15. Bonfire

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Ambos estavam machucados e depois de algumas horas de caminhada, chegaram a um córrego raso, com pedras que se erguiam por entre a água cristalina que seguia seu curso lentamente. Sora se abaixou, pegou um pouco de água com as mãos e tentou beber, juntamente com Simon. Desde o último encontro com os Russos, ela não havia bebido nem comido nada e já estava começando a sentir seu corpo todo tremer pela queda de açúcar no seu sangue.

"Vamos montar acampamento na floresta, amanhã continuamos." - disse Simon enquanto se levantava e ia em de volta para a floresta.

Ela fez o mesmo, e ainda sentindo a fraqueza, cambaleou para o lado, mas logo tomou seu rumo ao lado dele. Simon, percebendo o cansaço da moça, tirou do bolso um pedaço de pão que havia coletado antes de sair e e entregou a Sora.

Andaram alguns metros até um local que aparentava não ter muitas pedras e aos poucos o militar ia tirando um galhinho ou outro do chão para que ficasse minimamente confortável para que ambos pudesse se sentar.

"Vou procurar uma lenha pra gente acender uma fogueira, não saia daqui." - avisou e recebeu uma confirmação de volta com um aceno de cabeça.

Sora se encolheu e se encostou no tronco de uma árvore, ao seu redor, uma folhagem alta lhe dava uma falsa sensação de segurança. Poucos minutos decorreram da ausencia de Simon, até que ele voltou, posicionou os galhos entrelaçados entre si e retirou um isqueiro do bolso, não demorou muito até uma pequena labareda se formasse e comecasse a aquecê-los.

Um trovão foi ouvido de um lugar longínquo, o que foi motivo de preocupacao com ambos, com Sora ferida, uma chuva pesada não estava nos seus planos.

"Eu vou tentar pescar alguma coisa." - anunciou novamente, apenas recebendo o silêncio da garota de volta.

Sora ainda se recuperava mentalmente da perseguição, por sorte, conseguiu esconder sua presença antes do despenhadeiro, mas ainda sim, sentia uma certa tensao no ar, como se Ivankov e seus homens fossem aparecer do nada ali. A cada momento que Simon saia de perto dela, era uma angústia , ela nem se reconhecia, de uma mulher que passou um ano independente, ela se sentiu desamparada tal qual tinha sido quando tinha acabado de receber a noticia do falecimento de James.

Mais uma vez, ela o amaldiçoou por ter morrido, por tê-la deixado viver sozinha na cabana, por causa de sua morte, suas escolhas foram moldadas e aquilo tinha desaguado naquela situação em que se sentia encurralada. Ela colocou a cabeça entre os joelhos e na sua mente rodopiavam planos e possibilidades de sair dali, do que ser feito, mas acima de tudo, a culpa, por não ter matado Ivankov.

Simon retornava com alguns peixes limpos nas mãos, os restos, jogou no córrego e tentou apagar qualquer vestígio de que havia feito algo na margem de pedrinhas pequenas cinzentas e brancas. Enquanto ele colocava os peixes nos gravetos, o sol ia se pondo atrás dos altos pinheiros que formavam uma manta homogênea nos montes no horizonte. A moça não saía da posição em que tinha se fechado. Como ele mesmo sabia, ele nunca foi bom com palavras ou confortar pessoas, sempre foi muito sincero e até mesmo frio e seco quando se tratava de tragédias, situações como aquela já estavam no seu histórico e ali, não seria diferente, ele só precisava manter ele e Sora ocultos durante o percurso até Fort Nelson. Uma parada na cabana seria o ideal, caso não houvessem Russos por lá, mas como a possibilidade de eles terem tomado ou estarem vigiando o local era alta, seria difícil pegar mais suprimentos por lá.

"Meu nome é Simon Riley." - Ele finalmente falou.

Sora lentamente levantava o rosto, no olhar dele, havia um vazio profundo, nem mesmo as pequenas chamas foram capazes de levar brilho a eles.

"Tenho 38 anos e sou de Manchester." - pontuou secamente enquanto conferia um peixe. - "Não garanto que vamos viver, mas garanto que podemos tentar." - vendo que o peixe estava adequado, ele o entregou a Sora.

"Obrigada." - surpresa e sem saber o que dizer a ele, ela pegou o peixe na mão e deu uma primeira bocada.

Ele retirou o casaco e entregou a ela.

"Você precisa disso mais do que eu."

No casaco, havia o patch da bandeira Canadense e o nome de patente do seu ex-noivo. Alguns minutos se sucederam e ela parou de mastigar, como se aquele item contribuisse para a sua perturbação.

"Tenta dormir um pouco se conseguir." - Ele falou antes de comer o outro peixe que já estava bom.

"Você tem o mesmo tamanho de James." - Ela soltou, como se estivesse dissociando do lugar, da situação precária, o casaco, as roupas, a Cabana, era uma memória boa e ruim ao mesmo tempo.

"Tive sorte então." - comentou.

"Ele era o melhor, até ser morto em uma emboscada. Eles nunca conseguiram retornar com o corpo, ficou perdido no território inimigo na Síria... Deve estar de baixo de alguma duna..." - a ligação do Coronel foi lembrada por ela ao relatar aquele fato, a tristeza e o desespero.

"Sora." - Num impulso, ele agarrou o braço dela. - "Não é o melhor momento." - disse duramente. - "Eu não sei o que houve, mas vamos focar em sair daqui, certo?"

A moça ainda não conseguia olha-lo nos olhos, seus olhos perdiam-se nas chamas, imersos em memórias de coisas que a machucaram demais, e ela se deixou aprisionar, naquele momento, a força que tinha tido durante um ano, parecia ter desaparecido como fumaça.

"Sai dessa." - ele colocou outra mão no ombro dela e a forçou a encará-lo - "Eu preciso da sua ajuda e do seu conhecimento da região."

"Não... Não posso mais fazer nada, talvez eu..."

"Não estou entendendo essa conversa." - dessa vez, ele a apertou mais forte, não a ponto de machucá-la, mas queria que ela reagisse, aos poucos, parecia estar entregando a si mesma e o seu destino. - "Você que nos achem? Que te peguem? Eu encontrei uma mulher morando sozinha aqui no meio do nada e não parece a mesma pessoa que esta na minha frente."

Ele suspirou, balançou a cabeça, talvez estivesse falando demais, mas ele não poderia deixá-la sozinha e nem se quisesse, ele tinha o dever moral de ajudá-la a voltar a si.

"... O que eu quero dizer, é que você parecia forte, e eu acho que você é, pra ter ficado sozinha esse tempo todo aqui." - o seu tom de voz ia se amenizando a medida que falava, e aos poucos, a moça levantava o rosto, e assim que o encontrou, percebeu que ele estava perto demais e virou o rosto.

"Você acha que James iria gostar de tr ver desistir?"

Aquilo foi o suficiente para que ela aos poucos sentisse o sangue ferver, e o coração palpitar. De fato, James a tinha ensinado muito, assim como seu pai, e as memórias de sua morte tinham sido substituídas por momentos felizes com ele, ambos saindo para Caçar naquela mesma região.

"Agora calma, temos nosso alvo, mas como eu te disse da última vez, se não quiser perder a caça da novo por causa de ansiedade... - em suas memórias, James ria baixo, mostrando as covinhas e ficando vermelho pelas baixas temperaduras, naquele dia, usava uma touca verde e um cachecol cinzento que cobria parte do seu rosto - "Só precisa melhorar essa respiração."

Ela balançou a cabeça e a frente deles, um cervo erguia-se imponente, um que eles estavam procurando havia algum tempo alguns quilômetros dali. Ela controlou sua respiração, firmou suas mãos na arma e atirou.

"Em cheio, linda." - Ele a abraçou e comemorou a caça da temporada.

"Não."

"Ótimo." - ele se afastou bruscamente dela. - "Tenta dormir um pouco, eu vou ficar de vigia."

"Podemos revezar."

"Não se preocupe, eu também estou sem sono... "

Sora apenas concordou com seu silêncio e durante aquela noite, Simon ficou vigilante como uma coruja.

Wolf and RavenHistórias para pegar e não largar. Descubra agora