Walkiria corria velozmente de volta ao hotel, depois de uma sessão de mais de uma hora, Serra acima. Estava tão empenhada em aliviar a mente, que atingiu o Pico em impressionantes 25 minutos. Entrou no hotel ainda correndo e num primeiro impulso encaminhou-se para a cozinha. A meio do trajeto, mudou de ideia. Diana já tinha dito que dava conta sozinha e ela precisava se libertar daquela responsabilidade. Nahima diria que era controlo. Riu ao lembrar das palavras dela e no fundo, tinha razão. Precisava abrir mão do controle e não era apenas da cozinha da Diana. Mas, uma coisa de cada vez. Absorveu o cheiro maravilhoso que invadia os ares do hotel e sorrindo, dirigiu-se ao Loft.
Depois de curto treino de cardio com a ajuda do seu saco de boxe, estirou-se no chão, completamente esgotada. Seu corpo gritava por um alongamento, ou uma massagem profunda, mas o que ganhou foi uma quantidade infinita de lambidas de seu cachorro.
—Ei, mas quem é vivo, sempre aparece. Saudades tuas, seu fujão. - Sentou no chão de madeira e encheu o cão de afeto. – Hoje não apareceste para me acompanhar na subida. Perdeste o espetáculo do nascer do sol.
Ficou abraçada ao cachorro apreciando as primeiras horas da manhã no seu refúgio. Era tão bom viver ali. Tinhas poucas certezas na vida, mas com certeza, viver naquele pedaço de chão para sempre, era uma delas. Zuri latiu como se tivesse lido o seu pensamento e concordasse.
—Eu tenho uma certa inveja de ti, Zuri. Tu és livre, fazes o que queres, vais e voltas quando queres, não dás satisfações a ninguém e eu te amo incondicionalmente.
Zuri latiu e ambos passaram a admirar a beleza estonteante do amanhecer por ali. O silêncio só era quebrado pelos sons da natureza, o chilrear dos pássaros, a dança das folhas das árvores e a brisa suave da manhã.
Walkiria suspirou profundamente e olhou para o seu cachorro que parecia expectante.
—O que foi, curioso? Bom, se calhar nem estás curioso e eu que preciso desabafar. – Riu. – Era só o que me faltava. Não sei o que essa mulher tem, mas ela seduz sem esforço. Acho que ela seduz apenas por existir...e eu devo estar doida, mais doida ainda...
Zuri levantou uma das orelhas e inclinou a cabeça para um dos lados, arrancando mais uma risada de Walkiria.
—Curioso! Mas eu vou contar antes que exploda com toda essa tensão. Ela é doida Zuri, pior do que eu. Ela me beijou, ou fui eu? Nem sei mais...ela me pegou e...porra que pegada que essa mulher tem, meu Deus. Ainda bem que de vez em quando sou atacada por uma certa covardia e sai de lá correndo como uma adolescente assustada. Analisando bem, fui uma idiota, mas essa atitude insensata me salvou de uma loucura sem precedentes. Minha vontade era...sem comentários e tu não podes ouvir essas coisas. – Riu mais uma vez.
Zuri encarou-a mais uma vez como quem esperava uma conclusão do relato.
—O quê? Sim, ela é linda...lindíssima. Mas não é isso, eu vejo mulheres lindas aos montes. Sabes um olhar que te acende e te acalma na mesma intensidade? Claro que não sabes, não entendes de humanos. Ela tem alguma coisa que me deixa desnorteada e ao mesmo tempo, querendo mais...mais...ah, deixa isso para lá. Eu devo estar perturbada e inventando filmes na minha cabeça.
Zuri ganiu e fez uma expressão engraçada, arrancando mais uma risada de Walkiria.
—Tua versão fofoqueira eu ainda não conhecia. Vamos trabalhar? Aliás, eu vou trabalhar e tu vais correr solto por aí. Que inveja! Hoje tenho reuniões chatas na cidade, haja coragem, foco e paciência.
*****
O final da tarde na serra era sempre um momento de paz e foi exatamente isso que Walkiria experimentou ao desligar a sua moto. Não obstante, o esgotamento mental causado pela sucessão de reuniões, sem que definições tivessem ficado muito claras, voltar para casa era revigorante. Como sempre, olhava com orgulho e satisfação para a obra que construíra com tanto esforço e dedicação, e repetia a si mesma que lutaria até às últimas forças para manter aquele lugar de pé. Não se tratava apenas de um empreendimento, era um pedaço dela, um pedaço forte de sua alma que pulsava ali.
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Nas brumas do Pico
RomantizmAproximando-se dos 30 anos, Walkiria vive uma vida que pode ser considerada de sonho para muita gente. Vive numa ilha paradisíaca, trabalha com o turismo que é a base da economia local e aparentemente não tem problemas. Tudo parece perfeito, menos p...
