Sentada na varanda de sua casa, Walkiria tentava absorver o festival de emoções que acabara de viver. Tentava encontrar um fio condutor, para daí chegar a uma conclusão, mas nada parecia seguir uma sequência lógica. Só sabia sorrir, rir e querer mais...havia alguma lógica naquilo? Se parasse de racionalizar, talvez...
Sua mente controladora gritava que não sabia muito de Nahima, mas sabia alguma coisa concreta das outras pessoas com as quais tinha se relacionado? Sabia que Dália às vezes era negligente, pouco séria com o trabalho, mas o que ela sentia? Nunca tinha parado para pensar em coisas mais profundas. A relação não exigia...Dália queria diversão e ela também. Pelo menos era o que achava até o último término em que fora acusada de coisas que não cabiam em relações passageiras. E ela só entendia de relações passageiras. A relação com Nahima era mais do que passageira, duraria dias...se tanto...
—Que relação? Nem sei o que é isso...ah, mas eu gosto...- E ria das suas conjecturas.
Era leve estar com ela e ao mesmo tempo, acarretava um vendaval de emoções às quais não estava habituada a lidar. Não queria pensar, não tinha tempo para muitas viagens mentais...precisava aproveitar os dias que ainda tinha disponíveis. Sem planos, sem racionalizar nada, apenas viver. Custava, mas com algum esforço já conseguia apenas seguir no fluxo dos dias...era isso ou nada, e queria tudo. Imersa nos seus pensamentos desconexos, ouviu um latido familiar. Abriu um largo sorriso e os braços para acolher Zuri.
—Ei, tu ainda lembras que sou tua dona? Estás cheiroso...Hmmm Diana andou fazendo seus milagres com esse cão fujão. – E beijava o cachorro que se embrulhava nela.
Com uma boa disposição de causar inveja ao mais animado dos mortais, passou largos minutos brincando com seu fiel amigo, que aproveitou cada segundo para matar a saudade.
—Zuri, para, ah meu Deus, vou precisar de outro banho. Não achas que vou me apresentar toda suja e descabelada ao staff do hotel. Oh Zuri, e eu que já tinha me aprumado depois da passagem do furacão Nahima...- Riu e o cachorro pulou mais uma vez nas suas pernas.
—Aproveita que estou de bom humor e abuse da minha boa vontade. Sim, Zuri, estou muito feliz...um tanto ou quanto boba, mas para ti eu posso me abrir, não me julgas e nem entendes o que eu digo...- E ria sem parar da fisionomia expectante do cachorro.
—Chega Zuri! Preciso ir ver se o hotel está em ordem. Nem sei como pude largar tudo por tanto tempo...ok, eu sou exagerada, nem foi tanto tempo assim, mas para os meus padrões...- e seguia rindo de si mesma. – Mas a tua Wiki também precisa de outros prazeres...e que prazeres, mas esse assunto não é para a tua alçada. – Ria sem parar.
*****
Com muita satisfação e uma certa sensação de alívio, Walkiria observou que tudo estava na mais perfeita ordem no hotel. Claro que sabia que nenhuma catástrofe aconteceria na sua ausência, confiava em Greta e no staff, mas sua mania de controlar tudo a impedia de simplesmente deixar fluir. Mas já estava bem melhor, a corda do controlo estava mais frouxa...
—Luís, boa noite. Vejo que está tudo calmo por aqui...
—Sim. Tivemos duas excursões, mas todos já regressaram. Alguns já se recolheram e outros saíram para jantar. Tudo controlado. Dona Greta foi embora há pouco tempo e pediu que passasse no escritório para ver correspondência urgente. Ah, dona Wiki, a Diana estava aflita para falar com a senhora, mas não quis telefonar para não incomodar.
—Sim? Algum problema na cozinha?
—Acho que não era nada sobre o hotel...ah não sei muito bem, mas depois ela explica melhor. Se ela não ligou, deve ter resolvido de outra forma.
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Nas brumas do Pico
Roman d'amourAproximando-se dos 30 anos, Walkiria vive uma vida que pode ser considerada de sonho para muita gente. Vive numa ilha paradisíaca, trabalha com o turismo que é a base da economia local e aparentemente não tem problemas. Tudo parece perfeito, menos p...
