Priscila POV
Após deixarmos Marcela, o resto do caminho foi feito em silêncio. E assim continuou quando chegamos em casa. Carol subiu direto para o seu quarto e eu fui para o meu. Após um banho demorado, no qual me permiti uma quantia exorbitante de xingos mentais, me deitei na cama e relembrei os momentos da noite.
Flashback on
Deixamos as garotas próximo ao carrinho de bate-bate e seguimos na direção da praça de alimentação sem, no entanto, ter a intenção de ir até lá. O plano era esperar as meninas para comermos.
- Bom, agora é só esperar - falou Carol - e
torcer.
- Espero que dê tudo certo - falei.
- Vai dar, você vai ver! Daqui a pouco elas vão estar super felizes juntas.
Nós seguimos para a área de brinquedos
com prêmios, e vimos uma barraca onde as
pessoas tentavam atingir as latas com tiros
de espingardas de mentira. No alto da barraca havia um urso enorme.
- Duvido que você consiga o urso. - Ela falou.
- E eu duvido que você consiga. - Provoquei.
Ela me olhou com um pouco de raiva.
- Não deve ser tão difícil assim. Quer apostar? - Ela perguntou.
- E o que eu ganho com isso? - Devolvi.
- O urso. - Ela falou.
- Não. Eu tenho que ter mais alguma vantagem. - Falei.
- Se você conseguir eu dispenso a Liz mais cedo durante essa semana e eu faço o jantar. Mas se eu conseguir é você quem vai cozinhar.
Estendi minha mão para ela que apertou e nós seguimos em direção a barraca.
- Boa noite - falei para o senhor que atendia. - Quantas latas temos que derrubar para conseguir o urso maior?
- Tem que derrubar as seis latas em dez tiros. - Ele respondeu.
- Tem certeza que quer fazer isso? - Perguntei para Carol.
- Tenho. - Ela respondeu com firmeza.
- Pode ir primeiro, então. Você não vai
conseguir mesmo.
Ela ficou com ainda mais raiva por eu duvidar mais uma vez da sua capacidade e pediu a espingarda para o senhor. Ela errou o primeiro tiro, mas acertou o
segundo, e errou mais dois em seguida.
Acertou o quinto tiro.
- Tem que acertar todos agora carolzinha, senão vai cozinhar por uma semana.
Ela acertou mais um, mas errou o próximo.
Eu ri e ela me fuzilou com o olhar. Paguei ao senhor pelos meus tiros e peguei a espingarda de sua mão. Me concentrei e dei o primeiro tiro. Errei. Ela riu ao meu lado. Segundo tiro. Acertei. Fiz uma sequência de mais dois acertos. Errei o quinto tiro e acertei os próximos dois. Uma lata e três tiros. Errei os dois tiros seguintes. Me concentrei com todas as minhas forças e me preparei para apertar o gatilho.
Quando estava quase soltando ela falou bem ao meu lado:
- Aposto que você vai errar.
Me assustei e apertei o gatilho, mas o tiro saiu errado. Ela gargalhou ao meu lado e eu a olhei furiosa.
- Eu ia acertar Carolyna, se você tivesse mantido essa sua boca fechada.
Ela fez uma cara nada inocente:
- Desculpa!
- Você trapaceou, não vale. - Olhei para o
senhor. - Ela trapaceou o senhor viu. Eu não posso tentar de novo?
- Desculpa, moça - ele falou. - Mas a regra é
para dez tiros, eu não posso te dar mais um.
- Vai ter que aceitar Priscila. - Carol falou. -
Deu empate. Ninguém vai cozinhar.
- É óbvio que você vai cozinhar, eu só não
ganhei porque roubou. - Falei.
- Eu não vou cozinhar. - Ela teimou. - Você não ganhou o urso.
- Ah, vai sim. Eu não mandei você gritar no
meu ouvido.
- Eu não gritei. Eu só falei, foi você quem se
assustou à toa.
Nosso tom foi se elevando durante a discussão e algumas pessoas já olhavam para nós.
- Eu não quero saber. Você roubou e vai pagar a aposta. - Falei sendo mais teimosa que ela.
- Eu já fui obrigada a casar, agora você quer
me obrigar a cozinhar também. - Ela falou
em alto e bom som, sem se importar em estar sendo ouvida por completos estranhos. - Pois fique sabendo que nem em sonho isso vai acontecer, se você não sabe perder, o que é apenas mais um dos seus inúmeros defeitos, peça o divórcio, assim todo mundo fica feliz e eu posso viver a minha vida em paz novamente sem me preocupar com as malditas ações...
Ela continuou falando todas as verdades que queria despejar na minha cara, e o número de pessoas nos olhando só aumentava. Uma coisa é ela falar isso para mim em casa e outra é me fazer passar vergonha na frente de estranhos. Então eu fiz a única coisa em que eu consegui
pensar para calar a sua boca...
Agarrei Carolyna pela cintura e a beijei. Um beijo bruto, sem pedir permissão. Apenas ataquei sua boca, e a invadi com a minha língua. Finalmente, depois de tantos anos, eu estava sentindo o gosto daqueles lábios.
Para a minha surpresa, e talvez pelo choque de ser apanhada de surpresa, Carol correspondeu ao beijo, me puxando pela nuca. Quando o ar começou a se fazer necessário eu diminuí o ritmo, passando a beijá-la de uma forma suave. Foi sem dúvida o melhor beijo da minha vida, e eu finalmente entendi porque ela fazia tanto sucesso entre homens e mulheres. A medida em que o beijo foi desacelerando ela pareceu perceber o que estava fazendo e se afastou de mim de madeira abrupta.
Carol me encarou por alguns instantes com uma expressão que misturava choque e raiva. Enquanto ela se dava conta do que tínhamos feito eu percebi a raiva crescendo dentro dela.
- Que merda você está pensando? - Perguntou. - Nunca... nunca mais... faça isso.
E saiu batendo o pé, me deixando parada
em frente à barraca com várias pessoas me
olhando como se eu fosse louca. Sinceramente, nesse momento eu estou pouco me importando para o que um bando de estranhos pensa de mim.
- Moça, - o senhor da barraca chamou a minha atenção - eu não sei se é um bom momento, mas você ainda pode escolher um dos prêmios menores.
- Não precisa senhor. Eu já ganhei o meu
prêmio. - Falei sorrindo para ele. - Obrigada.
Ele me olhou confuso, mas eu não tinha tempo para explicar, saí correndo atrás de Carol, a alcançando já próxima do local onde Marcela e Amanda estavam. Percebi que as duas estavam de mãos dadas e não pude deixar de ficar feliz pelas duas.
Carol exigiu ir embora e nós a seguimos.
Na altura em que chegamos no carro, eu
já começava, vendo a sua reação, a me
arrepender da minha atitude inconsequente. Nós havíamos começado a nos aproximar agora, e ainda assim, de forma bem tênue. Tudo o que eu não precisava era de um novo afastamento de Carol, e fora exatamente isso que eu conseguira.
O caminho foi feito praticamente em silêncio, só quebrado por algum comentário ocasional de Marcela ou Amanda, que continuavam de mãos dadas, ou quando eu começava a cantarolar alguma música que tocava. Quando chegamos à casa dos Borges, nem eu
nem Carol disfarçamos a atenção para a
despedida das duas no banco de trás.
Amanda deu um beijo na bochecha de Marcela e sussurrou um "Nos vemos amanhã", o que fez com que eu e Carol sorrissemos. Mas no momento seguinte ela pareceu lembrar que estava brava comigo, e bufando voltou a olhar para o outro lado da janela.
Flashback off
Eu só espero que esse beijo não tenha
colocado nada a perder. Eu nunca me
perdoaria por isso. E espero que a Carol não fique tão brava como aparentava estar hoje. Não quero voltar à estaca zero com ela. Pensando nisso e desejando seus lábios
novamente sobre os meus, eu não demorei a pegar no sono.
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The Few Things - Capri
FanfictionAs famílias Caliari e Borges são sócias em uma grande rede de hotéis: a Luxury. Seus filhos foram criados juntos e se davam muito bem. Bom... exceto suas filhas mais velhas, que se odiavam. Priscila Caliari e Carolyna Borges são o completo oposto um...
