Capítulo 19 - Sombra

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Dia seguinte:

Acordo com uma dor de cabeça do caralho, depois da confusão com a Tamara, e a loira ter se afastado de mim, eu bebi e cheirei mais do que o normal, mas não por raiva da Tamara, raiva por que a loirinha não quis mais saber de mim.

Ela é foda, é uma mina legal, cheia de vida, cheia de meta, e eu? Sou só um traficante, que tem mais dinheiro que precisa, mas que não tem ninguém. Por fora sou o cara que todo mundo respeita e que manda na favela. Mas por dentro só quero aquela mulher, puta que pariu viu ...

Olho a hora no celular, e me assusto ao ver que já são 15:47, me levanto tomo um remédio e vou tomar banho. Moro numa casinha pequena aqui no morro, coincidentemente ou não, é mais próximo da mãe da loirinha.

Minha casa é a típica casa de homem solteiro que não sabe cozinhar: sala, quarto e banheiro, nada de mais. Me arrumo e saio de casa no carro, dirigindo devagar. Passo por algumas ruas até chegar numa rua perto da mãe da loira.

A coroa tá vindo com umas sacolas de mercado, ainda tem umas 4 ruas acima pra poder chegar na dela. Paro o carro do seu lado e ela olha desconfiada. Mas quando me ver abre um pequeno sorriso.

HELENA: Oi Sombra! Tudo bem?

SOMBRA: Tudo de boa, e com você?

HELENA: Tô bem!

SOMBRA: Entra aí que eu te levo!

HELENA: Não precisa, já tá pertinho.

SOMBRA: Que isso rapá, eu levo. Na moralzinha mesmo.

HELENA: Tudo bem! - Ela entra no carro com as sacolas.

SOMBRA: Como tu tá?

HELENA: Tô bem, trabalhando muito.

SOMBRA: Tu e tua filha trabalham demais!

HELENA: É, mas a Bárbara trabalha muito mais do que eu, ela é mais obstinada.

SOMBRA: Saquei!

Chegamos na casa dela, e ela desce.

HELENA: Quer entrar pra lanchar? Tá com cara de quem acabou de acordar e nem comeu ainda.

SOMBRA: Não quero incomodar.

HELENA: Incomoda nada! Bora comer! Ela tá aqui. - Desse jeito ela nem precisa chamar 2 vezes, eu já estacionei o carro e desci.

A coroa mangou da minha cara, se fosse outra pessoa já tinha levado um sacode. Ela abre a porta da casa e sinto o cheiro da loira, antes mesmo de achá-la com meus olhos.

BABI: Mãe, você trouxe o sonho de noiva que eu gosto?

HELENA: E trouxe outra coisa comigo também.

BABI: O quê?

Ela enfim aparece na sala e fica surpresa e assustada ao mesmo tempo, ela abre um pequeno sorriso, e eu me contento com isso...

SOMBRA: Iai Babi!

BABI: Oi Sombra! Tudo bem?

SOMBRA: Sim! - Não!

HELENA: Bora, sentem aqui pra comer.

A mãe dela tinha comprado várias coisas de lanche, e a mesa tava cheia: pão de queijo, pudim, pão de sal, queijo, presunto, bolo e sonho de noiva.

HELENA: Você toma café ou suco Sombra?

SOMBRA: Café! - ela serve em uma xícara e me entrega. - Valeu!

Sentamos os 3 na mesa e a Babi parece chateada com algo. A coroa quem conversou bastante comigo, perguntou sobre minha família, perguntou com quem eu morava e eu conversei com ela, além do TH, ninguém conhece a minha história real.

Mas decido contar pra elas APENAS a história dos meus pais e com que idade assumi o morro.

Meu pai era chefe da comunidade, minha mãe quando conheceu ele era filha do pastor, aí se apaixonaram e minha mãe fugiu de casa. Me teve 1 ano depois, e ela começou a entrar pro movimento, mais do que deveria, me deixava em casa com a mãe do TH que na época era minha babá, e o TH era bebê de colo.

Um dia teve um assalto muito grande pra fazer e minha mãe sismou que iria também. E foi com a tropa, quando chegaram lá era uma armadilha, e os dois morreram. Eu tinha 7 anos na época, o sub do meu pai assumiu, mas quando eu fiz 16 anos, na calada da noite, esperei ele sair da casa da amante dele. E fui seguindo ele, cada passo que ele dava eu dava uma facada.

Ele chegou na frente da boca principal arquejando e falando: Sombra. Uma sombra. Sombra.. até morrer, quando olharam, eu apareci com a faca e minha camisa ensanguentadas, então souberam que tinha sido eu a matá-lo, e pela lei do morro, quando uma pessoa mata o dono da favela, é quem vai governar.

Claro que não falei os detalhes da morte do ex chefe pra elas, por que se não poderiam passar mal ou até mesmo não me querer por perto.

Mas contei o restante, é interessante poder contar tudo pra alguém.

Mas contei o restante, é interessante poder contar tudo pra alguém

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Cria da RocinhaOnde histórias criam vida. Descubra agora