grato por viver

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Já imaginou vários homens juntos em uma casa de rico tentando manter tudo organizado? Pois bem, tente.

Há menos de trinta minutos, os garotos cruzaram as portas de vidro da casa, e, neste momento, tudo parecia um tanto fora de contexto. Chris cozinhava sem roupas, usando apenas um avental de flores para cobrir sua parte da frente. A explicação dele? Estava tentando preparar um ovo mexido para manter a massa muscular e seguir seu plano nutricional. Sentado em uma cadeira giratória branca perto do balcão de mármore marrom que separava a cozinha da sala de jantar, Seungmin concentrava-se na lista de compras, que incluía desde itens diários até sabores de camisinha – algo que, por mais estranho que parecesse, era melhor não discutir em detalhes.

Enquanto isso, Felix mergulhava seus pezinhos delicados na água morna da piscina, fechando os olhos ao som da melodia de "Copacabana Dreams" de Sérgio Mendes que permeava o ambiente. Provavelmente estava meditando ou algo do tipo. Entre todos, o Lee mais novo era o menos caótico. Minho, por sua vez, tentava incessantemente ligar para sua mãe, na esperança de verificar se seus gatinhos estavam saudáveis e se ela conseguia cuidar de seus netinhos felinos. Embora ela tenha criado três filhos maravilhosos, incluindo o adotivo Jeongin, nunca se sabe se ela estaria à altura dos seus netinhos peludos. E falando no mais novo, Jeongin estava... Bem, ele estava enlouquecendo. Desde a chegada, não parava de perambular pela casa em busca de sinal e cabos de internet. Mais um pouco, e ele estaria batendo na porta dos vizinhos pedindo uma esmola de Wi-Fi.

— Terminei a lista de compras. — Seung falou, ciente de que os garotos não o ouviram. Se levantou da cadeira, ainda sem perceber seu namorado nu na cozinha. — Alguém quer carona para o centro? — Seungmin perguntou, vendo Minho se aproximar, agora com o celular desligado após não conseguir contatar sua mãe. Felizmente, ela já sabia que demoraria para a internet ser instalada na casa, então não ficaria tão preocupada com o sumiço dos filhos. Ele enviou uma mensagem, mas foi tudo que conseguiu com seu 4G quase no fim. Ao colocar o celular no balcão, o loiro teve, infelizmente, a visão da bunda malhada de Chris.

PORRA, CHRISTOPHER! — Minho tapou os olhos, constrangido com a visão. Embora já tenha visto Chan nu algumas vezes, essa cena, com ele fazendo ovos mexidos com total tranquilidade, ainda era no mínimo constrangedora. Senhor, como Minho se meteu nisso? Nem mesmo ele sabia.

— CHAN, PELO AMOR DO CRISTO REDENTOR! — Gritou Seung, finalmente notando a presença de seu parceiro ali. O moreno pegou um pano de prato do balcão, lançou-o em direção ao namorado e virou Minho de costas, mesmo com seus olhos fechados e cobertos pelas mãos. — Amor, nós já conversamos várias vezes sobre essa sua mania estranha de andar pelado pelos cantos. Você acha que Minho sou eu pra ficar maravilhado com esse seu popô dos deuses? Esconde isso, macho! — Antes que Chan pudesse se desculpar, Seung puxou os braços de Minho e o levou até lá fora, dizendo que ele iria consigo ao centro. Não houve protestos. Minho já estava querendo ir no mercado de qualquer forma, então nem ia enfrentar a teimosia do amigo.

É estranho como o tempo pode mudar tanto as pessoas. Pode parecer esquisito que Minho esteja colocando os cintos para ir ao outro lado da cidade com seu quase ex, mas ali entre eles não existia nada além de rotina. Minho encontrou Seung pela primeira vez quando tinha dezesseis anos, em uma viagem de verão para o interior de São Paulo com a família dos patrões de sua mãe. Além de Chris, Seung também nasceu com dinheiro de sobra. No começo, eles apenas estavam curtindo como amigos que se atraíam, mas em um dia qualquer na piscina gigantesca do hotel, o Lee virou alguns copos ilegais de Vodka e acabou caindo nos lábios macios de Seung. Não foi ruim, contudo Minho sabia que aquilo não podia acontecer. Seungmin era detesmido, tentador, bonito, mas também muito proibido. Ele tinha cabelos castanhos claros na época e um lindo sorriso de aparelho. Minho ainda não tinha descolorido seus lindos fios morenos, o que lhe deixava com uma aparência de mais velho do que realmente era. Tudo para eles era uma aventura de adolescência. As pegaçoes eram tão frequentes quanto as doses de álcool mais proibidas que aquela relação, mas Minho não ligava, ele queria se sentir realizado. Seungmin não estava muito diferente. Adolescência é tão fútil, né? Infelizmente essa aventura não teve final bom.

Em uma tarde, quando Minho estava acariciando o corpo bronzeado de Seung com beijos e mãos bobas, o senhor Kim apareceu de roupão em busca de seu filho. O Lee odeia lembrar da forma como o mais velho começou a gritar, alarmando toda a casa. Ele os afastou e segurou o filho com tanta força, que ficaram marcas roxas por meses. A senhora Kim chorava desesperadamente, enquanto a senhora Lee abraçava Minho e enxugava suas lagrimas.

Minho não tentou lutar por Seung naquele dia, ele não poderia, a fraqueza e o temor o consumiram por inteiro. Às vezes, no calar da noite, quando seus pensamentos sobre aquela época o perseguem, o Lee sente a mesma culpa que o assombrou por meses. Gostaria de ter ajudado o garoto, mas entende que ele nunca precisou disso, pois sempre foi mais forte que os dois juntos.

O senhor Kim saiu da casa de férias às pressas levando consigo toda a sua família e o clima bom de verão. A mãe de Minho fora demitida no mês seguinte, com alegação de falta de renda na empresa, mesmo que ela soubesse exatamente o motivo. Minho se sente grato pela mãe que tem, ela jamais o culpou e nem apontou o dedo em sua cara por aproveitar das paixões bobas da adolescência. Ela o entendia como ninguém. Minho sempre enxergou muito de sua mãe em Felix e só de pensar nisso lhe surge um sorriso.

Olhando para Seungmin agora, parece que nada em si mudou, mas ao mesmo tempo tudo está diferente. É bom que ele tenha encontrado amor em alguém que complete ele, isso é mais do que Minho poderia esperar.

— Pensando em algo em especial? E esse sorriso ai? — Perguntou o moreno, com os olhos presos no estacionamento do mercado. Ele mudou a marcha e começou a dar ré.

— Acho que estou apenas grato por viver. — Minho olhou pra ele, notando sua expressão suave. Seungmin tinha o presente dos anjos: paz. Ele transparecia tranquilidade, mesmo sendo bruto em alguns momentos. Quando se vive uma vida conturbada, a melhor dádiva que você pode oferecer é trazer paz para os outros. Minho acha que é sua forma de não deixar que as pessoas ao seu redor sintam o peso que ele sentiu por tanto tempo.

— Falou igual Felix agora. — Riu soprado, tentando descontrair e fugir da seriedade das palavras do loiro.

— Gosto disso.

COPACABANA - minsungHistórias para pegar e não largar. Descubra agora