Sentada no avião, e faltando ainda algumas horas para a aterragem, Walkiria se ressentia de saudades da mãe, ao mesmo tempo em que refletia sobre as inúmeras conversas que tiveram nas duas semanas em que estivera de visita na Alemanha. Era tão bom estar com a mãe. Agora, tudo era sempre tão leve. Não fora sempre assim. Depois da morte repentina do pai, as duas tiveram que se reinventar. A mãe, de forma mais consciente e ela, quase que compulsoriamente para amenizar o desconforto de sua progenitora. Tudo mudou. Num dia eram uma família de classe média feliz e tranquila, e no outro, escuridão. Dúvidas, dívidas, descontrolo e ela por ali, uma criança de 12 anos, que pouco ou nada entendia. Teve que entender coisas de adultos muito antes da hora certa. Elas passaram a se bastar. Uma era o amparo da outra, sempre. Sua mãe vivia por ela, tudo era em função de assegurar que nada lhe faltava. Mais tarde, já adulta, percebeu que sua mãe parou de existir enquanto mulher para que ela pudesse florescer. Ela trabalhava arduamente e era isso. Tinha que honrar dívidas, custear o sustento delas e rezar para que nenhuma outra desgraça se abatesse sobre a pequena família. Pelas suas vagas lembranças, pairava o episódio de um namorado que a mãe arranjou, tinha ela seus 15 anos. Foi o único até ela ser efetivamente adulta. O homem queria a mulher, mas não uma mãe com uma filha adolescente. Queria sair com ela pelo mundo, conhecendo, desbravando, sem amarras. Filomena e suas convicções, jamais se deslumbrou. Sua responsabilidade era a filha e suas contas pagas. Amores, se estivessem nos planos da vida, viriam depois...
E assim foi por muito anos, primeiro os deveres, as responsabilidades, e depois os prazeres. Walkiria aprendeu muito bem e se vangloriava disso.
Saudades da mãe. Saudades da versão mais leve dela. Sim, aprendera a gostar também dessa versão. Apesar das saudades, era muito bom a volta para casa, para a sua vida tranquila e sem sobressaltos.
*****
Mais um dia em que Walkiria obedeceu à sua rotina diária sem desviar um centímetro. Correra logo cedo, praticara boxe, seguido de 15 minutos de yoga na sua varanda e um pouco mais tarde, deliciara-se com um bom pequeno-almoço com as delícias de Diana.
Pouco antes das 9 da manhã, já estava sentada no escritório, para mais um dia de foco total nos seus objetivos. Era essa a intenção, mas a mente não obedecia e os efeitos já eram sentidos no corpo. Estava agitada, sem concentração e com palpitações desconfortáveis. Já abrira e fechara a porta do escritório inúmeras vezes, como se lá fora existisse algo que lhe devolvesse a paz. Ainda bem que estava sozinha. Por onde andaria Greta? Só a vira mais cedo no briefing e depois nem sinal. Talvez estivesse fora do hotel resolvendo alguma pendência. Talvez até fosse algo planeado, mas não lembrava de nada. De repente, tudo parecia confuso. Não havia razão para tal, mas a instabilidade emocional gritava e fazia eco no seu corpo. Perto das duas da tarde, depois do almoço que não comeu, decidiu sair sem rumo. Nem tanto, pois usava um biquíni, logo, em algum momento o impulso a levaria ao mar.
—Ei, onde vais com tanta pressa? – perguntou Greta perto da saída do hotel.
—Mulher, onde estavas? Cansei de te procurar pelo hotel...
—O telefone ainda serve para localizar as pessoas.
Riram.
—Acreditas que não me ocorreu...
—Está tudo bem?
—Estou um pouco fora do eixo e não sei a razão. Vou tentar abstrair por aí...
—Aconteceu alguma coisa? O hotel?
—Com o hotel está tudo certo. Eu que não amanheci muito bem...estou ansiosa e antes que perguntes, sigo firme na terapia.
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Nas brumas do Pico
RomanceAproximando-se dos 30 anos, Walkiria vive uma vida que pode ser considerada de sonho para muita gente. Vive numa ilha paradisíaca, trabalha com o turismo que é a base da economia local e aparentemente não tem problemas. Tudo parece perfeito, menos p...
