o Eric Müller está aqui?
Ele assentiu e ligou para a Violeta.
― Ela disse que você pode subir. ― encerrou a ligação e eu sorri.
― Obrigado!
Subi correndo as escadas, passei pelo corredor e vi que a mãe de Alexandre já estava saindo de casa.
― Senhora Lopez! ― gritei, a impedindo de fechar a porta.
― Olá, Eric. ― ela sorriu, me fitando. ― Creio que você está aqui para ver o meu filho. ― deu um palpite e eu assenti. ― Ele está no quarto.
Violeta me deu espaço para entrar e eu sorri.
― Obrigado, senhora Lopez.
Ela sorriu e encarou as flores na minha mão, semicerrando os olhos, antes de se afastar. Fechei a porta atrás de mim e passei pela sala, já familiarizado com o ambiente.
Parei no batente da porta e me deparei com um garoto deitado com as pernas apoiadas na parede, de barriga para cima na cama. Ele lia um livro tranquilo, mas percebeu a minha presença.
― Achei que você odiasse portas. ― retrucou sem me olhar e eu dei uma risada.
O silêncio pairou no local.
― Desculpe por mais cedo. ― comecei, segurando firmemente o buquê de flores.
― Você não tinha que ter feito aquilo.
― Eu sei, me desculpe.
Mais uma vez, silêncio.
― Eu trouxe isso pra você. ― Falei, me referindo ao que segurava e só nesse momento, Alexandre virou o rosto para me fitar.
― Você está me comprando com girassóis? ― perguntou, voltando a sua atenção para a história que estava lendo.
Ri do seu comentário e andei até a sua mesinha de estudos. Deixei o seu buquê ali, rodeado por livros e cadernos. Andei até Alexandre e vi o título do livro que ele estava lendo: Orgulho e Preconceito.
― Você ama mesmo esse livro, não é?
― E o céu é azul? ― falou de um jeito brincalhão e eu ri. ― Não existe livro melhor do que este.
Olhei Ale de cima, pensando em algo, mas deixei para lá. Alexandre percebeu que eu o encarava e tive quase certeza que ele era um leitor de mentes, pois chegou um pouco para o lado e me deu espaço para me juntar a ele. Tirei o sapato para não sujar a sua cama.
Me deitei ao seu lado, apoiando as pernas na parede e Alexandre começou a ler em voz alta:
― "Em vão tenho lutado comigo mesmo; nada consegui. Meus sentimentos não podem ser reprimidos e preciso que me permita dizer-lhe que a admiro e a amo ardentemente." ― virou o rosto para me encarar e eu sorri.
Nossos rostos estavam tão próximos.
Alexandre virou o rosto, com as bochechas levemente coradas e olhou para os nossos pés descalços encostados na parede.
― Seu tornozelo está melhor? ― perguntei e ele mexeu os dedos dos pés.
― Está melhorando. ― respondeu, mexendo os pés de um lado para o outro.
Acompanhei seus movimentos com o pé, sorrindo e Alexandre riu do que estávamos fazendo. Encarei o rosto dele e vi que o mesmo sorria para mim, mas logo voltou ao normal ao olhar para além de mim na porta.
Acompanhei o seu olhar.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Trancado a Sete Chaves
Teen FictionEm pausa/em andamento/em revisão *** +16 Um garoto descolado, com uma caixa de madeira e à procura de sete chaves. Essa é a vida divertida do estudante Eric Müller. *** Pode ter gatilhos como: ansiedade, depressão, bullying, violência, gordofobia e...
