16• Entrada Triunfante

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Saímos da livraria e começamos a andar pelas calçadas de Ipanema.

― Há quanto tempo você faz aula de violão? ― perguntei tentando mudar de assunto.

― Desde os 13 anos, Müller ― Alexandre ajeitou a alça da sua mochila, olhando para frente. Ele estava sério.

Mas eu não.

― Que legal. ― sorri. ― Pode me chamar de Eric. ― sugeri e o garoto ao meu lado revirou os olhos. ― Por que não mencionou as aulas de violão em alguma carta?

― Não deu, Müller.

― Pode me chamar de Eric.

― Você já disse isso. ― senti um tom de arrogância e engoli em seco.

― Onde você faz aula de violão? É muito longe? ― perguntei e o menino de óculos parou de andar.

― Você vai mesmo me acompanhar até lá?! ― perguntou irritado e eu balancei a cabeça em afirmação. ― Por quê? Eu não estou te pedindo para ir comigo. ― fitou os meus olhos, mas logo desviou o olhar.

― Você parece legal, podemos conversar mais sobre as cartas. ― respondi e Alexandre voltou a andar.

― Acredite, eu não sou legal.

― Aliás, eu sou um ótimo cupido. ― ignorei o que ele disse e o mesmo deu uma risada.

― Estamos falando sobre a Dandara Barbosa agora?

― Podemos falar sobre o que você quiser.

― Que tal você ficar quieto? ― parou de andar e bateou de leve em uma porta de madeira ao seu lado direito.

Eu nem tinha percebido que já tínhamos chegado.

Uma mulher de cabelos loiros claros atendeu a porta, com um sorriso no rosto, e pegou a capa de violão que estava nas mãos de Alexandre.

― Olá, querido. ― a senhora de olhos verdes cumprimentou o menino ao meu lado.

― Oi, prof.

― E quem é esse rapaz? ― ela perguntou apontando para mim, com um sorriso ladino nos lábios.

O garoto ao meu lado corou.

― Ele é... ― ele ia responder, mas eu a interrompi.

― Eric Müller. ― respondi e Alexandre me fuzilou com os olhos. ― Um amigo da escola.

― Você disse que não tinha amigos do seu colégio. ― a professora relembrou, olhando para o menino ao meu lado.

― Agora ele tem. ― sorri e a mulher loira retribuiu o gesto.

Alexandre entrou no local e ficou um pouco atrás da senhora.

― Que horas acaba a aula? ― perguntei e o menino de óculos arregalou os olhos.

― Cinco da tarde.

― Venho buscá-lo cinco horas. ― lancei uma piscadela para Alexandre e ele revirou os olhos.

Dei uma risada e me afastei, acenando para a senhora na porta.

[...]

Fiquei em casa estudando para a prova de amanhã e quando estava perto de cinco horas, fui ao encontro de Alexandre.

Agora, estou na frente do local, sentado na calçada.

Escutei a porta atrás de mim fazer um barulho e me levantei.

― Você veio mesmo. ― Alexandre disse e eu sorri. O seu tom de voz era de repreensão e decepção. Eu ignorei.

― Podemos falar sobre as cartas? ― perguntei acompanhando o menino pela calçada.

― Assim como você, eu também tenho uma prova amanhã. ― avisou, sem me olhar. ― Tenho que ir para casa estudar.

― Eu te acompanho. ― sugeri e ele ficou mais sério ainda.

― Não, obrigado.

― Não foi uma pergunta. ― corrigi de um jeito brincalhão e Alexandre revirou os olhos.

Ficamos um tempo em silêncio.

― Então você gosta da Dandara desde o nono ano? ― tentei puxar assunto.

― Dá pra não falar sobre isso? ― perguntou e eu apertei os lábios. ― Não acredito que o melhor amigo da Dandara sabe que eu gosto dela.

― A culpa não é minha, você que escreveu as cartas. ― rebati e o menino de óculos parou de andar.

Percebi que paramos em frente a um prédio.

― Chegamos, agora você pode ir. ― pediu, me olhando de cima à baixo.

― Qual é o seu andar? ― inclinei a cabeça e Alexandre deu uma risada.

― Você está muito enganado se acha que vou te passar o me endereço. ― abriu a porta de vidro.

― E quando eu posso te buscar?

― Que tal no dia de São-Nunca?

― Combinado. ― disse brincalhão e ele entrou no local.

Falou algo com o porteiro e subiu pelas escadas.

[...]

Fitei o relógio de pulso: seis horas da tarde.

Olhei para cima e avistei várias janelas de apartamentos. Estou na parte lateral do prédio de Alexandre.

O que eu estou prestes a fazer talvez seja um pouco perigoso e talvez meio psicopata, mas eu preciso falar com ele.

Me apoiei em uma árvore e comecei a escalá-la. Subi um pouco até ficar na altura de uma janela aberta.

Percebi que era um quarto e avistei uma capa de violão e um exemplar de Orgulho e Preconceito em cima da cama.

Ah, não foi tão difícil assim.

Me estiquei um pouco para frente e consegui entrar no local.

Assim que botei os pés no chão com um baque, olhei ao redor. Era um quarto pequeno. Perto da porta, tinha uma estante de livros e um guarda-roupa. Um pouco perto da entrada, tinha um colchão. Na parede ao lado da cama, tinha uma bandeira bissexual pendurada. Um pouco em cima da cama, tinham prateleiras com troféus de campeonatos de karatê.

No lado esquerdo do quarto, uma escrivaninha com vários livros e cadernos. Também tinha uma porta branca ― provavelmente o banheiro.

Me sentei na cama, até que a tal porta branca fez um barulho e se abriu. Alexandre saiu de lá, enrolado em uma toalha azul. Assim que me viu, deu um grito.

― Müller? O que você faz aqui? ― segurou a sua toalha firmemente. Com o braço desnudo, percebi que tinha algumas bolotas vermelhas.

― Pode me chamar de Eric. ― pedi e percebi a sua expressão. Ele estava realmente muito assustado. ― Desculpe. ― me levantei na cama.

― O que você faz...

Ele parou de falar e eu acompanhei o seu olhar, percebendo que ele fitava a entrada do quarto.

E lá estava a detetive Lopez, com uma bolsa de couro na mão esquerda e na direita, várias pastas transparentes.

Ela fitou o seu filho enrolado em uma toalha e depois me olhou, esperando uma explicação.

― Mãe? Você chegou cedo. ― Alexandre coçou a nuca.

― Oi, senhora Lopez. ― cumprimentei, forçando um sorriso.

― Ok. ― ela entrou no quarto e se sentou na cama do filho. ― Quem começa?

Trancado a Sete ChavesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora