Nicolo
Entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim, tentando deixar para trás a raiva sufocante que tinha se acumulado no escritório. O lugar estava como sempre: arrumado demais, tudo no lugar, como se refletisse a imagem que meu pai esperava que eu mantivesse. Mas aqui, no meu espaço, eu podia ser um pouco mais... eu mesmo.
Caminhei até a escrivaninha e me joguei na cadeira de couro. O bloco de desenho estava lá, com o lápis ao lado, esperando por mim. Pegar o lápis sempre foi a única coisa que conseguia me acalmar quando tudo ao redor parecia desmoronar. Desenhar era o meu jeito de colocar os pensamentos em ordem, de afastar as expectativas e as cobranças que sempre me sufocavam.
Sem pensar muito, comecei a rabiscar. Meus traços eram rápidos e precisos, as linhas fluíam quase por instinto. O papel parecia me chamar, e eu fui seguindo o movimento da mão, deixando que o lápis guiasse meus pensamentos. Por alguns minutos, tudo ao meu redor desapareceu.
Então, de repente, percebi o que estava desenhando. Minha mão parou no meio de um traço e, quando olhei para o papel, lá estava ela: Amanda. Seu rosto, seus cabelos caindo suavemente sobre os ombros, e... seu corpo. Havia algo delicado e forte na maneira como eu a tinha retratado, como se, mesmo sem perceber, tivesse capturado a essência dela no papel.
Suspirei, largando o lápis sobre a mesa com um ruído seco. Passei a mão pelo rosto, frustrado comigo mesmo. Como ela tinha se infiltrado assim nos meus pensamentos, a ponto de aparecer no papel sem que eu sequer percebesse?
Inclinei a cabeça para trás e encarei o teto por um momento, tentando entender o que estava acontecendo comigo. Amanda não era apenas uma garota qualquer, e eu sabia disso desde o momento em que a vi. Talvez fosse sua maneira de me encarar, sem medo, ou o jeito que ela parecia indiferente a tudo que normalmente fazia os outros se curvarem diante de mim. Ela não se impressionava, e isso me intrigava mais do que eu queria admitir.
Olhei de novo para o desenho. As linhas suaves que formavam seu rosto, a expressão calma que eu tinha capturado quase sem querer... Algo ali me prendia, me incomodava de um jeito que eu não sabia explicar. Fechei o bloco com um suspiro profundo, tentando afastar os pensamentos, mas sabia que ela já estava alojada na minha mente.
°°°
Amanda
Enquanto me arrumava para mais um dia de aula, prendi o cabelo em um rabo de cavalo e encarei meu reflexo no espelho. A luz da manhã entrava pela janela, iluminando o quarto e, no meio do silêncio, ouvi um leve barulho. Virei-me, surpresa, e vi Jéssica encostada na porta, me observando com um sorriso travesso.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, franzindo a testa. Era estranho vê-la tão cedo, especialmente porque eu sabia que ela adorava dormir até tarde.
Ela deu de ombros, como se o motivo fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— É muito entediante passar a manhã toda sozinha, sem nada para fazer... — disse ela, arrastando as palavras com aquela típica preguiça dela.
Eu suspirei, já imaginando onde essa conversa ia chegar. Jéssica não acordava cedo sem um motivo. Cruzei os braços e a encarei, desconfiada.
— Sei. E o que você quer com isso?
Ela riu, o brilho malicioso nos olhos, e antes que pudesse responder, já estava se aproximando de mim.
— Pensei em dar uma passadinha na sua escola hoje. — A sugestão saiu com naturalidade, como se fosse o plano mais lógico.
— O quê? — perguntei, surpresa. — Jéssica, você nem é aluna lá. Eu nem sei se essa escola permite visitantes.
Ela revirou os olhos, como se eu estivesse complicando demais.
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Tra il Sole e il Mare (Sem Revisão)
RomansaAmanda, uma carioca de alma livre, vê sua vida virar de cabeça para baixo quando descobre que sua mãe vai se casar com seu padrasto italiano e a leva para uma nova vida na encantadora Florença. Longe do sol e das praias do Rio, ela precisa se adapta...
