Eu e Alexandre estávamos quase indo embora quando Sabrina se aproximou de nós.
― Foi bom te conhecer, Eric ― ela disse e eu sorri. ― Vejo vocês semana que vem.
Ela se afastou e saímos do local.
― Tem um lugar... ― Ale começou a falar. ―... que eu vou para relaxar. ― abraçou o próprio corpo enquanto andávamos lado à lado até o ponto. ― São apenas uns 20 minutos de ônibus.
Sorri com a ideia
― Vamos então.
[...]
Olhei pela janela onde estávamos.
― Uma praia?
― Não é uma praia. É A Praia, mais conhecida como Praia do Leblon. ― Alexandre respondeu.
― Nós literalmente moramos em Ipanema, e você me levou para outra praia na Zona Sul?
― Essa tem um significado emocional para mim.
Observei as ondas calmas chegando na areia e deixando um rastro de água por ela. Algumas pessoas também estavam ali. Todos pareciam relaxados apreciando o céu azul.
Ale puxou a cordinha e logo saltamos. Caminhamos um pouco até chegar na areia. Tiramos os nossos tênis e logo uma onda calma alcançou os nossos pés.
― Por quê? ― Alexandre perguntou de repente, olhando para frente. ― Por que faziam bullying com você? Se é que precisa de um motivo especifico para isso. ― riu da própria pergunta tola.
― Eu era acima do peso, assim como você. E provavelmente por causa da minha sexualidade também.
Ele virou o rosto para me encarar e apertou os lábios, talvez surpreso por eu ter saído do armário aos 13 e mesmo depois de tantos anos, ainda ser invisibilizado.
― Quem sabe disso?
Levei as pernas ao peito e Ale fez o mesmo.
― O Pedro, a Alice e a Dandara. ― respondi, evitando contato visual. ― Foi na minha antiga escola.
Ficamos um tempo em silêncio e eu apoiei a minha cabeça no ombro de Alexandre. Ele hesitou por um momento, mas logo apoiou a sua cabeça em cima da minha e eu sorri fraco.
― Meus pais vinham aqui quando eram mais novos. ― ele explicou o significado emocional. ― A minha mãe disse que eles ficavam conversando e relaxando aqui na adolescência.
Respirei fundo e sorri.
― Esse lugar deve ser especial pra eles.
Não pude ver a expressão de Alexandre, mas tive certeza de que ele estava sorrindo.
― Obrigado ― falei, olhando as ondas do mar. ―, por me trazer aqui.
― Meu pai me trazia aqui quando eu era apenas um garotinho. ― Mudou de assunto. ― Ele disse que eu adorava esse lugar. Eu me deitava na areia e ficava admirando o pôr do sol.
Levantei a cabeça para fitar os olhos castanhos de Alexandre.
Reparei nos seus olhos cor-de-chocolate e nos seus cílios grandes; suas bochechas rosadas e seus lábios carnudos.
Droga, eu não devia reparar nos lábios dele.
Nós estávamos muito perto um do outro.
Ale olhou para frente e eu soltei o ar, sem ter percebido que tinha o prendido.
― Olhe. ― ele pediu e eu acompanhei o seu olhar. ― O pôr do sol.
Sorri ao ver o céu em aquarela. Uma mistura de amarelo e laranja, enquanto o sol se afastava.
― É lindo. ― ele falou e eu sorri.
― É mesmo.
Naquele momento, me senti como o laranja do céu, conhecendo o amarelo do pôr do sol. E pensei em como essas cores eram lindas juntas.
[...]
Cheguei em casa e me deparei com Pedro na sala de estar.
― Onde estava? ― ele desligou a TV e andou até mim.
― Na Praia do Leblon.
Ele apertou os olhos.
― O que fazia lá?
― Eu fui... com Alexandre.
Meu pai riu ao ouvir o que eu disse.
― Por falar em Alexandre... ― cruzou os braços. ― Me conte mais sobre essas atividades extracurriculares que você quer fazer.
Expliquei a ele onde eram as aulas de karatê, dança e violão. E, no final, ele acabou me matriculando nas aulas de violão e karatê. Disse que ainda estava pensando nas aulas de francês e dança.
― Você já sabe falar outra língua, que é o alemão. E você nunca me disse que gostava de dançar.
― Seria legal ser poliglota. ― falei. ― E eu gosto de dançar, desestressa ― dei uma pausa. ― Talvez eu vá amanhã para uma aula experimental de francês.
Pedro assentiu e andou até a cozinha.
― Eu... ― comecei, encostando no batente da porta. ―... fui à um grupo de apoio com Alexandre.
Meu pai deixou o forno de lado e me olhou com atenção.
― E como você se sente? ― ele perguntou, se apoiando no balcão.
― Bem.
[...]
No dia seguinte...
Dia 21, terça-feira.
Cheguei na escola e Dandara andou até mim, sorridente.
― Dei match! ― ela gritou e eu arregalei os olhos.
― O quê?!
― Isso mesmo!
Ela estava realmente feliz com isso.
― Como a pessoa é? ― perguntei e Dandara me levou até um banco, onde nos sentamos.
― Na foto, ele está com uns óculos escuros, não dá para ver o rosto dele direito.
― Óculos escuros, né? ― falei e a loira assentiu. ― Qual é o nome dele?
― Lorran Domador de Corações. Um nome brega? Sim, mas também engraçado.
Ri ao ouvir aquilo, um pouco surpreso. O Lorran Carvalho colocaria um nome assim.
― Ele tem 17 anos e é bem divertido. Temos alguns pontos em comum.
― Tipo o quê?
― Tipo eu e ele moramos em Ipanema.
Vi Lorran passando por nós e ri. Eu tenho certeza que é ele.
Quando eles descobrirem... será uma catástrofe.
― Espere um instante. ― pedi me afastando e andando até o garoto de cabelos castanhos.
― Ei, Eric ― Lorran sorriu para mim assim que me aproximei.
― Então você deu match?
Ele arregalou os olhos.
― É, eu ia te contar. ― falou, meio desconfiado. ― O nome dela é Dand.
― Dand? Só... Dand?
― É.
― Como ela é? ― perguntei, dando leves batidinhas com o dedo nos lábios.
― Na foto não dá pra ver direito, mas ela é loira.
Ri. Eles precisam usar óculos... e o cérebro também.
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Trancado a Sete Chaves
Fiksi RemajaEm pausa/em andamento/em revisão *** +16 Um garoto descolado, com uma caixa de madeira e à procura de sete chaves. Essa é a vida divertida do estudante Eric Müller. *** Pode ter gatilhos como: ansiedade, depressão, bullying, violência, gordofobia e...
