30• Vento Praiano que Leva Desabafo

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Dia 23, quinta-feira.

Cheguei ao prédio de Alexandre e adentrei o local.

― Bom dia. ― cumprimentei o porteiro e o mesmo sorriu. ― Tem alguém no apartamento 102?

Ele foi verificar e, enquanto isso, fui dar uma olhada no celular.

No mesmo instante, recebi uma mensagem de Dand e resolvi respondê-la.

Dandara: Onde está você? A aula começa em 5 minutos!

Eric: estou chegando, você acha que eu consigo chegar a tempo?

Dandara: Se você for o Flash, sim!

Ri do seu comentário.

Ela começou a digitar, mas eu guardei o celular assim que o porteiro se virou para mim.

― Alexandre está em casa. Ele deixou você entrar. ― ele disse e eu levantei as sobrancelhas, surpreso, mas logo sorri.

― Obrigado!

Me afastei e subi as escadas correndo. Não era coisa do Ale me deixar subir.

Quase caí, mas finalmente cheguei no andar dele. Passei pelo corredor e parei em frente ao apartamento 102.

Suspirei antes de dar três batidinhas na porta. Alexandre atendeu e eu dei um sorriso fraco.

Ele usava um casaco e calça moletom, os seus pés estavam descalços e ele segurava com a mão direita um saco de salgadinhos. O que mais me surpreendeu foi a vestimenta, pois mal tinha iniciado o outono e o rapaz já estava todo agasalhado.

Ale encolheu os ombros e ficamos nos encarando por um tempo.

Seus olhos estavam marejados e a única coisa que eu consegui fazer foi lhe dar um abraço.

Não argumentei. Não perguntei. Apenas o abracei e senti o calor do seu corpo contra o meu. Mas eu ainda estava muito confuso com o que estava acontecendo para deixa-lo tão abalado.

Ele enterrou a cabeça no meu peito, fungando e ficamos assim por um tempo.

Alexandre se afastou, andou até o seu quarto e eu o segui, fechando a porta atrás de mim.

Ele se sentou na beirada da cama e eu me sentei na outra ponta.

Ficamos um tempo em silêncio, até ele finalmente dizer algo.

― O Lopez... ― olhou para as suas mãos, apertando os salgadinhos. ―... não anda muito bem. ― levantou a cabeça e eu me inclinei para frente. ― Minha mãe irá levá-lo ao veterinário hoje.

― Sinto muito. ― pousei a minha mão no seu ombro e ele não hesitou. ― Sei o quanto ele é importante pra você.

Sorri fraco e ele retribuiu o gesto.

Reparei no saco de salgadinhos na sua mão direita e Alexandre acompanhou o meu olhar.

Levantei o rosto para olhá-lo e o mesmo encolheu os ombros.

― Posso ficar com isso? ― estendi a mão e ele me entregou o alimento.

O deixei de lado e me virei para o garoto.

― Não precisamos ir à primeira aula.

[...]

Andamos pela areia do Leblon e nos sentamos.

Ficamos observando o céu nublado e tiramos os nossos calçados pretos da escola, deixando nossos pés entrarem em contato com a água gelada do mar.

Muitas nuvens cinzas dominavam o céu e poucas pessoas se encontravam na praia.

Fiz Ale vestir o uniforme da escola, o convencendo de não faltar aula. Ele cedeu.

Ale observava a paisagem cinzenta com um rosto tristonho. Fechou os olhos por um momento, prendeu a respiração e soltou o ar novamente, em um suspiro.

O céu era um retrato dele.

― O Lopez... ― ele começou a falar. ― já tem 6 anos.

Eu apertei os lábios.

― Ele vai ficar bem.

Quase pousei a minha mão em cima da sua, mas pensei melhor e não o fiz.

Ele levantou as mangas do casaco da escola e eu observei as bolotas vermelhas no seu braço.

― Há quanto tempo? ― perguntei, me referindo as feridas que ele costumava esconder com os casacos grandes.

― Desde os 13 anos. ― respondeu, virando o rosto para me fitar. ― Você disse que também passou por coisas ruins nessa idade. ― relembrou e eu voltei a olhar para o mar, sentindo a brisa no meu rosto. ― Quer falar sobre isso?

Suspirei antes de responder.

― Eu mudei de escola por causa disso. ― comecei, sentindo o olhar de Alexandre sobre mim, prestando atenção em cada palavra dita. ― A única pessoa que me acolheu foi a Dandara. Ela dizia que o que importa não é a aparência; o que importa é o coração. ― relembrei com um sorriso nos lábios. ― Agora entendo o porquê de você ser apaixonado por ela.

Assim que falei isso, Ale encolheu os ombros e sorriu.

Observei um grupo de pessoas que estavam na areia. Uma mulher loira tentava ligar uma caixa de som e as outras garotas se acomodavam na areia.

Quando a loira finalmente conseguiu ligar a caixa de som, começou a tocar uma música agitada e ela acabou se assustando, assim caindo no chão.

― Que porra de música é essa, amiga?! ― uma das meninas perguntou se levantando e só ai reparei na letra da canção.

Digamos que era uma música... mais de 18.

― Desliga isso! ― a morena que se levantou e ordenou, se aproximando da sua amiga.

― Já estava assim quando eu liguei! ― a loira tentou se justificar.

Eu e Alexandre nos entre olhamos e acabamos rindo daquela cena.

A morena trocou o som e uma música calma começou a tocar.

Olhei mais uma vez para o garoto ao meu lado e vi um sorriso fraco nos seus lábios.

Voltamos a olhar para o mar e respirei aquele ar puro, com um sorriso no rosto.

― Então... ― ele começou a puxar assunto e voltei a minha atenção para o que o mesmo dizia. ―, você leu Orgulho e Preconceito?

Sorri com a sua pergunta.

― Um pouco, mas não consegui finalizar. ― respondi, meio tristonho. ― Mas eu queria terminar de ler.

Senti o meu celular vibrar e vi quem era pela barra de notificações.

Dandara: Alexandre não veio. Você tem alguma coisa a ver com isso, não é?

Ri ao ler isso.

Depois, outra mensagem:

Dandara: Desembucha!!!

Ri mais uma vez e guardei meu celular no bolso da calça azul marinho.

― Daqui a pouco é o horário da segunda aula. ― avisei e Alexandre encolheu os ombros. ― Venha, anjo. ― me levantei, estendendo a mão.

Ele riu e se levantou com a minha ajuda, não se incomodando com o apelido.

Trancado a Sete ChavesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora