Capítulo 26

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Assim que Ippolita parou diante da porta, ela se virou para mim e disse, com um leve sorriso:

— Você pode entrar, querida. Ele está lá dentro.

Engoli em seco, tentando acalmar a tempestade de pensamentos que passava pela minha cabeça, e coloquei a mão na maçaneta. Abri a porta lentamente, ouvindo o leve ranger das dobradiças, e entrei no quarto, fechando a porta atrás de mim.

O quarto era enorme e escuro, com pesadas cortinas bloqueando quase toda a luz de fora. A primeira coisa que notei foram algumas garrafas de bebida espalhadas pelo chão, uma bagunça que destoava do ambiente elegante. O cheiro era uma mistura de álcool e o ar abafado de um lugar que não havia sido ventilado por um tempo.

Meus olhos se moveram em direção à cama, que estava completamente desarrumada. Lá, entre os lençóis amassados, eu podia ver uma figura deitada. A televisão, quase esquecida, estava ligada, mas o volume era tão baixo que mal se ouvia o que estava passando. Por um instante, fiquei ali parada, sem saber exatamente como começar.

— Nicolo? — chamei, minha voz quase um sussurro, enquanto dava alguns passos hesitantes para dentro do quarto.

Nenhuma resposta. Ele estava deitado de costas, o rosto meio coberto por um braço. Não sabia se ele estava dormindo ou simplesmente me ignorando. Meu coração batia acelerado, sentindo o peso daquele silêncio desconfortável.

Respirei fundo e me aproximei mais da cama, passando por cima de uma garrafa caída no caminho. Aproximei-me o suficiente para vê-lo com mais clareza, a preocupação crescendo ao notar sua expressão cansada, os olhos fechados, mas as sobrancelhas ligeiramente franzidas, como se ele estivesse imerso em algum pensamento perturbador.

— Nicolo? — tentei de novo, desta vez com um pouco mais de firmeza.

Quando me aproximei da cama, meus olhos captaram os machucados no rosto de Nicolo, provavelmente resultado do acidente e da briga com Andreia. O rosto dele estava levemente marcado, mas o que mais chamou minha atenção foi a maneira como sua expressão transmitia um cansaço profundo, misturado com algo mais sombrio. Sem pensar muito, estendi a mão, querendo de alguma forma confortá-lo, talvez apenas tocar seu ombro. Mas antes que pudesse sequer encostar, senti seus dedos ao redor do meu pulso, segurando-me firme.

— O que você tá fazendo aqui? — Ele perguntou, a voz rouca, como se não falasse há horas. Meus olhos arregalaram, o susto subindo pelo meu corpo.

Nicolo se sentou na cama, ainda sem soltar meu pulso, e foi aí que eu reparei melhor: ele estava sem camisa. O tronco dele, marcado com hematomas roxos, era uma lembrança viva do acidente. Me senti um pouco tonta ao vê-lo naquele estado. Mesmo machucado, Nicolo ainda mantinha aquela aura de força, mas dessa vez, havia algo quebrado por trás disso.

— Eu… eu soube do acidente — murmurei, tentando recuperar o fôlego que parecia ter sumido quando ele me pegou de surpresa. — Fiquei preocupada.

Ele soltou meu pulso devagar, deixando a mão cair ao lado da cama enquanto me encarava com olhos semicerrados, como se tentasse processar minhas palavras.

— Você não devia estar aqui. — Ele suspirou, levando a mão ao rosto, passando os dedos pelos cabelos bagunçados. — Isso não tem nada a ver com você.

Meus pés ficaram enraizados no chão por um momento, sem saber o que responder. A verdade era que eu nem sabia por que estava ali, mas algo dentro de mim me impulsionou a vir. Eu não conseguia simplesmente ignorar o que tinha acontecido, especialmente depois de vê-lo naquela briga, depois de tudo o que ele fez.

— Eu… sei que você não queria que eu viesse — comecei, sentindo o nervosismo na minha voz — mas eu me senti culpada. E preocupada. A verdade é que, por mais que eu tente, eu não consigo ignorar o que aconteceu ontem. Nem você.

Tra il Sole e il Mare (Sem Revisão)Onde histórias criam vida. Descubra agora