35• Lágrimas que Formam Oceano

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Alexandre me encarou com a testa franzida quando tentei pegar a comida com o hashi.

― Você não sabe usar isso, né?

Eu ri de nervoso.

― É assim ― segurou o seu hashi e eu fiz o mesmo, mas acabei falhando.

Ele levantou e segurou os meus dedos, fazendo eu me arrepiar um pouco. Depois, ajeitou o hashi e se afastou.

― Pronto ― se sentou novamente e voltou a comer. ― E não larga isso, porque eu não vou te ajudar se eles escaparem da sua mão.

― É que eu nunca provei comida japonesa ― ri e enfiei o alimento na boca, sentindo um gosto maravilhoso.

― O que achou?

― Muito bom ― sorri e Ale retribuiu o gesto.

Eu não estava mentindo. Nunca tinha comido aquilo antes, e afinal era bom mesmo.

Um silêncio se instalou no quarto, então resolvi puxar assunto.

― Como é o Fernando?

― Como é o meu tio? ― retrucou tampando a boca com a mão e eu assenti. ― Ele é... bem extrovertido, fala bastante... parece você.

― Vou considerar um elogio, obrigado.

― Ele também é bem estiloso e tem uma criatividade... surreal.

― Ele já lançou alguma música?

― Sim, está prestes a lançar o seu terceiro álbum de estúdio ― terminou de comer e eu levantei as sobrancelhas, impressionado com a informação. ― Fernando até me pediu para escrever uma canção, mas não sei se ficaria boa ― sorriu, deixando a caixinha de comida japonesa em cima da mesa. ― Não sei sobre o que ela seria, acho que não tenho muita criatividade para isso.

― Você... pode me mostrar uma música dele? ― terminei de comer e deixei a caixinha em cima da mesa.

Alexandre tirou o seu celular do bolso e se sentou na cama ao meu lado.

Um som bem suave começou a tocar quando ele deu play, parecia ser uma canção acústica.

Depois de alguns segundos só de batida, uma voz masculina começou a cantar. Não era nem grossa, nem fina.

― Se chama Oceano e conta sobre o que ele enfrentou na adolescência por ser gay ― ele sussurrou e o refrão da música soou:

"Eu me encaro no meu próprio oceano
De pés juntos, jurando mudar
Com as lágrimas quase secas nas minhas bochechas
Eu rego a flor para não murchar"

Depois de alguns minutos, a canção terminou e encarei ele. Aquilo era sensacional. Você conseguia sentir o que ele sentiu. Eu conseguia sentir o que ele passou.

― Isso é...

― Eu sei, lindo, não? ― Ale disse orgulhoso, mas com um certo tom de pena, parecendo se rebaixar por não ter a coragem que seu tio teve de cantar sobre isso.

― Você também é corajoso ― pousei a minha mão na sua perna, mas logo o rapaz recuou, abraçando o próprio corpo. ― Desculpe.

A porta fez um barulho e Violeta adentrou o quarto com algumas pastas na mão. Eu cruzei os braços, afastando minhas mãos de seu filho.

― Tudo bem aí? Querem alguma coisa? ― ela se aproximou de nós e eu sorri.

― Está tudo bem. Não precisamos de nada, senhora Lopez. Obrigado.

― Acho que vocês precisam de algo ― falou e eu franzi a testa. ― Precisam rir! Não vou mais usar a sala por hoje, vocês podem ver um filme de comédia, quem sabe ― sugeriu e eu ri.

Trancado a Sete ChavesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora