19. Wolf

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Era uma subida dura que Simon enfrentava, mas ele já havia vivenciado situações muito semelhantes àquela antes, então, não era um novo território, porém, tinha o ponto fora da curva, uma pessoa que ele se afeiçoou. Ele não tinha consciência do sentimento, seu bloqueio emocional era tão grande, suas feridas e traumas eram jogados para um canto escuro da sua mente que ele nem percebia que os mínimos gestos de humanidade que Sora demonstrou, abririam uma fresta que permitira a entrada de um pouco de luz naquela câmara escura que tinha se tornado sua mente. Durante o percurso, o vento se intensificava, e ele se agarrava ao casaco e a arma com força, levantava uma perna de cada vez, pesadamente, por conta da neve que ia se acumulando aos poucos sobre seus pés. Sua respiração, ofegante, descompassada pelo ritmo rápido que ele  impunha sobre ele mesmo, fez com que ele sentisse uma pontada desconfortável no diafragma.

Ele tentou ignorar a dor, que em comparação com outras dores que já havia sentido antes, era mínima. Os flocos de neve se amontoavam sobre sua máscara e seus cílios e em um momento, tudo ficou claro demais, o que o fazia apertar os olhos e limpá-los de tempos em tempos. A sua frente, uma presença se levantava. Ele parou e sentiu a descarga de Adrenalina ser enviada para cada membro do seu corpo que enrijecia. A imagem era toda branca, e se mesclava com a neve, exceto pelos olhos negros que o encaravam. 

Os pelos brancos do animal balançavam-se contra o vento, e ele, não demonstrou estar amedrontado, ou na intenção de atacá-lo. O lobo, só ficou por um tempo fitando-o e Simon, aos poucos foi ficando mais relaxado, ele também não sentiu nada a não ser uma certa indiferença no ar. O lobo, fazia sua rotineira patrulha pelo seu território e o encontrou. Simon notou que no focinho e corpo do animal, faltava um pouco de pelagem, em detrimento de possíveis lutas do passado. O animal, expirou uma fumaça branca pelas narinas piscou os olhos lentamente e tomou seu caminho contrário e desapareceu.

Simon não se demorou e nem pensou muito a respeito da sincronicidade do encontro, ajeitou a arma, e continuou seu caminho rumo à Cabana.

Assim, depois de uma longa caminhada novamente, ele retornou e encontrou as estruturas ainda queimando em brasa e o choque foi inevitável. Parte do telhado havia desmoronado e as paredes estavam a beira de colapsarem. Apesar de ser arriscado ainda entrar no local e ter o risco de que o restante da estrutura caísse sobre ele, ele tinha que verificar se as armas estavam lá ainda. Adentrou, cautelosamente pela porta da frente, ou o que havia restado dela e por dentro, tudo estava destruído, itens de cozinha caídos no chão, ervas e restante de condimentos inutilizáveis, cadeiras e mesas jogadas para o lado e na sala de estar a frente da fogueira, o sofá e a poltrona totalmente corroídos e negros pelas chamas. Naquele mesmo sofá, ele viu o livro que estava meio comido pelas chamas, que não havia terminado, e a memória de ter ficado deitado e entediado ali, veio assim que tocou no livro. Ao lado dele, as várias fotos de Sora e de sua família, estavam parcialmente ou totalmente destruídas. Simon, abaixou-se e coletou uma do chão, onde apenas a imagem da moça havia sobrevivido e a colocou no bolso da jaqueta por instinto. 

Algo dentro dele despertou: tristeza genuína. Ele não lutou com aquele sentimento como provavelmente tentaria lutar em outra ocasião. Ele seguiu pelo corredor em ruínas e encontrou no final dele, o tapete que cobria o alçapão quase todo destruído pelo fogo. Com o pé, afastou-o e o levantou. Lá em baixo, o breu novamente. Como da última vez adentrou no arsenal, como se estivesse entrando em território inimigo. No final, tentou ligar o interruptor, mesmo sabendo que seria inútil e ligou a lanterna, tudo impecável. Andava cautelosamente, estudando quais mais tipos de armas ele poderia levar, pois era apenas ele contra não sabia mais quantos homens e ainda não sabia como seria a base inimiga, se havia mais segurança e se seria possível de fato tirar Sora de lá, se por sorte estivesse viva. Ele lançou o feixe de luz para o final da sala, ao redor de todas as armas, ela estava lá, imponente, resistente contra o tempo, o rifle de longa distância. "The Terror."

Wolf and RavenHistórias para pegar e não largar. Descubra agora