Dia 23, quinta-feira.
Cheguei ao prédio de Alexandre e adentrei o local.
― Bom dia. ― cumprimentei o porteiro e o mesmo sorriu. ― Tem alguém no apartamento 102?
Ele foi verificar e, enquanto isso, fui dar uma olhada no celular.
No mesmo instante, recebi uma mensagem de Dand e resolvi respondê-la.
Dandara: Onde está você? A aula começa em 5 minutos!
Eric: estou chegando, você acha que eu consigo chegar a tempo?
Dandara: Se você for o Flash, sim!
Ri do seu comentário.
Ela começou a digitar, mas eu guardei o celular assim que o porteiro se virou para mim.
― Alexandre está em casa. Ele deixou você entrar. ― ele disse e eu levantei as sobrancelhas, surpreso, mas logo sorri.
― Obrigado!
Me afastei e subi as escadas correndo. Não era coisa do Ale me deixar subir.
Quase caí, mas finalmente cheguei no andar dele. Passei pelo corredor e parei em frente ao apartamento 102.
Suspirei antes de dar três batidinhas na porta. Alexandre atendeu e eu dei um sorriso fraco.
Ele usava um casaco e calça moletom, os seus pés estavam descalços e ele segurava com a mão direita um saco de salgadinhos. O que mais me surpreendeu foi a vestimenta, pois mal tinha iniciado o outono e o rapaz já estava todo agasalhado.
Ale encolheu os ombros e ficamos nos encarando por um tempo.
Seus olhos estavam marejados e a única coisa que eu consegui fazer foi lhe dar um abraço.
Não argumentei. Não perguntei. Apenas o abracei e senti o calor do seu corpo contra o meu. Mas eu ainda estava muito confuso com o que estava acontecendo para deixa-lo tão abalado.
Ele enterrou a cabeça no meu peito, fungando e ficamos assim por um tempo.
Alexandre se afastou, andou até o seu quarto e eu o segui, fechando a porta atrás de mim.
Ele se sentou na beirada da cama e eu me sentei na outra ponta.
Ficamos um tempo em silêncio, até ele finalmente dizer algo.
― O Lopez... ― olhou para as suas mãos, apertando os salgadinhos. ―... não anda muito bem. ― levantou a cabeça e eu me inclinei para frente. ― Minha mãe irá levá-lo ao veterinário hoje.
― Sinto muito. ― pousei a minha mão no seu ombro e ele não hesitou. ― Sei o quanto ele é importante pra você.
Sorri fraco e ele retribuiu o gesto.
Reparei no saco de salgadinhos na sua mão direita e Alexandre acompanhou o meu olhar.
Levantei o rosto para olhá-lo e o mesmo encolheu os ombros.
― Posso ficar com isso? ― estendi a mão e ele me entregou o alimento.
O deixei de lado e me virei para o garoto.
― Não precisamos ir à primeira aula.
[...]
Andamos pela areia do Leblon e nos sentamos.
Ficamos observando o céu nublado e tiramos os nossos calçados pretos da escola, deixando nossos pés entrarem em contato com a água gelada do mar.
Muitas nuvens cinzas dominavam o céu e poucas pessoas se encontravam na praia.
Fiz Ale vestir o uniforme da escola, o convencendo de não faltar aula. Ele cedeu.
Ale observava a paisagem cinzenta com um rosto tristonho. Fechou os olhos por um momento, prendeu a respiração e soltou o ar novamente, em um suspiro.
O céu era um retrato dele.
― O Lopez... ― ele começou a falar. ― já tem 6 anos.
Eu apertei os lábios.
― Ele vai ficar bem.
Quase pousei a minha mão em cima da sua, mas pensei melhor e não o fiz.
Ele levantou as mangas do casaco da escola e eu observei as bolotas vermelhas no seu braço.
― Há quanto tempo? ― perguntei, me referindo as feridas que ele costumava esconder com os casacos grandes.
― Desde os 13 anos. ― respondeu, virando o rosto para me fitar. ― Você disse que também passou por coisas ruins nessa idade. ― relembrou e eu voltei a olhar para o mar, sentindo a brisa no meu rosto. ― Quer falar sobre isso?
Suspirei antes de responder.
― Eu mudei de escola por causa disso. ― comecei, sentindo o olhar de Alexandre sobre mim, prestando atenção em cada palavra dita. ― A única pessoa que me acolheu foi a Dandara. Ela dizia que o que importa não é a aparência; o que importa é o coração. ― relembrei com um sorriso nos lábios. ― Agora entendo o porquê de você ser apaixonado por ela.
Assim que falei isso, Ale encolheu os ombros e sorriu.
Observei um grupo de pessoas que estavam na areia. Uma mulher loira tentava ligar uma caixa de som e as outras garotas se acomodavam na areia.
Quando a loira finalmente conseguiu ligar a caixa de som, começou a tocar uma música agitada e ela acabou se assustando, assim caindo no chão.
― Que porra de música é essa, amiga?! ― uma das meninas perguntou se levantando e só ai reparei na letra da canção.
Digamos que era uma música... mais de 18.
― Desliga isso! ― a morena que se levantou e ordenou, se aproximando da sua amiga.
― Já estava assim quando eu liguei! ― a loira tentou se justificar.
Eu e Alexandre nos entre olhamos e acabamos rindo daquela cena.
A morena trocou o som e uma música calma começou a tocar.
Olhei mais uma vez para o garoto ao meu lado e vi um sorriso fraco nos seus lábios.
Voltamos a olhar para o mar e respirei aquele ar puro, com um sorriso no rosto.
― Então... ― ele começou a puxar assunto e voltei a minha atenção para o que o mesmo dizia. ―, você leu Orgulho e Preconceito?
Sorri com a sua pergunta.
― Um pouco, mas não consegui finalizar. ― respondi, meio tristonho. ― Mas eu queria terminar de ler.
Senti o meu celular vibrar e vi quem era pela barra de notificações.
Dandara: Alexandre não veio. Você tem alguma coisa a ver com isso, não é?
Ri ao ler isso.
Depois, outra mensagem:
Dandara: Desembucha!!!
Ri mais uma vez e guardei meu celular no bolso da calça azul marinho.
― Daqui a pouco é o horário da segunda aula. ― avisei e Alexandre encolheu os ombros. ― Venha, anjo. ― me levantei, estendendo a mão.
Ele riu e se levantou com a minha ajuda, não se incomodando com o apelido.
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Trancado a Sete Chaves
Teen FictionEm pausa/em andamento/em revisão *** +16 Um garoto descolado, com uma caixa de madeira e à procura de sete chaves. Essa é a vida divertida do estudante Eric Müller. *** Pode ter gatilhos como: ansiedade, depressão, bullying, violência, gordofobia e...
