Capítulo 23

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Enquanto Walkiria se deliciava na comida que tinha no prato, Nahima perdia-se em devaneios. Claro que lembrava do prazer que ela sentia ao degustar algo bom, mas vê-la ali, tão perto, tão ela, era uma visão encantadora. Não conseguia desviar o olhar e a comida no prato esfriava.

—O que tanto olhas?

— Ah, é tão bom ver-te comer, o prazer que sentes é...

—Incontrolável! - Risos. – Sou faminta e não resisto a um bom prato e hás-de convir, que delicia esse arroz de polvo.

—Hum-hum...- E sorria perdida na imagem dela.

—E como é que tu sabes? O teu prato está intacto...olha a desfeita à Diana.

Risos.

—Jamais faria isso...é que ver-te comer é um espetáculo á parte. Sentes tanto prazer...

—Sim...comida é meu melhor vício...

—Só perde para o trabalho.

Riram muito.

—Lembrei-me agora de uma conversa com a minha mãe...estive com ela há pouco tempo na Alemanha. Ela cozinha tão bem, e passávamos horas na varanda, entre pratos, vinhos e muita conversa. Ela sempre me dizia, ah minha filha, só a boa comida para te desviar dos compromissos profissionais e sem culpa. Um pouco de exagero...mas é claro que tu és da turma da dona Filomena...

Risos.

—Sou...

—Adivinha porquê que sou assim? Eu cresci ao lado de uma mãe que não desviava um milímetro dos seus objetivos, sempre muito focada. Ela tinha medo de falhar, afinal, eu já não tinha pai...acho que o medo de falhar tornou-a um pouco obsessiva...ela percebe isso hoje em dia, e de forma subtil, me alerta para não seguir pelo mesmo caminho...

—Pelo que entendi, ela está mais leve...

—Bem mais leve, ela é outra pessoa. O marido dela operou um verdadeiro milagre ao conquistá-la. Ela viveu boa parte da vida presa num extremo...mas sempre há tempo para tentar um equilíbrio...eu gosto dessa nova versão dela, mas aprendi muito com a outra...

—Pensa que pode haver lições maravilhosas nessa nova versão da tua mãe...

— Agora, ela sugere que eu seja diferente. Eu não acho que preciso ser diferente. Eu gosto do meu trabalho, quero o melhor para o meu negócio e isso exige dedicação total, ainda mais no meu ramo...

—E o que diz a sábia Filomena?

Risos.

—Que sou exagerada, que meus melhores anos estão a passar, que a vida não se resume a trabalho.

—E tu, não concordas com a opinião dela. Estou certa?

Walkiria respirou fundo e bateu com os ombros. Nahima manteve o olhar preso nela, claramente á espera de uma resposta. O olhar era expectante, doce...

—Ela me ensinou a ser assim, eu sempre vi minha mãe lutar pelo nosso sustento sem permitir desvios. – Desabafou com olhar preso em Nahima.

—Tu já não precisas lutar pelo sustento...- Disse num tom baixo. Sorrindo.

Walkiria devolveu o sorriso de forma tímida. Suspirou e olhou fixamente para frente.

—Já falamos demais de mim, e tu? O que te trouxe de volta a Cabo Verde? – Mudança estratégica de assunto. Era isso, ou se perdia...

—Ahhh...- Foi a vez de Nahima suspirar profundamente. Encarou-a mais uma vez, cheia de convicção. – Sinto que ainda posso ser útil...sinto que deixei pendências e não gosto de pontas soltas...

Nas brumas do PicoOnde histórias criam vida. Descubra agora