03. Wooden doors

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Simon, ainda sob os efeitos da febre, via tudo ficando borrando enquanto arrastava seus pés pela terra, a garota, tinha colocado o cachecol de volta no rosto, usava um chapéu preto de couro e deu um toque no mesmo para ver como Simon estava. Ela franziu as sobrancelhas e desacelerou o passo, o homem era muito mais alto e pesado do que ela, e ela tinha que dar um jeito de ele se manter consciente até chegar à sua cabana.

"Então.. Britânico é?" - ela tentou puxar assunto, vendo que seus olhos piscavam pesadamente.

Simon levantou uma sobrancelha e mesmo sobre o efeito da febre, rosnou:

"Inglês."

"Oh." - ela sorriu. - "E o que você estava fazendo no meio da floresta?" - ela já tinha uma vaga ideia, dado as roupas táticas e a quantidade de bolsos e cintos com armamentos.

"Não é da sua conta." - ele murmurou em um tom impaciente. - "Falta muito?" - ele perguntou irritado pela demora da caminhada.

"Não." - ela respondeu enquanto ficava ao seu lado. - "Segura no meu ombro."

Ele levantou uma sobrancelha, e pousou sua mão no ombro dela, para pelo menos ter um certo apoio, ela não parecia ser muito forte, pela sua estatura.
Mais alguns minutos de caminhada entre uma trilha que aos poucos ficava mais clara, a luz do sol timidamente passava por entre as folhagens das árvores altas e ele parecia estar sendo transportado para outro mundo, os seus sentidos ficavam mais inebriados, pelo canto dos pássaros que comemoravam a breve luminosidade e calor. Ele, em um momento, sentiu uma repentina fraqueza e caiu de joelhos no chão, e desmaiou.
"Puta merda." - ela pensou, faltavam alguns minutos de caminhada ainda e ela tinha que pensar em como transportar aquele homem gigante.

Por um momento, ela o deixou no chão, ela teve que fazer uma viagem até a sua cabana, no depósito que ficava ao lado da mesma, uma cabana rústica de madeira, modesta, mas bem conservada, ela pegou um trenó, não era muito grande, mas seria algo que facilitaria o transporte do Inglês. Ela foi arrastando o mesmo pelas cordas e esperava que elas não rompessem, era um trenó que há muitos anos não era usado, e ela esperava que fosse suficiente para uma última viagem. Mesmo com o tempo frio, por baixo do poncho ela suava, arfava pelo esforço. Até a sua volta, ela ansiava, preocupada, em chegar logo até ele, por medo de aparecer algum animal ou talvez alguma pessoa, não era uma região muito segura, ela tinha que admitir, e a presença de um soldado britânico, ou inglês, como ele tinha frisado, era algo que a preocupou de imediato, visto que há alguns meses, ela morava sozinha naquela cabana. Enquanto arrastava o homem para o trenó por baixo dos seus braços pesados, ela pensava se estava tomando a decisão certa, mas ela não poderia simplesmente deixá-lo morrer e de qualquer forma, ela estava bem equipada. Assim que conseguiu colocar Simon no trenó, ela tirou o chapéu e limpou o suor com a barra do poncho.

"Vamos lá." - ela colocou as cordas sobre os ombros e ia se inclinando usando o máximo de força que tinha para voltar à cabana. Em alguns minutos, ela havia voltado e por um momento, sentou-se no chão. Ela ainda tinha que colocá-lo para dentro. Ela tirou o poncho, o chapéu e o cachecol, visto que todo aquele esforço tinha feito suar bastante. Ela subiu os três degraus, abriu a pesada porta de madeira, a empurrou e olhou para baixo do alpendre da cabana o homem desamaiado.

"Jesus." - ela murmurou para si mesma.
Ela desceu as escadas, pegou mais um pouco de ar e ia o arrastando por baixo dos braços para dentro da cabana, provavelmente o maior esforço que ela tinha tido em alguns dias, ela era acostumada a cortar madeira, carregar toras, fazer trabalho pesado ali, mas aquilo era bem diferente, e inusitado. A moça finalmente conseguiu colocar Simon para dentro da casa, mas seria impossível colocá-lo na cama, então ela jogou um colchonete próximo a ladeira, e o arrastou para lá.

"Pronto." - orgulhosa, ela se levantou e colocou as mãos na cintura, um estalo a fez ir até o armário da cozinha e tirar um kit de primeiros socorros. Ela se ajoelhou, e com o auxílio de uma tesoura, foi cortando ao redor de onde ele havido sido ferido, e estava bem feio na verdade. Ela foi pegando o antisséptico e com o auxílio de uma pinça e uma gaze, foi limpando o ferimento, e ai, ela teve visão da bala, estava uma situação horrível ali e ela esperava que ele não acordasse, com a pinça, ela foi cavando sua pele, mas ai , Simon acordou e de repente, ele levou sua mão ao seu pescoço e ela, horrorizada, só arregalou os olhos puxados e ele, percebendo o que tinha feito, cerrou os dentes e retirou a mão do seu pescoço, voltou a se deitar e suspirou fundo.

"Calma, eu estou limpando o ferimento..." - ela dizia, meio trêmula pelo que tinha acabado de acontecer.

"Ok..." - ele lançou um olhar de soslaio e foi cerrando os dentes a cada movimento que ela fazia para tirar a bala.

"Qual é o seu nome..." - ela olhou o patch e estava escrito "Ghost", ela soltou um risinho entre os dentes - "...Ou é só Ghost."

"Pra você é só isso mesmo por enquanto..."

"Oh." - ela arregalou os olhos ainda irritada pela resistência do mesmo, ai assim que conseguiu, retirou a bala com as pontas da pinça, retirando um gemido de dor dele, ela sorriu e jogou a bala sobre a bandeja de alumínio ao lado das gazes sujas. - "Eu acabo de tirar uma bala de você, deixar você entrar na minha casa e é isso que eu recebo em troca? Bom, eu , diferente de você..." - ela, abundantemente jogou o antisséptico sobre o ferimento dele, o que o fez urrar de dor, e ela, sorriu maliciosamente. - "...Vou ser educada e me apresentar, meu nome é Sora Williams, Ghost." - ela preparava a linha para costurar o ferimento - "Eu jurava que os britânicos eram mais educados, sabe."

Ainda suando pela febre, ele a olhava com os olhos apertados e cerrava os lábios, deitado, ele olhava para ela, e depois para o teto, observava a lareira apagada, acima da lareira, haviam quadros com fotos de pessoas, mas ele não conseguia identificar quem eram, acima de uma, uma maior, a foto de um homem de uniforme militar, e de cabelos ruivos e sardas, ele apertou os olhos e depois mirou Sora, que o encarou:

"Pronto?" - disse mostrando a agulha.

Ele apenas acenou com a cabeça e respirou fundo quando ela deu a primeira agulhada, e aos poucos, foi traçando a costura pela sua pele, o que tinha sido horrível, mas ele já tinha passado por isso inúmeras vezes e provavelmente não seria a última vez. Assim que ela terminou, ela fez um nós, pousou uma gaze sobre o ferimento e passou uma bandagem ao redor do seu braço.

"Pronto, Ghost." - ela reafirmava seu codinome, irritada por isso. Ele acenou com a cabeça e murmurou um quase inaudível "Obrigado". Ela olhou para ele de volta e esboçou um sorriso de canto de lábio. Ela pegou as coisas e as tirou de lá para as descartar em um outro lixo. Ela foi ao banheiro no final do corredor, seus passos faziam a madeira ranger e no seu retorno, ela se dirigiu a uma cozinha conjugada com aquela mesma sala, que possuía a lareira, dois sofás antigos de dois e três lugares, e uma mesa de madeira maciça com seis cadeiras. Havia uma cristaleira e mais um móvel de apoio com várias fotos de família.

Simon não conseguia se mover, estava exausto, e finalmente aliviado pela troca do curativo, ele fechou os olhos por um instante. Sora retornou com um copo de água e depois comprimidos.

"Para não infeccionar, e um para dor." - ela entregou ambos e um copo de água.

Com muito esforço, ele tentava se levantar e ela o auxiliava, ele, como uma animal selvagem, a encarou, um pouco nervoso pelo contato de suas mãos nas suas costas. Ela parecia ignorar aquela reação, como tinha feito com a arma, e ele se sentou, lançou os comprimidos para a boca e bebeu a água de goladas. Limpou o canto da boca com a manga da farda e entregou o copo para ela. Ela sorriu satisfeita e voltou para a cozinha. Ele se deitou novamente e suspirou, encarou o teto de madeira novamente, fechou os olhos e a partir daí, adormeceu, acordando em um momento pelo barulho dos novos pedaços de madeira sendo depositados na lareira e Sora os acendendo, o calor, ele tinha que admitir, tinha feito a diferença para ele em quase três dias ali na floresta, e adormeceu. Acordou novamente com pesadelos, seus companheiros sendo mortos, ele sendo morto, ele dentro da água, se afogando e chocando-se nas pedras cachoeira abaixo.

"AHHHH!!" - Ele se levantou suado de imediato, olhou para os lados e viu que estava na cabana ainda.

Sora que cortava alguns vegetais, se assustou e deu um pulinho para o lado, assim que o viu, ela colocou a mão no peito.

"Meu deus.. Você quase me matou de susto." - e voltou a cortar alguns pedaços de abóbora e jogar dentro da panela.

"Ah... Er.." - ele focou seu olhar nas chamas - "Acontece." - murmurou.

O cheiro da sopa tomou conta do lugar e ele sentiu imediatamente seu estômago roncar alto, naqueles dois dias, ele tinha acabado com as rações e aquilo realmente não tinha sido suficiente, ela conseguiu ouvir o barulho do seu estômago e soltou um risinho com a mão na boca. Sem graça, ele se sentou contra ela, em direção as chamas, apertou os lábios e a encarava de canto de olho.

"Você deve tá morto de fome, e eu estou quase acabando aqui." - ela dizia animada enquanto mexia o caldo, que consistia de vegetais que cultivava e pedaços de galinha.

Simon resolveu se levantar e se sentar no sofá, tirou as suas botas e ainda tinha muitas perguntas em relação a Sora. Do sofá, ela conseguia ver melhor as fotos. Havia um homem branco e uma mulher de pele semelhante a Sora, com uma garota pequena, talvez fossem seus pais e ela pequena, e depois, a foto dela mais velha, com o mesmo rapaz ruivo com uniforme militar, talvez um namorado ou um marido.

"Você mora aqui sozinha?..." - ele resolveu quebrar o silêncio, observando cada foto dos dois e da família.

"Sim." - ela ficou meio receosa de dizer, e esperava que Simon não fosse uma ameaça a ela, ela voltou sua atenção à sopa, e aquela pergunta, tinha a levado a um lugar que ela gostaria de esquecer, ela continuou a mexer e ele percebeu sua expressão mudar.

"Algo aconteceu aqui." - ele pensou consigo mesmo.



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