Capítulo 44

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Nicolo

Acordei antes do sol nascer, a tensão no peito me impulsionando a levantar. Depois de tomar um banho gelado para clarear a mente, vesti um terno impecável, o que era quase automático para mim. Anos sendo treinado por meu pai fizeram isso. Minha aparência precisava estar à altura das expectativas que ele sempre colocou sobre mim. Mas hoje não era para agradá-lo. Era para derrubá-lo.

Saí de casa sem tomar café, minha mente já projetando cada detalhe do que aconteceria. O trajeto até a empresa foi rápido, e quando estacionei, respirei fundo. Agora era o momento.

Assim que entrei no prédio, a secretária, Sofia, me olhou surpresa, seus olhos se arregalando como se tivesse visto um fantasma.

— Sr.Nicolo? O que senhor está fazendo aqui em uma segunda? — ela perguntou, segurando os óculos com uma das mãos.
— Meu pai está me esperando — respondi com firmeza, dando um pequeno sorriso controlado.
— Ah, claro... Vou avisá-lo... — Ela já estava pegando o telefone quando interrompi.
— Não é necessário — disse, ajeitando o paletó. — Ele já sabe que estou aqui.

Ela hesitou por um momento, claramente desconfortável, mas não questionou. Apenas assentiu e voltou a focar em sua tela.

Caminhei até a sala de reuniões, sentindo o peso de cada passo. Ao abrir a porta, vi que algumas pessoas já estavam acomodadas ao redor da longa mesa de vidro. Conhecia cada uma delas — acionistas, parceiros, pessoas que, até certo ponto, admiravam meu pai. Ou, talvez, apenas temessem a influência dele.

Eles me cumprimentaram com olhares curiosos e acenos educados, mas não falei nada. Escolhi um assento estratégico, onde ficaria de frente para a entrada da sala. Meu pai ainda não estava ali, o que significava que eu teria tempo para observar.

Não demorou muito. A porta se abriu e, ao vê-lo entrar, senti uma onda de adrenalina correr pelo meu corpo.

Ele parou ao me ver. O choque foi instantâneo, estampado em sua expressão antes que pudesse esconder. Seu rosto ficou tenso, seus olhos me analisando rapidamente. Era como se tentasse calcular o motivo de minha presença ali, mas, em questão de segundos, ele recobrou a postura. A máscara de indiferença voltou, como se nada o abalasse.

— Nicolo — ele disse, com um sorriso forçado que não alcançava os olhos. — Que surpresa vê-lo aqui.

Eu apenas o encarei, mantendo a calma. Ele sabia que eu estava ali por um motivo. E, mais importante, sabia que eu não estava ali para jogar o jogo dele.

— Achei que seria uma boa ideia participar dessa reunião, pai — respondi, minha voz firme, mas carregada de ironia. — Afinal, você sempre disse que eu deveria aprender a lidar com os negócios.

Ele deu um riso breve, falso, e se virou para cumprimentar os outros na sala. Mas, ao sentar-se na cabeceira da mesa, vi a tensão em seus ombros.

Meu pai começou a reunião com a postura confiante de sempre, como se nada pudesse abalá-lo. Ele se levantou, ajeitando o paletó, e caminhou até o painel na frente da sala. Com um controle remoto em mãos, ele projetou um gráfico sobre crescimento e expansão no mercado internacional.

— Como vocês podem ver — começou ele, apontando para os dados com um laser — o próximo trimestre será crucial para atingirmos as metas que estabelecemos no último encontro. Nosso foco será aumentar a presença na Ásia e consolidar as operações na Europa.

Enquanto falava, notei algo incomum: sua voz estava um pouco mais apressada do que de costume. Ele olhava para mim a cada poucos segundos, e, em alguns momentos, trocava palavras ou hesitava levemente, o que era completamente atípico. Donato nunca demonstrava nervosismo, mas hoje estava claro que minha presença o incomodava.

Tra il Sole e il Mare (Sem Revisão)Onde histórias criam vida. Descubra agora