Havia uma chuva bem fraquinha caindo lá fora. O suficiente para esfriar bastante o clima. Encarando o teto eu tentei arranjar um motivo para levantar. Era o sétimo dia. Faz sete dias que meu pai tinha sido enterrado. Meu Shivá tinha terminado. Não sei bem se a religião era algo importante para mim antes do acidente, mas decidi respeitar os sete dias em respeito ao meu pai. Ele parecia ser ligado a origem judaica. Durante esses sete dias eu não conversei com ninguém. Não tomei banho, não liguei e nem atendi telefonemas e eu mal comi. Devo ter perdido unas três quilos todos esses dias.
Em parte eu fiz isso para seguir a tradição, mas eu também não tinha apetite. Fiquei basicamente sete dias trancado no quarto. Kyara deve ter ficado feliz com isso. Ela não parecia gostar muito de mim e me ver praticamente trancado no quarto o dia todo deve ter deixado ela feliz. Ela passava muito tempo na casa de Ralf, mas era compreensível já que eles tinham um relacionamento.
Tive muito o que pensar em todos esses dias. Quando ele estava em casa – durante o dia – eu estava no quarto. Quando saia a noite para comer algo ele não estava. Ele passou as últimas noites na casa de Kyara. Aposto que tirando o atraso de sete anos. Tive muito o que pensar em todos esses dias. O beijo de Ralf tinha mexido em algo dentro de mim. Os pais de Ralf respeitaram bastante minha dor. Durante esses sete dias só saia do quarto de madrugada pois não era permitido ver ninguém durante o luto judaico. Nada de eletrônicos também.
A dor de perder um pai é horrível. Não é natural. Nenhum filho quer viver mais os que os pais. Esse é o momento em minha vida em que eu preciso de muito apoio, mas não tive nenhum. Não que as pessoas á minha volta não se importassem, mas eu preciso de alguém como Ralf. Uma pessoa a qual eu pudesse abraçar e chorar e que apenas ficasse em silêncio, mas Ralf não faria isso. Eu não sei qual é a situação dele. Gay? Hétero? Enrustido? Ele me beijou e se afastou de mim.
Era quinta novamente. Me levantei da cama e to ei meu banho. Depois de sete dias era o que eu mais precisava. Tomei um banho demorado e vesti a melhor roupa que tinha. Passei um perfuma e destranquei a porta do quarto. O relógio marcava pouco mais das oito da manhã então imagino que todos estivessem tomando café da manhã.
Ao abrir a porta do quarto levei um susto. Caminhando em direção ás escadas para descer eu vi um homem estranho. Não era o mesmo do meu sonho, mas eu não o reconhecia. Um homem alto, olhos azuis, cabelos loiros e barba no rosto. Era um homem alto e forte. Ao me ver sair do quarto eu deu um sorriso para mim.
- bom dia – falou o homem para mim.
- bom dia – falei achando aquilo estranho. A voz dele era familiar. Rouca e cansada.
Esperei o homem descer as escadas e em seguida eu fiz o mesmo. Já na sal eu ouvi pessoas conversando na cozinha. Estava com vergonha depois de todos esses dias. Hesitei um pouco. Pensei e voltar para o quarto, mas não podia voltar. Tinha que seguir em frente.
Respirei fundo e caminhei em direção ao cozinha.
- bom dia – falei olhando para a mesa.
Todos responderam e olharam para mim.
- você está melhor? – perguntou uma mulher na mesa.
Meu corpo ficou paralisado. Aquilo era estranho. Haviam quatro pessoas á mesa, mas eu só reconhecia duas delas: Kyara e Randy, o pai de Ralf. À mesa havia uma mulher de cabelos ruivos e o homem de cabelos loiros que vi ao sair do quarto.
- estou sim – respondi para a estranha mulher de cabelos ruivos.
- sente-se Mason – falou Randy apontando para a cadeira ao lado de Kyara.
Me sentei a mesa e fiquei calado. Todos continuaram a tomar o café da manhã em silêncio. Eu peguei um pão de queijo e dei uma mordido e olhei para Randy. Encarei ele por alguns instantes e então desviei o olhar.
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Deus Americano
RomanceApós um grave acidente, Mason perde a memória e se vê lutando para redescobrir sua identidade. À medida que fragmentos sombrios de sua vida passada começam a emergir, ele sente um profundo desprezo pelo homem que costumava ser. Em meio a essa turbul...
