Nos dias que se seguiram ao episódio em que Walkiria foi confrontada com o ciúme, sentimento que jurava não pertencer ao seu repertório comportamental, registou-se uma espécie de explosão na sua mente, permitindo-lhe viver de forma mais leve. Não criou qualquer objeção, nem mesmo mental, quando Nahima pediu que dormisse na sua casa por duas noites seguidas. Pelo contrário, pareceu-lhe ser o mais sensato a fazer, já que não queria fazer nada diferente. Uma semana em que não dormiram separadas, ora na casa de Nahima, ora no loft. A mente agitada de Walkiria, que tudo precisava racionalizar, encontrava sempre uma lógica para aquela novidade, "Nahima vai embora e preciso aproveitar". Repetia aquela frase vezes sem conta quando não estavam juntas, para esquecer tudo quando a tinha por perto. Nesses momentos, esquecia completamente da razão e entregava-se às emoções que iam da calmaria a rompantes de sensações que nem sequer conhecia os nomes. Era bom. Muito bom. Sentia a vida acontecendo por motivos que extrapolavam a realização profissional. Percebeu-se adotando rotinas que outrora não faziam o menor sentido, e agora eram uma espécie de alicerce para uma obra que sequer sabia que estava a construir. A rotina das conversas longas deitada nas pernas de Nahima ou vice-versa, era sem dúvida a melhor de todas, a mais frutífera.
—Nahima...
—Hmmm...estou acordada.
Riram.
—Eu sei...pela tua respiração. Estava a pensar, sei tão pouco sobre ti...eu sei de ti aqui, mas queria conhecer mais da Nahima que eu não conheci...não sei se faz sentido...
—Faz, embora não haja nada que já não saibas. Essa Nahima que conheces, veio sendo moldada ao longo dos anos...essa sou eu. Mas o que gostarias de saber?
—Ah...tanta coisa. Mas podemos começar a como eras na universidade, por exemplo?
—Excelente aluna! – Nahima provocou sabendo de antemão que não era aquilo que ela queria saber.
Riram juntas. Já se entendiam nesses detalhes...
—Pateta! Ok, vou ser mais especifica: namoravas muito? Eras popular?
—Eu sempre fui festeira, estava sempre à frente das organizações de eventos...sim, era popular, mas ninguém sabia muito da minha vida, do que era realmente importante. Na superfície eu era muito popular, mas poucos me conheciam realmente.
Walkiria pensou que até hoje ela era exatamente assim...de certa forma, aquela característica a encantava...
—Se namorava muito? não...bom, pelo menos não para os meus padrões.
Mais gargalhadas.
—Devo concluir que tinha um namorado por semestre.
Risos altos.
—Não senhora. Muito longe da minha realidade. Namorei dois rapazes antes da faculdade, aos 15 e aos 17. Entrei na faculdade, terminei com o meu então namorado porque ele foi estudar nos Estados Unidos. Na época, aquilo partiu-me o coração. Mas não demorou muito tempo – Risos. - O frenesim da vida académica ressignificou o coração partido em pouco tempo. Houve uma altura em que decidi conhecer pessoas e nesse período, honrei o meu objetivo.
Risos altos.
—Conheceu muita gente...
—Algumas pessoas, até que no início do quarto ano, fui arrebatada pelo Yuran. Nós eramos tão parecidos que cheguei a acreditar que ele tinha sido enviado por algum anjo, por todos os anjos juntos. Ficamos tanto tempo juntos e sem interrupções tão comuns em relacionamentos longevos. O Yuran tinha o dom de tirar o melhor de mim, de me incentivar a ser cada vez melhor em qualquer coisa a que me propunha. Tínhamos sonhos comuns...pelo menos era o que parecia. Nos primeiros anos do nosso casamento, tudo funcionou da melhor forma. Um servia como estepe do outro e lá íamos nós construindo nosso mundo. Era muito boa a nossa convivência, eramos muito amigos e nos dávamos bem na cama. Parecia ser a equação perfeita, a receita certa para o sucesso.
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Nas brumas do Pico
RomanceAproximando-se dos 30 anos, Walkiria vive uma vida que pode ser considerada de sonho para muita gente. Vive numa ilha paradisíaca, trabalha com o turismo que é a base da economia local e aparentemente não tem problemas. Tudo parece perfeito, menos p...
