Os dias que se seguiram ao beijo no vestiário foram sufocantes. Eu queria esquecer, apagar da memória o toque inesperado de Nicolo, mas parecia impossível. A maneira como ele me segurou, com uma mistura de raiva e desejo, me desarmava completamente, e isso me deixava ainda mais confusa. Eu tentava a todo custo me afastar, mas ele estava sempre por perto, como se estivesse me cercando, me testando a cada oportunidade.
Desde aquele incidente, eu evitei qualquer situação que pudesse me colocar frente a frente com ele. Meus passos se tornaram calculados e as conversas com Chiara e Roberta eram minha distração. Mas sempre que eu menos esperava, Nicolo aparecia, como uma sombra incômoda, invadindo meus pensamentos.
Naquele dia, estávamos na cafeteria. Roberta falava animada sobre o baile de inverno que a escola organizaria em algumas semanas. Ela estava empolgada com a ideia de comprar um vestido novo, e Chiara já estava especulando quem seria seu par. Eu, no entanto, não conseguia me concentrar no assunto. Meus pensamentos estavam sempre voltando para Nicolo, e isso me deixava irritada comigo mesma.
Enquanto mexia na comida sem fome, senti aquele arrepio familiar. Era como se, antes mesmo de vê-lo, eu soubesse que ele estava por perto. E lá estava Nicolo, atravessando a cafeteria com passos lentos, seu olhar fixo em mim. Meu coração acelerou, mas eu me forcei a ignorá-lo, tentando não deixar transparecer o quanto ele mexia comigo.
— Oi, terra chamando Amanda!— Chiara estalou os dedos na minha frente, me tirando daquele transe.
— Desculpa, o que você disse?— perguntei, me esforçando para prestar atenção na conversa.
Mas antes que ela pudesse responder, algo completamente inesperado aconteceu. Nicolo, agora parado ao lado da nossa mesa, tirou uma folha de papel dobrada do bolso e a jogou na minha direção. Caiu bem em cima da minha bandeja, atraindo a atenção de todos à mesa.
— O que é isso?— perguntei, irritada, pegando o papel. Não sabia se ele estava tentando me provocar novamente, mas, ao desdobrar a folha, vi que era um desenho. Meu rosto, desenhado com traços incrivelmente precisos, olhava para mim de volta. O detalhe era impressionante, e a familiaridade do estilo me lembrou imediatamente do desenho que havia encontrado junto com a blusa no meu armário dias antes.
— Você desenhou isso?— perguntei, confusa e desconfiada.
— Você acha que é alguém mais?— Ele respondeu com um meio sorriso, seu tom carregado de cinismo. — Pensei que você gostaria de ver o original.
Eu fiquei em choque, segurando o desenho enquanto minha mente tentava processar o que estava acontecendo. Aquilo era uma provocação? Uma maneira distorcida de tentar se aproximar de mim?
— Você é doente, sabia?— Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. O silêncio ao redor da mesa foi instantâneo.
Ele arqueou a sobrancelha, claramente satisfeito com a minha reação. — Eu só fiz uma homenagem. Achei que você gostasse de se ver pelos olhos dos outros.
Roberta e Chiara olhavam de um para o outro, sem saber o que dizer, enquanto eu me levantava da mesa, ainda segurando o desenho.
— Se acha que esse tipo de coisa vai me impressionar ou me deixar lisonjeada, está muito enganado— disse, tentando manter a calma. — Eu não sou uma peça do seu joguinho.
Ele deu um passo à frente, e eu senti a tensão no ar. Seu rosto se aproximou do meu, mas o sorriso cínico ainda estava ali.
— Você acha que não? Então por que parece tão afetada sempre que estou por perto?— ele sussurrou, de um jeito que só eu conseguia ouvir. — Você não sai da minha cabeça, Amanda.
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Tra il Sole e il Mare (Sem Revisão)
RomanceAmanda, uma carioca de alma livre, vê sua vida virar de cabeça para baixo quando descobre que sua mãe vai se casar com seu padrasto italiano e a leva para uma nova vida na encantadora Florença. Longe do sol e das praias do Rio, ela precisa se adapta...
