A chuva ficava cada vez mais forte o que preocupava Sora, ela tinha um horário a cumprir com o cliente em Fort Nelson e enquanto isso, preservava a mercadoria na geladeira, ela sabia que não poderia demorar muito, o uso delas seria imediato e qualquer atraso seria um dia a menos no frescor das trufas. Ela estava sentada na poltrona grande e vermelha em que seu pai costumava ficar enquanto lia seus livros a frente da lareira, ela batia o pé em ansiedade e cruzava as mãos na frente do rosto.
Simon estava sentado no sofá e silenciosamente observava os movimentos do pé da garota e esboçou um sorriso de canto de boca, era mais uma mulher ansiosa que topava e logo o sorriso desapareceu, com a mínima lembrança da mulher de seus sonhos. Assim como Sora, ele tinha perdido alguém, mas assim que lembrou-se, focou sua atenção de volta à leitura. Ele não era um homem ignorante, apesar de ter sido calejado pelos anos na SAS lidando com as piores situações e vivenciando as piores atrocidades, ele tinha suas leituras favoritas e seus passatempos modestos quando estava sozinho, e isso era frequente em seus momentos de folga. Estar naquela situação e não poder fazer nada a não ser ler todos os livros que Sora tivesse a sua disposição não era exatamente o que ele estava pensando até a sua recuperação, ele poderia ir a Fort Nelson, e buscar reforços, mas e Sora? Ele em parte não poderia deixar a moça sozinha, não quando tinha uma guerra secreta acontecendo.
"Eu vou até a cidade, eu não posso ficar esperando essa chuva passar."
"Tem certeza?" - ele esperou alguns segundos para respondê-la e levantou a sobrancelha por trás do pesado livro de capa dura.
"Se eu deixar essas trufas aqui, a cada minuto eu perco a qualidade delas, e eu não posso me dar ao luxo de perder essa quantidade." - dizia enquanto roia a ponta da unha do dedo indicador. - "Eu não vou demorar. Se precisar de alguma arma, vá até o final do corredor e abra o alçapão."
Simon ficou em estado de alerta, e uma curiosidade começou a crescer dentro dele, assim que a moça saísse, ele iria verificar o que havia naquele lugar, a cada palavra dela, era um mistério que ia sendo revelado, ela já ser filha de um militar de alta patente já era coincidência suficiente. Ele balançou a cabeça em concordância e ela sorriu, mas ainda com as feições preocupadas. Ela voltou a colocar as botas e a capa de chuva.
"Pode ficar tranquilo que eu não me esqueci do rádio." - ela comentou, esboçando um sorriso amarelo, ela realmente não queria nenhum tipo de comunicação, mas agora, era inevitável. - "Eu volto em dois dias."
Simon se manteve impassível quanto a aquela afirmação e só balançou a cabeça novamente. Sora abriu a porta da frente assim que se sentiu pronta pra sair e desceu as escadas de madeira cobertas de limo esverdeado que tomava conta dela e das estruturas externas da casa, o que era mais um problema a ser resolvido. Ela virou-se para a esquerda e acelerou o passo sobre as pedrinhas abaixo dos seus pés, mas com cuidado para não escorregar. no andar de baixo, havia um vão abaixo da construção sustentada por pilares de madeira que também não se encontravam na melhor das condições e lá estava sua oficina e a caminhonete Ford D20 que tinha herdado do seu pai e que precisava urgente de manutenção.
"Eu não posso deixar essas coisas assim." - pensou consigo mesma enquanto ia até um armário, abriu a portinhola e retirou o rádio empoeirado, ele era relativamente pesado, mas não teve problema para carregá-lo, o deixou no pé do banco ao lado do motorista e depois pegou a cesta de trufas e as deixou no banco do passageiro. Deu a primeira partida no carro, não pegou, a segunda também não, a terceira ela deu um tapa no volante com a mão esquerda com uma certa frustração e a caminhonete pegou.
"É só o frio." - pensou tentando se consolar de estar com a caminhonete naquele estado, era algo a se providenciar enquanto estivesse em Fort Nelson.
Assim que o carro ligou, ela foi dando a ré cuidadosamente até sair da garagem, e assim, se colocou no seu caminho secreto para fora da floresta.
Dentro da cabana, Simon não se impressionou com a demora do carro ligar, assim como a casa, Sora parecia ter esquecido de dar manutenção no seu veículo também, o que o fez balançar a cabeça em desaprovação com o que julgava ser de imensa irresponsabilidade.
"A mulher tocou o foda-se pra tudo." - pensou enquanto olhava ao seu redor.
De repente talvez não tenha sido uma boa ideia ele ter ficado lá, poderia ter ligado o "foda-se" também e pedido uma extração, mas no fundo, ele se importava o mínimo com a mulher que o salvou e de qualquer forma, caso aparecesse alguém na propriedade, presença de homem ali ajudaria Sora no futuro.
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Era manhã seguinte e ele já se sentia bem para se movimentar, limpava seus ferimentos e tomava as medicações de forma correta, e esperava que no próximo dia, já estivesse bom o suficiente para mapear a região. Dentro da cabana, além dos livros, era tensão e tédio. Observava as fotografias de Sora e continuava ler seu imenso volume de Alexandre Dumas. A história de vingança de um homem que foi traído e em parte ler aquilo, era como abrir uma velha ferida e ele pensou em como ele tivera que ir ler justamente esse livro, que ele já tinha ouvido falar da história, mas suas preferências se resumiam em autores Ingleses e Russos enquanto não demonstrou interesse.
Simon de repente se lembrou do alçapão e talvez fosse um bom momento de verificar o que Sora possuída de armamento, ele já tinha tudo em mente, um discurso sobre como ela não tinha cuidado nenhum sobre sua vida e a falta de qualquer defesa efetiva e comunicações era algo irresponsável. Ele cambaleava até o final do corredor quando viu a porta de madeira bem delimitada no piso. Ele a encarou, e puxou a alavanca,levantou-a e de deparou com uma escada de metal até bem conservada, o que destoava de todo o resto da edificação. Avaliou por alto e julgou seguro para descer e assim o fez, ao final das escadas, havia um interruptor, e assim que ele o ligou, as luzes de Led foram ligando no teto uma a uma, piscando forte até sua completa e estável iluminação. A cada lâmpada ligada, era uma estante de armas que ia sendo revelada, o que o fez ficar de queixo caído com tamanho arsenal. Foram cinco luzes de Led ligadas, o que revelou uma sala de formato retangular de paredes pretas de concreto.
"Puta merda." - ele balbuciou, realmente não era algo que ele esperava encontrar em uma cabana semiacabada no meio de uma floresta de difícil acesso no meio do Canadá.
O pai e o namorado de Sora eram militares, e ambos tinham deixado uma extensa coleção de armas que tinham juntado ao longo dos anos de apreensão e interceptação de traficantes de armas e drogas pelo Canadá,Estados Unidos e México. Acima de cada estante, havia a cabeça de alguns animais como cervos e alces e no final da sala, a de um urso e abaixo da prateleira, uma arma refinada de tiro a longa distância. Simon cambaleava e impressionado com a organização da coleção, não havia poeira em nenhuma arma e nem no piso, o local era mantido organizado de maneira sistemática. Abaixo da arma de tiro de longa distância, estava cravado em laser o escrito "The Terror, Campbell, J." Ele arregalou os olhos e ali descobriu a função do ex namorado de Sora. Um atirador de elite, e a sua principal arma.
Aquilo não era brincadeira, era um modelo para atiradores experientes, não era qualquer um, até onde ele sabia pelo modelo, que poderia facilmente manipulá-la. Bom, apesar de ser impressionante, e talvez até um pouco exagerado para oficiais Canadenses, ele ficou mais tranquilo de saber que se houvesse uma investida dos Terroristas, ele e Sora teriam como planejar uma defesa. Ele esperava que não viesse a acontecer aquilo. A sala possuía uma frieza quase que hospitalar e ele sentiu calafrios correrem por sua espinha, até que decidiu parar de inspecionar as armas que mais lhe agradavam e subir, antes, pegou uma semiautomática, munições e uma pistola e subiu, apagou o interruptor e no final das escadas, as deixou no chão, e fechou o alçapão.
Ele fez todo esse movimento rapidamente, com a ansiedade de não deixar a casa sem ninguém para vigiá-la.
A noite, deixou as luzes apagadas e apenas a lareira acesa, a chuva estava cessando, o que o deixava mais tranquilo a respeito da volta de Sora. Fez um caldo de legumes, Bacon e alguns pedaços de carne e sentou-se a mesa, pegou um pão que já estava ficando meio duro, que Sora tinha feito na manhã anterior e que foi suficiente para saciá-lo. Após o jantar, seria mais uma noite de sono cortado, a atenção e a tensão antes de dormir eram coisas que ele já tinha se acostumado, era algo que por anos o manteve vivo.
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Wolf and Raven
Science FictionSimon Riley, em uma missão juntamente com Soap e uma equipe de seis soldados, são emboscados em uma operação no estado de British Columbia, no Canadá. Sozinho e ferido no meio de uma densa e sombria floresta, ele está quase a ponto de desistir de su...
