Capítulo 31

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O tempo e o convívio diário no mesmo espaço, serviram para desmistificar muitos medos que durante muito tempo quase paralisaram Walkiria. Os medos e as certezas de que os mesmos tinham fundamento, construíram uma mulher esquiva e muitas vezes avaliada como fria. A vida ao lado de Nahima era tão leve, que as crenças eram derrubadas quase que de forma impercetível. Walkiria, muitas vezes, apenas percebia que alguma coisa estava diferente, pelas observações quase sempre carregadas de bom humor da sócia. Greta a conhecia tão bem e, por isso mesmo, reconhecia a versão melhorada que se apresentava à medida que ela ia se permitindo viver novas experiências. Partilhar o espaço era com certeza uma grande experiência. O bicho de sete cabeças só existia na sua mente fixa. Claro que a convivência trazia alguns desafios, ainda mais por serem mulheres de temperamentos diferentes, mas a cada obstáculo contornado, a sensação de amadurecimento, era o coroar de certezas cada vez mais fundamentadas. Walkiria tinha tanto prazer em voltar para casa, que passou a adotar um ritual secreto. Antes de entrar, sacudia-se toda, deixando qualquer carga desnecessária do lado de fora do seu templo de amor, para daí entrar leve. A receção era sempre comparada a uma lufada de ar fresco, pôr do sol na pele, suspiro de esperança e nisso os dias iam passando num ritmo até então desconhecido, mas com certeza, muito apreciado.

Na cadência dos dias, o fim de ano se aproximava. Que ano!

*****

Ainda que estivesse bastante compenetrada no trabalho, Nahima não conseguiu abstrair-se da algazarra que seu cachorro fazia do lado de fora. Alongando os braços e pescoço, tentou ver através da janela o que acontecia lá fora, mas o angulo não era dos melhores, já que parecia que zumba estava à porta de casa. Sorrindo, levantou-se, alongou as pernas, suspirou e foi abrir a porta. Levou um valente susto ao encontrar Walkiria fazendo alguns movimentos como quem tentava se livrar de alguma coisa.

—Ah, não acredito que não consegui surpreender-te. - Wiki dramatizou.

Nahima riu alto ao mesmo tempo que a acolhia num abraço apertado. As bocas avidamente se encontraram numa sucessão de beijos.

—Hmmm, acho que preciso fazer isso mais vezes. Meu stress da manhã lá no hotel evaporou-se. - Riram na boca uma da outra.

—Meu amor, o que te trouxe a casa a essa hora? – Nahima sorria completamente feliz com a surpresa.

Antes que Walkiria pudesse responder, elas tiveram que se equilibrar para não cair, tamanha era a festa que os cachorros faziam tentando pular nelas.

—Vês esse mundano? Agora ele passa mais tempo em casa do que perambulando por essas montanhas. – Walkiria agachou-se para apertar zuri.

—Essa atitude tem um nome, ciúme.

Riram alto.

—Ele sabe que não é mais rei absoluto e quer marcar seu território. – Riram enquanto Wiki fazia carinhos em zuri.

—Wiki, não te esperava tão cedo e não tem nada para comer. Além disso, estive à procura de alguns documentos e deixei uma bagunça por onde andei...já sabes como sou. – Fez uma careta arrancando mais uma risada de Walkiria.

—Metade dessa frase é puro exagero. A senhora costuma desarrumar as coisas quando está aflita atrás de algum objeto, mas tem a maravilhosa mania de ir arrumando tudo em sequência. - Wiki riu entrando em casa. - Onde está o tsunami, Nahima? Exagerada! – Mais gargalhadas.

—Não almocei ainda. Comi frutas e bebei muita água...já sabes como fico quando estou entusiasmada com um projeto...

—Sei, e depois a maníaca por trabalho sou eu. – Riram abraçadas.

Nas brumas do PicoOnde histórias criam vida. Descubra agora