Vencendo a preguiça, Nahima finalmente abriu os olhos e espreguiçou rodando o corpo de uma ponta à outra da cama. Com uma sensação de desalento, notou que estava sozinha. Rolou para o lado que Walkiria tinha ocupado, e sorrindo, abraçou o travesseiro. Cheirou-o inúmeras vezes e entregou-se às melhores lembranças. Um lado seu que não reconhecia muito bem, experimentava desapontamento por ter acordado sozinha, mas um outro e esse sim, facilmente identificável, estava feliz pelas horas memoráveis que tinham passado juntas. Estava mais feliz ainda pela iniciativa ter partido dela. Num impulso sentou-se na cama e desatou a rir.
—Ela me confunde, desafia, tira do eixo, me faz delirar de felicidade e eu só quero mais. Nahima...Nahima onde terá parado o teu juízo? - E continuava a rir de si mesma.
Apesar da mania de sempre ver o copo meio cheio, tinha uma pontinha de insegurança que não lhe era muito comum, tentando enevoar seus pensamentos. Não entendia muito bem como funcionava a cabeça de Walkiria e muito menos o que ela sentia. Não era doida e nem cega para não perceber que elas tinham uma conexão boa, mas queria mais. Queria entendê-la ao pormenor e saber o que esperar. Essa constatação a deixava com uma sensação de angústia porque não se lembrava assim, vivia as situações e ponto. Com Walkiria era diferente. Walkiria era muito diferente e não era apenas por ser uma mulher. Ela tinha camadas, nuances que intrigavam e instigavam. Suas ações muitas vezes a confundiam, mas o olhar esclarecia tudo, ou pelo menos o que realmente importava.
—Mais tarde vou ao hotel...tenho trabalho a fazer. Hum-hum, e ela daqui a pouco vai me achar uma carente que não consegue se contentar com um jantar divino e uma noite inesquecível. Juntas. JUNTAS!!! – E ria sem parar.
—Ah, mas nem vai levantar suspeitas da minha condição de louca apaixonada, afinal, vou passar uma semana hibernada no trabalho. E ela também gosta de estar comigo...claro que gosta, daquela forma que me deixa confusa e vulnerável, mas eu sei que ela gosta...
Pulou da cama com a nítida sensação de estar pisando nas nuvens e foi lavar o rosto antes de sair para preparar o seu café. Estava com fome, de comida e de vida.
*****
Nahima olhou para todos os lados de sua casa à procura de uma explicação para o que via à sua frente. A explicação, claro, seria a presença de Walkiria em algum canto daquele lar. Mas dela nem sinal. Olhou embevecida para a mesa perfeita de café da manhã. Absolutamente tudo o que gostava, mas o que chamou ainda mais a sua atenção foi o esmero, tinha até um vaso com flores frescas e coloridas. Sem saber se sentava para comer, ou procurava por Walkiria, decidiu correr até à porta de entrada e abri-la sem muito estardalhaço. Tinha medo de não ter ninguém do lado de fora. Walkiria era imprevisível e tinha verdadeira fixação pelo hotel.
—Ela jantou comigo...dormiu aqui. Que mais posso querer? – Devaneou encostada à porta.
Abriu-a e experimentou coisas novas e muito potentes. Walkiria, lia sentada na cadeira de balanço. Ela não tinha ido embora. Estava tranquila, e lia serenamente. Estava à espera, sem pressa, despida da sensação de que o mundo precisava de sua ação em algum lugar.
Nahima respirou fundo e engoliu uma sensação de choro que insistia em tolher-lhe o pensamento conexo. Obedecendo à sua alma impulsiva, andou depressa para junto de Walkiria. Por trás da cadeira de balanço, beijou-lhe a testa deixando-se demorar no carinho.
—Bom dia! – Walkiria sorriu e Nahima sentou ao seu lado, grudando os corpos.
—Bom dia! Pensei que não estavas mais aqui...que bom que me surpreendeste.
—Nem vou retrucar porque tens razão. Estou sempre na correria e com mil demandas na minha cabeça. Mas hoje, quis agir de forma diferente. Tentando colocar em prática os vossos conselhos.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Nas brumas do Pico
RomanceAproximando-se dos 30 anos, Walkiria vive uma vida que pode ser considerada de sonho para muita gente. Vive numa ilha paradisíaca, trabalha com o turismo que é a base da economia local e aparentemente não tem problemas. Tudo parece perfeito, menos p...
